Poder & Política

Ângelo Coronel rompe com o PSD e escancara a crise de comando do partido na Bahia

A decisão do senador Ângelo Coronel de abandonar o PSD configura um dos episódios mais eloquentes da política baiana contemporânea e desnuda as fraturas internas de uma legenda que, até recentemente, se arvorava em polo de estabilidade no estado. Após semanas de tensionamento nos bastidores, Coronel confirmou neste sábado (31) que o rompimento é irreversível, pendente apenas a formalização junto à Justiça Eleitoral.

O gesto sucede à sua exclusão da chapa majoritária e encerra um ciclo inaugurado na própria fundação do PSD baiano, projeto do qual Coronel figurou como artífice central. Ao converter a ruptura em ato público, o senador desloca a controvérsia do terreno das conjecturas para o campo institucional, expondo uma crise que transcende desavenças circunstanciais e atinge o próprio modelo de governança partidária vigente no estado.

Marginalização política e ruptura do pacto interno

Segundo interlocutores próximos ao senador, a permanência no PSD tornou-se insustentável no momento em que a cúpula partidária passou a tratar sua candidatura como peça descartável no xadrez eleitoral. A exclusão da chapa foi recebida por Coronel como inequívoco sinal de banimento político — ainda que desprovido de formalização estatutária.

Ao confirmar o desligamento, o senador fez questão de sublinhar que não se tratou de ímpeto, mas de resposta calibrada a um processo sistemático de esvaziamento. Em sua leitura, a subtração de espaço político equivale, na substância, à dissolução do vínculo partidário.

Disputa pelo comando e reordenamento de forças

A crise inscreve-se em contexto mais amplo de reacomodações no PSD baiano, intensificadas após a filiação do governador goiano Ronaldo Caiado e a consequente redefinição das diretrizes nacionais da legenda. Esse movimento alterou a correlação de forças e acirrou disputas entre grupos que, até então, coexistiam sob pacto de conveniência.

Nos bastidores, Coronel passou a ser acusado de articular junto à direção nacional uma inflexão no alinhamento do partido na Bahia, aproximando-o do campo capitaneado por ACM Neto, do União Brasil. O senador refuta a narrativa conspiratória e sustenta ter sido alvo de engenharia deliberada de isolamento, destinada a preservar o controle centralizado da legenda no estado.

Independentemente da versão que prevaleça, o resultado é cristalino: o PSD optou por solução de força, sacrificando um de seus quadros de maior envergadura para blindar a atual estrutura de comando.

Efeito centrífugo e repercussões eleitorais

A saída de Coronel não se circunscreve ao plano individual. Aliados históricos e lideranças regionais vinculadas ao senador tendem a acompanhá-lo na dissidência, amplificando a magnitude do rompimento. Entre eles, figuram seus filhos — ambos com trajetórias políticas em construção — além de quadros com inserção municipal e regional consolidada.

Esse efeito centrífugo projeta reflexos eleitorais concretos, sobretudo em redutos onde o grupo de Coronel detém influência sedimentada. Ao abrir mão de um senador da República e de parcela expressiva de sua base territorial, o PSD assume o ônus do enfraquecimento geográfico em troca de maior coesão interna — aposta cujo êxito permanece incerto.

Sintoma de esgotamento estrutural

Para além do episódio em si, a saída de Ângelo Coronel ilumina disfunção recorrente nos partidos de centro no Brasil: a incapacidade de acomodar lideranças robustas quando o projeto coletivo se subordina a decisões verticalizadas e a alianças nacionais pouco permeáveis às dinâmicas locais.

Em última análise, a ruptura revela que a crise no PSD da Bahia não resultou de cisão ideológica ou programática, mas de disputa clássica por espaço, comando e sobrevivência política. Coronel deixa o partido sustentando ter sido alijado; o PSD prossegue tentando preservar sua unidade formal, ainda que ao custo de fissura profunda e potencialmente irreparável.

Com a formalização do desligamento, inaugura-se nova etapa: a definição do destino partidário do senador e a mensuração do peso efetivo que sua saída exercerá na reconfiguração do tabuleiro político baiano rumo a 2026.

Artigos relacionados

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Botão Voltar ao topo