Poder & Política

“Guaraci, eu te amo”: quando um governador resgata a alma indígena de uma cidade

Em gesto de profunda consciência histórica, Jerônimo Rodrigues invoca o nome tupi original de Coaraci e devolve ao município a memória de sua identidade ancestral

COARACI (BA) — 21 de janeiro de 2026

Há gestos políticos que se esgotam no instante em que são praticados. Há outros, porém, que transcendem a circunstância imediata e alcançam uma dimensão simbólica capaz de reverberar muito além do momento. Foi o que se viu nesta quarta-feira em Coaraci, quando o governador Jerônimo Rodrigues — primeiro mandatário autodeclarado indígena da história do Brasil — empunhou a caneta e, de próprio punho, escreveu: “Guaraci, eu te amo”.

Não se tratou de uma simples declaração de afeto a uma cidade interiorana. Tratou-se, antes de tudo, de um ato deliberado de reconexão histórica — o resgate consciente de um nome que, por quase um século, permaneceu adormecido nos registros administrativos, mas que jamais deixou de pulsar na memória coletiva e na etimologia do próprio território.

Guaraci: o nome que veio antes

Os registros do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística são inequívocos: em 30 de novembro de 1938, o então Distrito de Itacaré recebeu a denominação oficial de Guarací. Somente em 31 de dezembro de 1943 — com confirmação em 1º de junho de 1944 — é que o topônimo foi alterado para a forma atual, Coaraci.

Assim, o nome invocado pelo governador não pertence a outro lugar, nem a outra realidade: pertence à própria cidade, à sua certidão de nascimento territorial, àquilo que ela foi antes de ser o que hoje é.

Ao grafar Guaraci com a precisão de quem conhece a história, Jerônimo Rodrigues fez mais do que homenagear: restituiu. Devolveu ao município, ainda que simbolicamente, a inteireza de sua trajetória. É como se dissesse: eu te reconheço por inteiro — inclusive naquilo que foste antes de seres o que és agora.

O sol tupi e a identidade de um governador

A escolha do nome carrega, ainda, uma camada de significação mais profunda. Conforme documenta o próprio IBGE em publicação específica sobre o município, o topônimo Guaraci — tanto quanto Coaraci — constitui “vocábulo tupi que significa ‘o sol'”.

Estamos, portanto, diante de um nome que remete diretamente à cosmologia dos povos originários, ao astro que ordena o tempo e ilumina a terra na visão ancestral indígena.

É nesse ponto que a biografia do próprio governador confere ao gesto uma dimensão ainda mais eloquente. Jerônimo Rodrigues é, conforme sua apresentação institucional oficial, o “primeiro governador autodeclarado indígena do Brasil”. Quando um mandatário com essa trajetória escolhe invocar justamente o nome de matriz tupi de um município baiano, a homenagem transcende a gentileza protocolar e assume os contornos de um reconhecimento identitário — um aceno de pertencimento às raízes que ainda pulsam, silenciosas mas persistentes, nos nomes dos lugares, nos traços da cultura, na memória viva do território.

Entre obras e símbolos: uma agenda completa

A visita governamental a Coaraci não se limitou, evidentemente, ao plano simbólico. A agenda contemplou entregas concretas em três eixos fundamentais: educação, saúde e desenvolvimento rural.

No campo educacional, foi inaugurada a ampliação e modernização do Colégio Estadual de Tempo Integral Almakazir Gally Galvão, obra que demandou investimento de R$ 8 milhões e entregou à comunidade novas salas de aula, teatro, restaurante estudantil, quadra coberta e vestiário.

Na solenidade, o governador sintetizou o propósito político da iniciativa: levar esse padrão de excelência a toda a rede estadual, porque “entregar uma escola é sempre gratificante”.

Na área da saúde, foram entregues uma ambulância, kits odontológicos, kits para Unidades Básicas de Saúde, equipamentos de fisioterapia para o Centro de Fisioterapia municipal e aparelhos hospitalares para o Hospital Geral de Coaraci.

No desenvolvimento rural, a entrega de veículo utilitário visa ampliar o suporte às ações de fortalecimento da agricultura familiar e da produção local.

A programação incluiu, ainda, a autorização de diversas obras e convênios: kits de apicultura, reforma do mercado municipal, projeto de pavimentação da BA-972 (trecho Coaraci–Itamotinga), obras de drenagem em ruas e bairros, convênio para implantação de Unidade de Beneficiamento de Mel, pavimentação do acesso ao hospital e cessão de veículo para a Polícia Civil.

A política que fala a língua da memória

A política contemporânea habituou-se aos slogans testados em grupos focais, às frases calibradas por consultores de imagem, às peças publicitárias meticulosamente calculadas para não dizer nada que possa desagradar a alguém.

O que se viu em Coaraci foi o avesso disso: um gesto manuscrito, espontâneo, despojado de aparato — e por isso mesmo mais potente.

A frase “Guaraci, eu te amo” funciona como uma rara síntese: é emocional, porque assume sem constrangimento a linguagem do afeto; é histórica, porque resgata deliberadamente o nome originário do lugar; é cultural, porque evoca a matriz tupi do topônimo e seu significado solar; e é política, porque coloca a população não como mera destinatária de promessas, mas como portadora de uma história que merece ser lembrada e honrada.

Para Coaraci, a visita ficará registrada pelas obras e pelos equipamentos. Para o povo, ficará também um símbolo: o governador que chegou trazendo entregas, mas que chegou, sobretudo, sabendo — e fazendo questão de demonstrar que sabia — o nome que a cidade já teve. E que fez desse conhecimento uma declaração pública de amor e de pertencimento à terra e à sua gente.

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