Poder & Política

A punhalada e o cálculo: por que o desabafo de Michelle é gesto de candidatura

Por Jerbson Moraes

Raramente um desabafo se esgota em si mesmo na política, sobretudo quando parte de quem calculou o próprio silêncio durante meses a fio. O que se apresenta como mágoa costuma, nesses casos, esconder estratégia, e foi dessa natureza o que Michelle Bolsonaro trouxe a público nesta quarta-feira.

Em pouco mais de vinte e cinco minutos, distribuídos em duas postagens, a ex-primeira-dama rompeu a contenção que vinha mantendo desde o fim do ano passado e narrou, com nomes e datas, o desgaste com o enteado Flávio Bolsonaro. Falou em punhalada ao descrever o episódio, relatou ter sido destratada numa ligação telefônica ocorrida horas depois de ver as publicações do senador contra ela e reproduziu a frase que condensa o conflito: Flávio, pré-candidato do PL ao Planalto, teria lhe sugerido manter-se fora das decisões partidárias sob o argumento de que ela teria chegado ontem e nada entenderia de política.

O pretexto imediato tem endereço conhecido. Veio do Ceará, onde André Fernandes articula uma aliança com Ciro Gomes que a ex-primeira-dama rejeita em favor das candidaturas de Priscila Costa ao Senado e de Eduardo Girão ao governo do estado. Quem reduz o episódio a essa aritmética estadual, no entanto, perde de vista o que verdadeiramente se disputa, pois a querela cearense apenas detonou uma munição acumulada havia muito tempo.

A densidade do vídeo não está na queixa, mas no currículo que Michelle faz questão de recitar em meio a ela. Provocada com a tese de que não compreenderia de política, preferiu responder pelos números de sua gestão à frente do PL Mulher, lembrando os diretórios erguidos nos vinte e sete estados e no Distrito Federal e as mil e cinco mulheres que ajudou a eleger em 2024. É a linguagem de quem reivindica legitimidade construída no varejo eleitoral, exibida diante de quem ensaiava reduzi-la à condição de coadjuvante de sobrenome.

Desenha-se aí a inversão que poucos perceberam. A candidatura de Flávio nasceu de unção paterna, conferida de cima para baixo por decisão de um patriarca afastado da cena pública, ao passo que a trajetória recente de Michelle obedece à lógica da capilaridade, sustentada por uma base que responde ao seu chamado e não a um decreto de gabinete. Daí por que a resposta debochada do senador, ao dizer que em dia de jogo nada nem ninguém o aborrece, talvez tenha revelado mais do que pretendia: enquanto ele se dá ao luxo de tratar o atrito como ruído, ela o converte em plataforma.

A pergunta que o vídeo deposita sobre a mesa de Brasília é desconfortável para o núcleo familiar. A candidatura pode ser herdada, mas a base eleitoral não se transmite por testamento. Num movimento cujo líder se encontra preso e inelegível, a legitimidade tende a migrar para quem demonstra capacidade de mobilização, não para quem foi meramente indicado. Flávio dispõe do nome na urna; Michelle persegue algo bem mais difícil de outorgar, que é a adesão afetiva de um eleitorado ao qual ela acede com naturalidade rara, sobretudo entre mulheres e evangélicos.

Nada disso configura, por ora, uma candidatura presidencial posta à mesa. Configura situação mais sutil, e por isso mesmo mais incômoda ao projeto do enteado: a ex-primeira-dama demonstrou publicamente prescindir de autorização para exercer protagonismo, disposta inclusive a expor a intimidade da família para preservar o espaço que entende ser seu. Gestos dessa ordem não pertencem a quem se retira, e sim a quem se prepara para o instante em que a disputa exigir um nome competitivo e o nome ungido houver revelado menos força de mobilização do que a viúva política de Jair Bolsonaro.

Quando vier, a sucessão não há de se resolver pela hierarquia do sobrenome, e sim pela aptidão de levar a base às ruas e às urnas. Sob esse prisma, Michelle fez mais do que lembrar que permanece no jogo: sugeriu que a chave do cofre talvez repouse em suas mãos, e não nas do herdeiro escolhido.

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