ANÁLISE & OPINIÃO

POR QUE JERÔNIMO VENCERÁ NO PRIMEIRO TURNO

A primeira AtlasIntel/A TARDE do ciclo mostra ACM Neto numericamente à frente. Leio nesses mesmos números o contrário do que a manchete sugere, e digo desde logo o que precisaria acontecer para que eu esteja errado Jerbson Almeida Moraes

Em julho recomendei prudência nesta coluna. Em agosto sustentei que a eleição seguia aberta. A leitura que faço hoje me obriga a ir adiante, e vou: Jerônimo Rodrigues será reeleito governador da Bahia no primeiro turno.

Faço a afirmação sabendo o que ela custa e delimitando desde logo o seu alcance. A pesquisa AtlasIntel/A TARDE divulgada nesta quinta-feira, registrada no Tribunal Superior Eleitoral sob o número BA-08891/2026, atribui a ACM Neto 48,8% das intenções de voto e a Jerônimo Rodrigues 47,5%, com margem de erro de dois pontos percentuais, o que caracteriza empate técnico com vantagem numérica do candidato de oposição. Nos votos válidos o quadro é de 50,0% contra 48,7%. Quem tomar o levantamento como retrato do presente terá razão ao dizer que o governador está atrás, e não pretendo dizer o contrário.

Sustento coisa diversa, que é um prognóstico, e prognóstico se defende pela estrutura da disputa, nunca pela sua fotografia. A eleição baiana chegou a setembro de 2026 com uma assimetria que reputo decisiva entre os dois adversários: ACM Neto precisa preservar quase integralmente aquilo que já reuniu, ao passo que Jerônimo dispõe de uma reserva eleitoral identificável e mensurável que ainda não converteu em voto. É essa assimetria que passo a demonstrar, indicando ao final as circunstâncias capazes de desmentir-me.

O limite de ACM Neto

A leitura corrente da Atlas registra a liderança do ex-prefeito de Salvador. Uma leitura mais atenta observa que ele alcançou em setembro o patamar de que necessitaria em outubro sem conseguir, ainda assim, abrir vantagem estatística sobre o adversário. Os 50,0% dos votos válidos que reúne coincidem com a linha da maioria absoluta e sequer a superam, pois a decisão em turno único exige que se ultrapasse metade dos votos válidos, não que se os alcance. A oposição está, portanto, na posição de quem não pode perder um único ponto líquido do que já possui e ainda precisa acrescentar alguma coisa, exigência das mais severas em campanha estadual que atravessará semanas de horário eleitoral gratuito e de mobilização municipal crescente.

O governador se encontra em situação distinta. Faltam-lhe pouco mais de 1,3 ponto percentual para a maioria absoluta, e sua candidatura ainda não completou o movimento político do qual pode extrair votos adicionais. O que separa os dois candidatos nesta altura tem menos a ver com o número de hoje do que com a direção em que cada um deles ainda pode caminhar.

O eleitor lulista que ainda vota na oposição

Deixou de ser pertinente perguntar se Jerônimo é competitivo, porque a série de pesquisas do ciclo já respondeu afirmativamente. A pergunta que importa passou a ser quantos eleitores de Lula que hoje declaram voto em ACM Neto conservarão essa divisão quando a disputa estadual estiver nacionalizada.

Esse contingente não é invenção de articulista. Ao apresentar os números desta quinta-feira, o presidente da AtlasIntel, cientista político Andrei Roman, apontou a entrada de Lula na campanha como a variável capaz de reverter o quadro, observando existir parcela de eleitores lulistas que ainda declara voto no candidato de oposição, e acrescentou que o poder de Lula para orientar o voto supera o de ACM Neto, de modo que a nacionalização das preferências favorece o governador.

A reserva comporta estimativa. Na Quaest contratada pela TV Bahia, com campo entre 23 e 26 de agosto e registro BA-06206/2026, Lula reuniu 53% das intenções de voto para a Presidência na Bahia enquanto Jerônimo marcava 37% para o governo do estado, distância de dezesseis pontos percentuais apurada no mesmo levantamento e junto ao mesmo eleitorado. O governador não precisa buscar votos em terreno desconhecido. Precisa recuperar fração daquilo que a sua própria coligação já obtém no andar superior da cédula.

O mesmo levantamento oferece a radiografia ideológica desse eleitorado, na qual 28% dos baianos se declararam lulistas e 16% de esquerda não lulista, contra 5% de bolsonaristas e 10% de direita não bolsonarista, além de 36% de independentes. Estado cujo eleitorado se identifica com o campo do governo federal em proporção quase três vezes superior à do campo adversário não constitui terreno natural para a vitória de uma candidatura de oposição, e a nacionalização da campanha tende a explicitá-lo.

A evidência do Senado

Quem duvidar da escala desse voto dividido encontra na própria AtlasIntel a demonstração aritmética. Na disputa pelas duas vagas ao Senado, Rui Costa reúne 31,6% e Jaques Wagner 26,5% dos votos válidos, enquanto João Roma soma 20,4% e Ângelo Coronel 17,9%. O campo governista concentra 58,1% dos votos válidos atribuídos ao Senado, e o campo oposicionista, 38,3%.

Como cada eleitor dispõe de dois votos nessa disputa, tais percentuais não se convertem diretamente em proporção de eleitores, e afirmar o contrário seria desonestidade analítica. A assimetria, contudo, é ampla demais para admitir explicação diversa da existência de contingente expressivo de baianos que escolhe Rui e Wagner para o Senado e ACM Neto para o governo. A Quaest de agosto reproduz o mesmo desenho em outra metodologia, com Rui em 23% e Wagner em 17% contra 7% de Roma e 5% de Coronel. É esse eleitor concreto que decidirá a eleição, e ele já votou no campo governista em duas linhas da mesma cédula, faltando-lhe repetir o gesto na terceira.

A avaliação do governo e o que ela não explica

Cumpre enfrentar o dado que milita contra a tese, e ele se encontra na mesma pesquisa que invoco. A AtlasIntel mediu a avaliação da gestão Jerônimo e apurou 44% de ótimo e bom contra 42% de ruim e péssimo, com 14% de regular. Andrei Roman foi explícito ao registrar pressão negativa sobre as chances de reeleição em razão dos indicadores de aprovação estadual e federal, apontando no índice de ruim e péssimo a marca da polarização na avaliação da gestão. Acrescento por conta própria um segundo argumento adverso: Roman observou que pouca gente mudou de lado e que poucos eleitores de Jerônimo migrariam para ACM Neto, e vice-versa. Se o eleitorado está travado, a reserva de que trato pode não se mover.

A resposta a essa objeção é aritmética e está contida na própria Atlas. Jerônimo registra 47,5% das intenções de voto e apenas 44% de avaliação positiva, o que significa dizer que o voto já recebido pelo governador supera a aprovação da sua gestão, e que parcela do seu eleitorado decide por critério diverso do desempenho administrativo estadual, a saber, pela filiação política nacional. Se a aprovação não explica o voto que ele já detém, tampouco pode ser tomada como limite do voto que ainda pode obter, razão pela qual o dado prova, para a oposição, menos do que aparenta.

Há ainda indicador que a leitura pessimista costuma ignorar. Na Quaest de agosto, quando os nomes não são apresentados ao entrevistado, Jerônimo aparece com 23% e ACM Neto com 20%, restando 54% de indecisos. A pesquisa espontânea é o teste mais severo de consolidação da preferência, porquanto não oferece muleta ao eleitor, e nela o governador não está atrás. A observação de Roman descreve ausência de migração até aqui, o que é fato verificado, sem descrever impossibilidade de migração adiante, o que seria previsão, e previsão que a última eleição estadual da Bahia desmentiu.

O precedente de 2022

Não se analisa a Bahia de 2026 sem retornar a julho de 2022. A Genial/Quaest divulgada em 15 de julho daquele ano, com campo entre os dias 9 e 12 e registro BA-05185/2022, atribuía a ACM Neto 61% das intenções de voto e a Jerônimo Rodrigues 11%, cinquenta pontos de diferença, ao mesmo tempo em que media, no mesmo estado, 62% para Lula contra 19% de Bolsonaro. A distância entre o voto nacional e o voto estadual era monumental, e foi ela que se fechou nas semanas seguintes.

O desfecho é conhecido. No primeiro turno de 2 de outubro de 2022 Jerônimo terminou à frente com 49,45% dos votos válidos na totalização final, contra 40,80% de ACM Neto, números que o Tribunal Superior Eleitoral havia registrado como 49,33% e 40,88% na noite da apuração, com 99,17% das seções totalizadas. Em 30 de outubro venceu o segundo turno por 52,79% contra 47,21%, diferença de 473.441 votos.

Interessa menos o resultado do que o mecanismo que o produziu, e este está documentado no mapa municipal daquele primeiro turno, no qual Lula venceu em 415 dos 417 municípios baianos enquanto Jerônimo venceu em 352. Havia, portanto, dezenas de municípios em que o eleitor escolheu Lula para a Presidência e outro nome para o governo do estado. O cientista político Cláudio André, em análise publicada em A TARDE, mediu a mesma distância no segundo turno: nos 22 Territórios de Identidade em que Jerônimo se saiu vencedor, a votação média de Lula alcançou 75%, superando a do governador em 14,3 pontos percentuais. O voto dividido entre a linha presidencial e a linha estadual constitui padrão medido e publicado na Bahia recente.

Cabe ainda a comparação metodologicamente honesta, que é a da Atlas consigo mesma. Na véspera do primeiro turno de 2022, em levantamento divulgado em 1º de outubro, o instituto projetava 47,7% dos votos válidos para Jerônimo e 40,9% para ACM Neto, tendo sido um dos que mais se aproximaram das urnas em pleito no qual a maioria dos institutos errou por larga margem. O desvio residual ficou entre 1,6 e 1,8 ponto percentual, conforme se tome o número da noite da apuração ou o da totalização final, e correu contra o petista. Não afirmo conhecer a causa desse desvio nem sustento que observação isolada constitua fator de correção aplicável a outro pleito, o que seria estatisticamente indefensável. Limito-me ao que é verificável: a Atlas encontra hoje Jerônimo com 48,7% dos votos válidos a um mês da eleição, um ponto percentual acima da projeção que fazia para ele na véspera do primeiro turno de 2022.

A conta

A distância comporta medida exata. Jerônimo tem 48,7% dos votos válidos e a maioria absoluta exige ultrapassar 50%, de sorte que acréscimo de exatamente 1,3 ponto o levaria a 50,0% sem lhe assegurar a eleição. Necessita, portanto, de algo mais do que isso.

Tomada a escala da Bahia em 2022, quando o primeiro turno apurou pouco mais de oito milhões de votos válidos para governador, o acréscimo corresponde a algo entre cento e cinco mil e cento e dez mil eleitores, em um estado que hoje reúne cerca de 11,1 milhões de aptos a votar distribuídos por 417 municípios. Trata-se de volume modesto diante do contingente que, conforme demonstrado acima, já vota no campo governista para a Presidência e para o Senado.

O território

Resta aquilo que nenhum levantamento apreende em uma única pergunta. Desde 2006 o mesmo campo político venceu todas as eleições para o governo da Bahia, com Jaques Wagner em 2006 e 2010, Rui Costa em 2014 e 2018 e Jerônimo Rodrigues em 2022, quatro dessas cinco vitórias obtidas em turno único. Vinte anos de exercício do poder estadual não produzem votos por si mesmos, mas produzem capilaridade, que é coisa distinta e mais durável.

A tradução eleitoral dessa capilaridade está no mapa de 2022. Conforme apuração do Tribunal Superior Eleitoral, Jerônimo foi o candidato mais votado em 364 dos 417 municípios baianos no segundo turno, contra 53 de ACM Neto, cuja votação se concentrou nos maiores colégios eleitorais, entre eles Salvador, Feira de Santana, Vitória da Conquista e Itabuna. Estrutura capaz de produzir distribuição territorial dessa ordem não se desfaz em quatro anos, e opera com intensidade crescente à medida que a eleição se aproxima, quando o compromisso de prefeitos e lideranças municipais se converte em mobilização.

Soma-se a isso vantagem que o governador não possuía em 2022, quando lhe cabia tornar-se conhecido e convencer ao mesmo tempo. Cumprida a primeira tarefa, a campanha pode concentrar energia na associação entre o governo federal, o governo estadual e a continuidade de um projeto. A oposição trabalhará para transformar a eleição em julgamento da administração estadual, e o governo, para transformá-la em escolha de projeto político. Quem definir a natureza da disputa provavelmente a vencerá, e a estrutura de preferências do eleitorado baiano favorece o segundo enquadramento.

Em que hipótese estarei errado

Previsão que não admite refutação não merece o nome de análise, e por isso enuncio as circunstâncias capazes de me desmentir.

A primeira delas está no comportamento do eleitor lulista que hoje declara voto em ACM Neto. Se essa divisão for estrutural, isto é, se a escolha estadual estiver assentada em avaliação de gestão robusta o bastante para resistir à nacionalização, a reserva de que trato não se moverá e a tese cai. A segunda diz respeito à avaliação do governo estadual medida pela Atlas, cujos 42% de ruim e péssimo podem prevalecer sobre a filiação partidária nacional no momento da decisão.

A terceira circunstância é a que mais me preocupa, e a registro com o mesmo cuidado com que registrei os dados favoráveis. A tabulação da Genial/Quaest de julho aponta que 40% dos eleitores baianos afirmam conhecer Jerônimo e não votar nele, contra 33% que dizem o mesmo de ACM Neto, sendo o potencial de voto de 50% para o governador e de 57% para o adversário. A rejeição de Jerônimo é hoje maior que a do seu oponente, e caso esse indicador não ceda ao longo da campanha morre a hipótese de primeiro turno, provavelmente com ela algo mais.

Restam duas condições de natureza operacional. Uma é a conversão efetiva da estrutura municipal em mobilização no interior, onde reside a vantagem comparativa do governo. A outra é a eventual capacidade de ACM Neto de ampliar sua votação além dos 50% que já reúne, o que lhe exigiria avanço em segmentos nos quais hoje é minoritário. Nenhuma dessas hipóteses é implausível e todas serão verificáveis em outubro, razão pela qual a previsão merece ser feita agora.

Em julho de 2022 cinquenta pontos percentuais separavam ACM Neto de Jerônimo Rodrigues, e Jerônimo venceu. Em setembro de 2026 a AtlasIntel encontra os mesmos adversários separados por 1,3 ponto no primeiro turno e por 0,6 ponto na simulação de segundo turno, com 50,3% contra 49,7% nos votos válidos. Há quem repute temerário imaginar a ultrapassagem. Reputo mais temerário imaginar que eleição tão equilibrada permanecerá congelada onde está quando o principal ativo eleitoral de um dos lados ainda não foi integralmente empregado.

A fotografia registra empate técnico com vantagem numérica de ACM Neto, e não pretendo que ela diga outra coisa. Minha leitura do filme, contudo, já tem desfecho, e o assumo por escrito: Jerônimo Rodrigues será reeleito governador da Bahia no primeiro turno.

 

Nota metodológica. AtlasIntel/A TARDE, 1.804 entrevistas por recrutamento digital aleatório entre 28 de agosto e 2 de setembro de 2026, margem de erro de dois pontos percentuais, nível de confiança de 95%, registro TSE nº BA-08891/2026. Quaest/TV Bahia, campo entre 23 e 26 de agosto de 2026, 900 entrevistas, margem de erro de três pontos percentuais, registro TSE nº BA-06206/2026. Genial/Quaest, campo entre 23 e 27 de julho de 2026, 1.200 entrevistas, margem de erro de três pontos percentuais, registro TSE nº BA-02331/2026. Genial/Quaest de julho de 2022, 1.140 entrevistas entre 9 e 12 de julho, margem de erro de 2,9 pontos, registro TSE nº BA-05185/2022. AtlasIntel/A TARDE divulgada em 1º de outubro de 2022. Resultados eleitorais de 2022 conforme apuração e totalização do Tribunal Superior Eleitoral. Análise territorial de Cláudio André conforme artigo publicado no jornal A TARDE.

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