Por que Jerônimo aposta na polarização mesmo com a gestão a seu favor
Em ampla vantagem no debate sobre gestão, o governador adota a polarização não para garantir a vitória, que já lhe parece ao alcance, mas para ampliar-lhe a margem e firmar-se como uma das principais lideranças do lulismo.

Por Jerbson Moraes
Manejo Notícias
Convém desfazer, de saída, o equívoco mais comum na leitura da frase com que o governador Jerônimo Rodrigues recebeu a passagem do senador Flávio Bolsonaro pela Bahia. Quando afirma que “Deus nos livre de um resgate do bolsonarismo”, o governador não fala como quem depende do confronto para vencer, mas como quem, já tendo a vitória ao alcance, persegue outra coisa, qual seja, dilatar-lhe a margem e consolidar, no mesmo movimento, sua posição como uma das lideranças de primeira grandeza do campo lulista. A frase não é desabafo nem reação improvisada, e sim o sintoma de uma decisão tomada com método, cuja singularidade só se revela quando se observa de que posição ela é proferida.
E a posição é de larga vantagem. No terreno da gestão, o petismo baiano não disputa com o bolsonarismo em pé de igualdade, mas lhe aplica, para usar a expressão direta, um banho. São quase duas décadas de hegemonia erguidas sobre uma rede de obras, de programas sociais, de expansão dos serviços públicos e de capilaridade institucional que a oposição não tem como contrapor, ao passo que os quatro anos de Jair Bolsonaro na Presidência se encerraram sem deixar à Bahia uma única entrega de vulto em infraestrutura, investimento ou política pública. Quem coteja realizações encontra, de um lado, um projeto de governo consolidado, e, do outro, um vazio.
O ponto que de fato merece exame é outro. Jerônimo não recorre à polarização para compensar uma deficiência política, mas para potencializar uma vantagem que já possui. Em regra, lideranças apelam ao confronto ideológico quando lhes faltam resultados capazes de sustentar uma narrativa administrativa consistente, de sorte que o acirramento costuma ser o recurso de quem nada tem a exibir; na Bahia, contudo, a equação inverte-se, porquanto o governador não abandona o terreno das realizações por lhe ser desfavorável, mas o faz mesmo sabendo que nele detém ampla superioridade. A estratégia consiste em agregar, à vantagem administrativa que já lhe pertence, uma vantagem de outra natureza, a emocional, convertendo em mobilização aquilo que a gestão, isoladamente, apenas converteria em aprovação.
Há razão de sobra para o cálculo, pois eleições raramente se decidem apenas pela avaliação racional dos governos, decidindo-se também pela capacidade de transformar apoiadores em defensores de uma causa, e causas políticas mobilizam muito mais do que balanços administrativos. Uma gestão vitoriosa produz aprovação, sentimento sólido porém morno, que reconhece o bom serviço sem necessariamente arrastar o eleitor até a urna, ao passo que uma identidade em disputa produz militância, e é a militância que decide pleitos apertados. Ao proclamar que o país deve livrar-se do bolsonarismo, o governador não busca persuadir o adversário nem disfarçar fragilidade alguma de governo, mas converter a aprovação difusa de quem aplaude sua administração no engajamento ativo de quem se sente convocado a barrar um retrocesso.
Soma-se a isso uma tese recorrente nos bastidores de Brasília, segundo a qual a esquerda, conquanto combata o bolsonarismo, dele também se serve. Um antagonista fortemente rejeitado por parcela expressiva do eleitorado funciona como argamassa de uma coalizão ampla, que se estende da esquerda tradicional ao centro democrático; suprimido esse adversário externo, a disputa tenderia a migrar para o interior do próprio campo governista. Conservar o bolsonarismo no horizonte é, por isso, menos um acidente do discurso do que uma peça calculada da engenharia eleitoral.
Na Bahia, o cálculo ganha camada adicional. O estado figura entre os redutos mais sólidos do petismo, de modo que manter alto o grau de rejeição ao bolsonarismo equivale a blindar o patrimônio político acumulado por Luiz Inácio Lula da Silva e por Jaques Wagner ao longo de sucessivas gestões, patrimônio ao qual a própria ascensão de Jerônimo se acha diretamente vinculada. Ao enfrentar o adversário de modo explícito, o governador reafirma à base que segue fiel ao núcleo ideológico que o elegeu, gesto voltado menos a conquistar votos no campo contrário do que a impedir a dispersão entre os próprios aliados.
Sob esse prisma, a frase que abriu a controvérsia não representa episódio isolado nem reação espontânea, mas uma senha política cuidadosamente emitida à militância, às lideranças partidárias e ao eleitorado de centro-esquerda, sinalizando que a estratégia de 2026 já começou a ser executada. O que Jerônimo parece perseguir não é propriamente a vitória, que a força acumulada da gestão lhe coloca ao alcance, mas a dimensão dessa vitória. Busca transformá-la de simples resultado eleitoral em demonstração de força política, capaz de consolidar sua liderança no estado e ampliar sua relevância no cenário nacional.
É precisamente aí que reside a singularidade de seu movimento. Em vez de utilizar a polarização como abrigo contra fragilidades administrativas, ele a utiliza como multiplicador de uma posição já favorável. Apoia-se simultaneamente sobre duas colunas: a legitimidade produzida pelas realizações de governo e a capacidade mobilizadora da identidade política. A primeira lhe assegura vantagem. A segunda pode ampliar essa vantagem e convertê-la em hegemonia.
Ao nacionalizar antecipadamente o debate baiano, Jerônimo desloca a disputa do terreno exclusivo da gestão para o terreno mais amplo dos pertencimentos políticos, onde o eleitor não apenas avalia governos, mas escolhe lados. E, ao fazê-lo, envia uma mensagem que ultrapassa as fronteiras da Bahia: pretende chegar a 2026 não apenas como governador em busca de continuidade, mas como uma das vozes mais relevantes do lulismo no Nordeste.
Por isso, a declaração vale muito mais pelo que revela do que pelo que diz. Nela não se encontra apenas uma crítica ao bolsonarismo, mas a exposição de uma estratégia. E toda estratégia, quando anunciada com antecedência, permite compreender não apenas a próxima eleição, mas o campo em que ela será travada. Se a leitura estiver correta, Jerônimo já fez sua escolha: disputar 2026 com a força das obras, mas também com a energia da polarização; com a aprovação que nasce da gestão, mas sobretudo com a mobilização que nasce da identidade.



