Articulação de Ângelo Coronel com Kassab fracassa e escancara fragilidade do PSD na Bahia
Tentativa de levar partido à oposição foi barrada pela direção nacional; episódio valida estratégia petista de diversificar alianças e reduzir dependência de um único eixo partidário

A política baiana assistiu nesta semana à confirmação de um movimento que há meses se insinuava nos bastidores: o senador Ângelo Coronel (PSD) articulou diretamente com o presidente nacional do partido, Gilberto Kassab, uma tentativa de retirar o PSD da base do governador Jerônimo Rodrigues (PT) e realinhar a legenda ao campo oposicionista liderado por ACM Neto (União Brasil).
A manobra não prosperou. Mais do que isso: ao ser tornada pública pelo próprio presidente estadual do PSD, senador Otto Alencar, em entrevista ao portal Política Livre, a iniciativa produziu efeito contrário ao pretendido — isolou a dissidência, escancarou a fragmentação interna da sigla e acelerou o rebaixamento do partido no tabuleiro governista.
O encontro em São Paulo
Segundo o relato de Otto Alencar, Coronel viajou a São Paulo para se reunir com Kassab acompanhado do filho, o deputado federal Diego Coronel (PSD). O argumento central apresentado ao presidente nacional foi de natureza eleitoral: Coronel avalia que disputar a reeleição ao Senado em 2026 dentro de uma chapa governista ‘puro-sangue’, como o PT pretende formatar, seria politicamente inviável para ele.
A isso somou-se um cálculo de médio prazo. Pai e filho teriam defendido que um eventual palanque presidencial do PSD — possivelmente encabeçado por Ronaldo Caiado, governador de Goiás e aliado próximo de ACM Neto — só teria viabilidade na Bahia caso o partido rompesse previamente com o petismo no estado.
A tese não convenceu. Kassab, segundo Otto, foi categórico ao reafirmar que a condução política do PSD baiano permanece sob responsabilidade do diretório estadual e orientou Coronel a buscar entendimento interno antes de qualquer movimento público.

Dissidência sem massa crítica
O que a resposta de Kassab revela, para além da deferência institucional ao comando estadual, é a ausência de lastro político para a pretensão de Coronel. Otto Alencar foi enfático ao afirmar que a ampla maioria dos quadros do PSD na Bahia — deputados estaduais, federais e, sobretudo, prefeitos — rejeita a hipótese de migração para o campo de ACM Neto.
A aritmética é desfavorável à dissidência. Em um partido cuja capilaridade municipal sustenta boa parte de sua relevância eleitoral, o alinhamento dos prefeitos com o governo estadual não é mera formalidade: é expressão de dependência orçamentária, acesso a convênios e presença institucional nos municípios. Romper com o Palácio de Ondina, nesse contexto, significaria abrir mão de uma estrutura de sustentação que a oposição, por definição, não tem como oferecer.
Coronel, portanto, fala por si — e por um círculo restrito. O gesto de recorrer a Kassab sem articulação prévia com a base estadual denuncia, antes de tudo, a percepção de que o caminho interno estava bloqueado.
Da crise latente à ruptura explícita
Durante anos, o PSD ocupou posição central na engenharia política que sustenta o PT na Bahia. A aliança, construída ainda no período em que Jaques Wagner governava o estado, atravessou as gestões de Rui Costa e se manteve formalmente intacta sob Jerônimo Rodrigues. O partido entregava volume eleitoral, capilaridade municipal e, principalmente, previsibilidade — atributo raro e valioso em coalizões heterogêneas.
O episódio envolvendo Coronel altera esse quadro de forma irreversível. O que antes podia ser tratado como tensão administrável — divergências pontuais, ruídos de bastidor, acomodações de última hora — agora se converte em crise documentada. Há registro público de que uma das principais lideranças do partido atuou fora dos limites estaduais para impor um realinhamento contrário à posição majoritária da legenda.
O PSD segue formalmente na base. Mas o partido que emerge desse episódio é outro: menor em coesão, reduzido em poder de barganha, desprovido da capacidade de coordenação que lhe garantia centralidade.
A validação da estratégia de diversificação
Se a crise no PSD não se converteu em abalo sistêmico para o governo, a explicação está menos na resiliência circunstancial do que em uma decisão estratégica adotada ainda em 2022: a diversificação deliberada da base aliada.
Ciente de que a dependência excessiva de um único eixo partidário representava vulnerabilidade, o Palácio de Ondina — sob a articulação direta do então governador e hoje ministro da Casa Civil, Rui Costa — investiu na estruturação de uma alternativa com perfil semelhante ao PSD: pragmática, de centro, com forte presença municipal e sem pretensões ideológicas que conflitassem com o petismo.
O Avante, reorganizado a partir da articulação entre Rui Costa e o ex-deputado federal Ronaldo Carletto, cumpriu essa função. Em poucos anos, o partido se consolidou como força estadual relevante, coesa e integralmente alinhada ao governo. Não por acaso, ocupa hoje posição de destaque na base — não como substituto do PSD, mas como contrapeso que garante estabilidade mesmo em cenários de turbulência.
A lógica é simples e antiga: não se colocam todos os ovos na mesma cesta. O governo que depende de um único aliado forte está refém de suas oscilações. O governo que distribui sua base entre múltiplos parceiros de perfil complementar absorve crises localizadas sem comprometer o conjunto.
O movimento de Coronel, nesse sentido, funcionou como teste de estresse. E o resultado confirmou a solidez da arquitetura: o PSD pode rachar, pode perder protagonismo, pode até eventualmente migrar — mas o governo não treme, porque sua sustentação já não depende de uma única coluna.
O novo lugar do PSD
Otto Alencar permanece como liderança formal do partido na Bahia, condição reconhecida por Kassab e sustentada pela maioria dos filiados. A aliança com o governo, igualmente, segue vigente. Mas os termos da relação foram renegociados pelos fatos.
O PSD já não ocupa o centro do tabuleiro. Seu espaço diminuiu — não porque tenha sido alijado, mas porque se fragmentou por dentro. Partidos que perdem unidade perdem, junto, capacidade de pressão. E capacidade de pressão, em política, é sinônimo de valor.
Ângelo Coronel quis forçar uma virada de mesa. O que conseguiu foi confirmar que a mesa já havia sido reorganizada — e que seu lugar nela é menor do que supunha.



