Poder & Política

O preço da lealdade

O MDB está na encruzilhada mais delicada de sua trajetória na coalizão governista da Bahia. O que estava nos bastidores veio à tona — e o silêncio de Geddel nesta terça-feira diz mais do que qualquer discurso

Na segunda-feira, 9 de março de 2026, o governador Jerônimo Rodrigues (PT) confirmou o que nos bastidores já circulava em voz alta: o PSD negocia uma vaga na chapa majoritária para as eleições de outubro. A declaração, feita durante a inauguração do Centro Social Urbano no bairro de Valéria, em Salvador, foi direta. “Conversamos com o senador Otto Alencar. Nós temos um compromisso com ele. Pela responsabilidade que ele tem, ele terá direito na majoritária”, afirmou o governador.

Em uma só frase, Jerônimo jogou uma bomba no centro da coalizão que o elegeu.

O espaço em disputa é a vice-governadoria. O ocupante é Geraldo Júnior, do MDB. E o silêncio estrondoso dos irmãos Geddel e Lúcio Vieira Lima nesta terça-feira — enquanto crescem as especulações sobre mudanças na composição da chapa governista, capitaneadas sobretudo pelo ministro da Casa Civil, Rui Costa (PT), e pelo senador Otto Alencar (PSD) — é o dado político mais revelador do momento.

O estopim que não deveria ter sido público

A crise tem um gatilho preciso. O debate sobre a vice ganhou novos contornos após Geraldo Júnior compartilhar, em um grupo de WhatsApp com lideranças políticas, uma mensagem com críticas ao ministro da Casa Civil, Rui Costa (PT). O gesto foi lido como indisciplina. E, na política, indisciplina dá ao adversário o pretexto que ele precisava.

A partir daí, a “lista tríplice” do PSD começou a vazar. O principal nome é o da presidente da Assembleia Legislativa da Bahia, Ivana Bastos, que ganhou força nos bastidores com maior intensidade desde o início de março. Também são citados o ex-presidente da ALBA Adolfo Menezes e o deputado estadual Alex da Piatã — todos próximos a Otto Alencar.

Jerônimo tentou conter os danos nesta terça. “Eu estava ao lado de Geraldinho e, em momento algum, eu disse que tinha PSD na chapa. Eu apenas mencionei que conversei com o senador Otto Alencar, mas não tratamos da composição da chapa”, afirmou o governador. A contradição com o que disse 24 horas antes é flagrante. O recuo revela que a pressão chegou.

A matemática que o MDB conhece de cor

Quem acredita que o MDB pode ser tratado como peça descartável não leu os números do partido na Bahia. Após as eleições municipais de 2024, o MDB elegeu 32 prefeitos, 27 vice-prefeitos e 361 vereadores em todo o estado. É uma rede política capilar que cobre o interior da Bahia de ponta a ponta — exatamente onde eleições majoritárias são decididas.

Mas capilaridade territorial não é o único ativo em disputa. No plano nacional, o MDB contribuiu com tempo de televisão na aliança que elegeu Lula. Em um país de dimensões continentais, onde a propaganda eleitoral gratuita ainda move montanhas de intenção de voto, esse recurso tem peso real.

Geddel sabe disso melhor do que ninguém. E não tem sido sutil ao cobrar o que considera uma dívida política.

“Podem cometer um estupro político. Na hora que fizerem, o MDB se manifestará.”

A declaração do ex-ministro ao BNews resumiu com brutalidade calculada o estado de espírito do partido. Geddel descartou qualquer compensação em cargos menores: “Se engana quem pensa que estamos querendo fortalecer chapa de deputados estadual, federal, que queremos mais espaço no governo, boquinha em tribunal, não.”

A linguagem de Geddel não é a do político que negocia. É a do político que ultimata.

Em entrevista à CBN Salvador, há poucos dias, ele foi ainda mais explícito: “Nós precisamos de unidade para vencer a eleição. O MDB sabe o papel que tem nessa aliança e terá, salvo se tentarem humilhá-lo ou diminuir a dimensão que esse partido tem na história da Bahia.”

O argumento histórico não é retórico. Quando o Progressistas rompeu com o grupo e o então vice-governador João Leão deixou a chapa, o MDB manteve-se ao lado da aliança após um chamado do senador Jaques Wagner. A fidelidade naquele momento de crise foi total. A cobrança agora tem respaldo moral.

O tabuleiro que Coronel deixou

A saída de Angelo Coronel do PSD e do grupo governista — após o senador não aceitar ser preterido na chapa com a entrada de Rui Costa como pré-candidato ao Senado — abriu um vácuo que Otto Alencar agora tenta preencher de outra forma: reivindicando a vice-governadoria para o partido. É uma operação audaciosa — e politicamente arriscada.

Angelo Coronel já sinalizou que deve concorrer ao Senado ao lado de João Roma (PL) na chapa encabeçada por ACM Neto. Isso significa que a oposição chega a 2026 mais consistente do que em 2022. O preço da desunião governista pode ser alto.

Nos bastidores, há um sinal de alerta ainda mais grave. Já circulam informações de que lideranças do MDB estariam dialogando com o prefeito de Salvador, Bruno Reis (União Brasil), sobre uma possível reaproximação com o grupo oposicionista. Se confirmado, seria o maior abalo sísmico da coalizão governista desde 2007.

Jerônimo: o prazo que aperta

O governador anunciou que a decisão sobre a chapa será tomada ainda em março. “Quanto mais a gente fica aguardando, mais as pessoas se movimentam. Mas temos um prazo em março e posso usar até o último dia para tomar uma decisão alinhada ao nosso projeto”, declarou.

O tempo trabalha contra a estabilidade. Cada dia de indefinição alimenta rumores, fortalece a oposição e corrói a confiança interna.

Geraldo Júnior, por sua vez, prefere esperar: “Confio na relação que tenho com o governador Jerônimo. Na hora certa, este líder político saberá tratar com meu partido.” É a linguagem de quem acredita na palavra dada — mas também de quem sabe que, na política, a palavra se dobra sob pressão.

O custo de errar o cálculo

A história recente da Bahia registra o que acontece quando uma coalizão perde peças no momento errado. O projeto que começou em 2007 com Jaques Wagner foi construído sobre alianças largas, não sobre purezas partidárias. A força do PT na Bahia sempre dependeu de parceiros que controlavam territórios que o partido, sozinho, não alcança.

O MDB é um desses parceiros insubstituíveis no curto prazo. Substituí-lo por um PSD que acabou de perder seu senador mais forte e que ancora sua oferta em nomes ainda em teste — Ivana Bastos, Adolfo Menezes, Alex da Piatã — é uma aposta com risco calculável e consequências incalculáveis.

A política raramente tolera o vácuo. Mas tolera ainda menos o erro de leitura de quem acha que pode trocar um aliado leal por um aliado conveniente sem pagar algum preço.

Geddel não é homem de fazer ameaças que não tem intenção de cumprir.

E Jerônimo sabe disso.

A questão é saber se ainda vai a tempo de agir como se soubesse.

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