ANÁLISE & OPINIÃO

A fotografia mudou, o filme confirmou o movimento

Um mês depois do alerta contra prognósticos prematuros, a nova Quaest não aponta vencedor, mas reforça os sinais que recomendavam cautela: Jerônimo amplia a vantagem espontânea, reduz a distância no segundo turno e segue tecnicamente empatado com ACM Neto

Há exatamente um mês, em 29 de julho, esta coluna sustentou uma posição que contrariava boa parte das interpretações então predominantes sobre a eleição baiana: era cedo para transformar o segundo turno em destino inevitável e mais cedo ainda para considerar consolidada qualquer vantagem sobre o governador Jerônimo Rodrigues.

O argumento não nasceu de torcida nem da pretensão de adivinhar pesquisas futuras. Partia de elementos concretos: a história eleitoral recente da Bahia, a força territorial do campo político que governa o estado desde 2007, o efeito da incumbência, a presença do governador no interior e, sobretudo, um dado que começava a aparecer discretamente na Genial/Quaest daquele momento. Pela primeira vez, Jerônimo surgia numericamente à frente de ACM Neto na intenção espontânea.

A pesquisa divulgada em 27 de agosto permite agora fazer algo mais útil do que reivindicar acerto. Permite submeter aquela análise ao teste dos fatos, e os fatos merecem atenção.

O número que parecia pequeno ficou maior

Em julho, a espontânea registrava Jerônimo com 18% e ACM Neto com 17%, diante de 63% de eleitores que não mencionavam nome algum. A diferença era mínima e evidentemente não autorizava proclamar liderança estatística. Foi precisamente por isso que a coluna anterior não converteu aquele 18 a 17 em previsão eleitoral. O que se afirmou foi outra coisa: a passagem de Jerônimo à frente de um adversário com o grau de conhecimento público de ACM Neto constituía fenômeno político que merecia acompanhamento.

A segunda fotografia agora existe. Na Quaest de 27 de agosto, Jerônimo aparece com 23% na espontânea e ACM Neto com 20%, enquanto os que não citam candidato algum caem para 54%. Em cerca de um mês, o governador avançou cinco pontos nesse indicador e o ex-prefeito avançou três. Mais relevante do que o avanço isolado é o que ocorreu simultaneamente: o universo da indefinição encolheu nove pontos e, ainda assim, Jerônimo não apenas preservou a dianteira numérica como ampliou a distância de um para três pontos.

Uma pesquisa isolada poderia ser apenas uma fotografia. Duas fotografias não se transformam automaticamente em tendência estatística, mas já permitem enxergar um movimento que deixou de ser desprezível.

O teste decisivo veio com a queda dos indecisos

Este é provavelmente o dado mais importante para compreender o que está acontecendo. Em julho, quase dois em cada três baianos não mencionavam espontaneamente candidato algum, e em agosto são pouco mais da metade. Nove pontos percentuais do eleitorado deixaram a condição de indefinição espontânea nesse intervalo e, no mesmo período, Jerônimo ganhou cinco pontos de citações e ACM Neto ganhou três.

Nenhuma pesquisa de opinião autoriza estabelecer relação causal direta entre esses números, porque levantamentos sucessivos não rastreiam individualmente o destino de cada entrevistado. Existe, contudo, um fato incontornável: à medida que a indefinição diminui, o governador cresce mais do que o adversário nesse indicador. Era exatamente essa a possibilidade que justificava a cautela recomendada em julho, quando tantos já tratavam a disputa como resolvida.

A estimulada impõe prudência, e isso também precisa ser dito

Uma análise séria não seleciona apenas os números que confirmam a própria hipótese. Na pesquisa estimulada de julho, ACM Neto tinha 39% e Jerônimo, 38%. No cenário comparável de agosto, ACM Neto mantém 39% e Jerônimo registra 37%. O ex-prefeito permaneceu estável e o governador oscilou um ponto para baixo, dentro de uma margem de erro de três pontos percentuais que mantém os dois tecnicamente empatados.

Esse resultado impede qualquer narrativa séria de arrancada eleitoral de Jerônimo, e impede, com igual força, a narrativa oposta. Depois de um mês de intensa movimentação política e já sob campanha, ACM Neto continua sem estabelecer vantagem estatisticamente segura sobre o governador. Em julho eram 39 a 38, agora são 39 a 37. Quem procurar uma eleição resolvida nesses números terá de procurá-la fora da pesquisa.

No segundo turno, a distância diminuiu

Há outro indicador que merece ser colocado lado a lado. Em julho, a simulação de segundo turno apontava ACM Neto com 43% e Jerônimo com 39%, uma distância de quatro pontos. Em agosto, ACM Neto tem 44% e Jerônimo, 41%. O ex-prefeito cresceu um ponto, o governador cresceu dois e a diferença caiu de quatro para três.

Tudo permanece dentro da margem de erro, de modo que seria incorreto anunciar tendência comprovada. Mas também aqui o movimento observado é incompatível com a ideia de uma candidatura governista em processo evidente de desidratação. Jerônimo permanece rigorosamente dentro da disputa.

O que a análise de julho sustentava

Convém recuperar a tese anterior com exatidão, para não reconstruí-la retrospectivamente. A coluna não afirmou que Jerônimo venceria, tampouco que a vitória viria no primeiro turno ou que ACM Neto deixaria de ser adversário extremamente competitivo. Afirmou que tratar determinados desfechos como inevitáveis significava desconsiderar características importantes da política baiana, e apresentou razões.

A primeira era histórica. Em 2006, Paulo Souto entrou favorito e terminou derrotado por Jaques Wagner já no primeiro turno. Em 2022, ACM Neto começou a corrida com enorme vantagem sobre Jerônimo Rodrigues e terminou derrotado no segundo. Precedente não é profecia. Existe, porém, justamente para impedir que cenários conjunturais sejam tratados como estruturas permanentes.

A segunda razão era a incumbência. Jerônimo já não é o nome relativamente desconhecido apresentado ao eleitorado em 2022. É governador da Bahia, e a exposição institucional, as entregas, as agendas municipais e a presença cotidiana do governo ampliam sua visibilidade. A espontânea de julho ofereceu um primeiro sinal quantitativo dessa transformação, e a de agosto tornou o fenômeno mais nítido.

A terceira razão era estrutural. O grupo político liderado pelo PT venceu as cinco últimas eleições para o governo da Bahia, com Jaques Wagner em 2006 e 2010, Rui Costa em 2014 e 2018 e Jerônimo Rodrigues em 2022, sendo as quatro primeiras decididas no primeiro turno. São duas décadas de relações políticas e administrativas distribuídas pelos municípios baianos. Essa estrutura não garante vitória em 2026, mas imaginar que ela se dissolve a cada eleição seria tão equivocado quanto imaginar que ela torna a oposição incapaz de vencer.

A base de avaliação não recuou

A rodada de agosto oferece ainda indicadores que ajudam a compreender por que a disputa permanece equilibrada. A aprovação da gestão de Jerônimo Rodrigues permanece em 57%, contra 34% de desaprovação. O percentual dos que consideram que o governador merece ser reeleito passou de 52% para 53%, diante de 42% que pensam o contrário.

A estabilidade desses índices possui significado político próprio. O intervalo entre as duas pesquisas coincidiu com a entrada da eleição numa fase de maior exposição dos adversários e de intensificação das críticas ao governo. Ainda assim, a base de avaliação do governador não sofreu deterioração significativa, e é sobre ela que se apoia parte da hipótese de consolidação levantada em julho.

A disputa pelo Senado oferece uma medida complementar da força dos grupos políticos. Rui Costa aparece com 23% e Jaques Wagner com 17%, contra 7% de João Roma e 5% de Angelo Coronel. Como cada eleitor terá direito a dois votos, esses percentuais não devem ser lidos como numa eleição convencional de voto único. Ainda assim, a presença dos dois nomes governistas nas duas primeiras posições reforça a percepção de capilaridade do grupo.

O voto cruzado é a batalha central

Existe, entretanto, uma variável que talvez seja ainda mais importante para compreender os próximos movimentos. Jerônimo continua obtendo para governador um percentual inferior ao alcançado por Lula na eleição presidencial na Bahia, e é nesse espaço que se encontra o chamado voto “LuNeto”, o eleitor que prefere Lula para presidente, mas ACM Neto para governador. Para ACM, preservar essa dissociação é estratégico. Para Jerônimo, reduzi-la representa provavelmente sua maior possibilidade de crescimento. E existe um precedente extraordinariamente instrutivo.

O detalhe esquecido da pesquisa de 2022

Em 15 de julho de 2022, a Genial/Quaest produziu uma das fotografias mais impressionantes da história eleitoral recente da Bahia. No cenário estimulado convencional, ACM Neto reunia 61% das intenções de voto e Jerônimo Rodrigues marcava 11%, uma diferença de cinquenta pontos percentuais.

Aquela mesma pesquisa, contudo, testou um segundo cenário. Nele, os entrevistados foram informados de que Lula apoiaria Jerônimo e que Bolsonaro apoiaria João Roma, permanecendo ACM Neto sem vínculo nacional declarado. O resultado mudou de forma radical: ACM Neto caía para 43%, Jerônimo subia para 38% e Roma alcançava 11%. A diferença de cinquenta pontos virava cinco.

Convém precisar o que o dado significa. Não se trata de intenção de voto medida, e sim de reação a uma hipótese apresentada ao eleitor. O reordenamento também não decorria apenas do crescimento de Jerônimo, porque ACM Neto perdia parte de sua votação para um concorrente identificado à direita. Justamente por isso o experimento é revelador: ele mostra que a nacionalização da disputa reorganizava a escolha estadual nos dois flancos, e foi essa nacionalização que a campanha de 2022 acabou produzindo na prática.

O fenômeno hoje chamado de “LuNeto” não é, portanto, uma abstração criada por estrategistas. A tensão entre voto presidencial e voto estadual já era mensurável quatro anos atrás e desempenhou papel central naquela eleição. Nada disso significa que 2026 repetirá 2022.

A advertência de julho de 2022

A dimensão daquele precedente merece ser recordada. A Quaest ouviu 1.140 eleitores presencialmente entre os dias 9 e 12 de julho de 2022, e o levantamento apontava ACM Neto com 61%, Jerônimo Rodrigues com 11% e João Roma com 6%. Menos de três meses depois, Jerônimo terminou o primeiro turno na frente, com 49,33% dos votos válidos contra 40,88% de ACM Neto, e venceu o segundo turno com 52,79%. A diferença de cinquenta pontos registrada em julho não apenas desapareceu: o candidato que estava atrás terminou governador.

É evidente que isso não autoriza projetar repetição, mas autoriza uma pergunta. Se uma diferença de cinquenta pontos em julho de 2022 não permitiu antecipar o vencedor daquela eleição, com que fundamento uma diferença de dois pontos, dentro da margem de erro, poderia encerrar a eleição de 2026 em agosto? Essa talvez seja a advertência histórica mais importante de todas.

A pesquisa não prova a tese anterior. Faz algo melhor: permite testá-la

Existe uma tentação natural de usar uma pesquisa favorável como certificado de previsão. Ceder a ela seria cometer exatamente o erro criticado em julho. O que cabe perguntar é se os acontecimentos posteriores foram compatíveis ou incompatíveis com a interpretação apresentada, e nesse ponto a resposta é objetiva.

Jerônimo estava um ponto numericamente à frente na espontânea e agora está três, tendo saído de 18% para 23%. Havia 63% de eleitores sem candidato espontaneamente citado e agora são 54%. No segundo turno, perdia numericamente por quatro pontos e agora perde por três, com 41% ante os 39% de julho. Na estimulada, entretanto, não avançou: os 38% de julho tornaram-se 37% no cenário comparável de agosto.

Essa última informação é fundamental porque estabelece o limite da conclusão. A hipótese de consolidação da presença eleitoral de Jerônimo ganhou evidência. A hipótese de virada ainda não ganhou. Essa é a diferença entre análise e torcida.

Fotografia e filme, novamente

Em julho, escrevemos que a análise eleitoral baiana sofria de um vício: confundir fotografia com filme. Um mês depois existe uma segunda fotografia. Ela ainda não revela o final, mas já permite comparar duas cenas, e aquilo que aparece entre elas é uma eleição extremamente competitiva. ACM Neto mantém extraordinária força eleitoral e continua numericamente à frente na estimulada. Jerônimo amplia sua presença espontânea, permanece tecnicamente empatado com o adversário e reduz ligeiramente a distância no confronto direto.

Em julho, a prudência era uma hipótese sustentada pela história e pelos primeiros sinais da pesquisa. Em agosto, passou a contar também com uma segunda fotografia. Ela não mostra quem vencerá em outubro. Mostra algo anterior e igualmente importante: ninguém ganhou em agosto o direito de decretar encerrada uma eleição que o eleitor baiano ainda está decidindo. A fotografia mudou. O filme confirmou o movimento. E, na Bahia, como 2006 e 2022 ensinaram, o final pertence às urnas.

Quadro comparativo, julho e agosto de 2026

Indicador 29/07 27/08 Movimento
Espontânea, Jerônimo 18% 23% +5
Espontânea, ACM Neto 17% 20% +3
Vantagem espontânea de Jerônimo +1 +3 amplia
Sem candidato citado na espontânea 63% 54% -9
Estimulada, ACM Neto 39% 39% estável
Estimulada, Jerônimo 38% 37% -1
2º turno, ACM Neto 43% 44% +1
2º turno, Jerônimo 39% 41% +2
Diferença no 2º turno 4 pts 3 pts reduz
Aprovação da gestão 57% 57% estável
Merece ser reeleito 52% 53% +1

Nota metodológica

A rodada de julho de 2026 foi contratada pelo Banco Genial e ouviu 1.200 eleitores presencialmente entre 23 e 27 de julho, com registro BA-02331/2026. A pesquisa de agosto foi encomendada pela Rede Bahia e entrevistou 900 eleitores presencialmente entre 23 e 26 de agosto, com margem de erro de três pontos percentuais, nível de confiança de 95% e registro BA-06206/2026. Em agosto foram testados dois cenários estimulados, um com e outro sem José Estêvão, cuja candidatura foi rejeitada pelo TRE-BA, e os percentuais aqui utilizados são os do cenário comparável ao de julho.

A comparação entre levantamentos sucessivos deve ser interpretada como comparação de fotografias amostrais, e não como rastreamento individual de mudança de voto.

Como referência histórica, a Genial/Quaest de julho de 2022 entrevistou 1.140 eleitores entre 9 e 12 de julho, apresentava margem de erro de aproximadamente 2,9 pontos e foi registrada na Justiça Eleitoral sob o número BA-05185/2022. O cenário alternativo mencionado no texto corresponde à simulação em que Lula apoia Jerônimo Rodrigues e Bolsonaro apoia João Roma, com ACM Neto sem vínculo nacional declarado, testada na mesma rodada.

Artigos relacionados

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Botão Voltar ao topo