ANÁLISE & OPINIÃO

A ponte que Ilhéus não pode esquecer

O que a Ponte Jorge Amado diz sobre quem realizou e sobre quem ainda deve explicações à cidade | Por Jerbson Almeida Moraes

Quem sai do centro em direção ao Pontal no fim da tarde já quase não repara na ponte por onde está passando. Virou paisagem, e paisagem é justamente aquilo que a gente deixa de enxergar. Mas nem sempre foi assim. Quem tem idade para lembrar das voltas, das filas e do tempo perdido para ir de um lado ao outro da baía sabe muito bem o que mudou. A travessia deixou de ser um gargalo, bairros ficaram mais perto uns dos outros, o comércio se reorganizou e a cidade ganhou outra perspectiva urbana. Em ano de eleição, a Ponte Jorge Amado é mais do que concreto e cabo de aço. É memória disponível a céu aberto.

No dia 4 de outubro a Bahia escolhe dois senadores. Entre os nomes postos no debate estão Rui Costa, Jaques Wagner, Angelo Coronel e João Roma. Discutir isso no terreno do discurso, da fotografia e da promessa rende pouco. A pergunta que interessa ao ilheense é outra, e é bem simples: o que cada um deixou aqui? Que a resposta venha com valor, data, destinatário e resultado.

A obra tem autores identificados

A Ponte Jorge Amado não nasceu por acaso. A concepção e os primeiros passos, do projeto à licitação inicial, vêm do governo de Jaques Wagner. Depois vieram as paralisações e os problemas contratuais, com o esqueleto parado sobre a baía durante um período que envergonhou a cidade. A obra foi retomada, licitada novamente e concluída no governo de Rui Costa, que a entregou em 1º de julho de 2020. A história administrativa atravessa mais de um mandato, é verdade, mas os responsáveis por iniciar, retomar e concluir estão perfeitamente identificados.

Os números ajudam a dimensionar o que foi feito: 533 metros de extensão, sendo 298 deles em trecho estaiado; 25 metros de largura; quatro faixas de tráfego, ciclovia e passagem exclusiva para pedestres; além de um sistema viário associado de aproximadamente 2,7 quilômetros. O investimento divulgado pelo Governo da Bahia ficou na casa dos R$ 100 milhões. Foi a primeira ponte estaiada erguida no estado.

Wagner idealizou e começou; Rui retomou e entregou. Nenhuma campanha precisa inventar esse legado, porque ele está de pé, atravessando a Baía do Pontal e servindo à população todo santo dia. Reconhecer o fato não significa conceder imunidade política a ninguém. Significa apenas ser honesto com a história recente de Ilhéus.

Reconhecer não é render-se

Ninguém deve vender o voto por uma obra pública, até porque o dinheiro que a ergueu é da sociedade e não de partido nem de governador. Só que também não é razoável fingir que todos os agentes públicos produziram os mesmos resultados, porque não produziram. Fiscalizar, cobrar e criticar é direito permanente do eleitor. Reconhecer quem teve capacidade de planejar, mobilizar recursos e concluir uma intervenção que a cidade esperou por décadas também é.

Gratidão política, nesse sentido, não tem nada de submissão. Tem a ver com memória e com comparação entre o que foi prometido e o que foi entregue. Tem a ver, ainda, com interesse próprio, porque a representação de Ilhéus no Senado pode aumentar ou reduzir a nossa capacidade de atrair investimento nos próximos oito anos.

O que Coronel e Roma ainda devem à cidade

A mesma régua vale para o senador Angelo Coronel. Levantamentos públicos registram volume expressivo de emendas de sua autoria destinadas à Bahia ao longo do mandato, e isso é um dado relevante. Só que não responde à pergunta de Ilhéus. Até o fechamento deste texto, não veio a público uma relação individualizada e verificável mostrando quanto desse dinheiro chegou ao município, quais entidades receberam, quais pagamentos foram efetivamente liquidados e que benefício concreto ficou para o ilheense.

A cobrança é ainda mais pertinente porque Coronel exerceu influência relevante sobre o orçamento federal, inclusive como relator-geral do Orçamento da União de 2025. Se usou essa posição em favor de Ilhéus, a demonstração é fácil: basta publicar planilha com número da emenda, valor empenhado, valor pago, órgão beneficiário e objeto executado. Enquanto isso não vier, a cidade não tem por que aceitar números gerais da Bahia inteira como se fossem investimento comprovado aqui.

João Roma também precisa prestar contas. Foi deputado federal entre 2019 e 2021 e ministro da Cidadania entre 2021 e 2022. Pesquisa pública preliminar não identificou, com clareza, emendas individuais pagas diretamente ao Município de Ilhéus que possam ser apresentadas como legado equivalente. Não afirmo, sem varredura completa de todas as bases, que jamais tenha havido qualquer recurso; isso seria leviano. Digo outra coisa: até agora Roma não apresentou à população ilheense um conjunto documentado de investimentos, obras ou programas sob sua responsabilidade que permita comparação concreta com a ponte entregue por Wagner e Rui.

Roma pode esclarecer se programas do Ministério da Cidadania chegaram a Ilhéus durante sua gestão, em que valores e com que resultado. Coronel pode detalhar emendas e articulações. O ônus da demonstração é de quem pede o voto. Não cabe ao eleitor reconstruir sozinho oito anos de mandato parlamentar ou uma passagem por ministério para descobrir o que seus representantes fizeram pela cidade onde ele mora.

A diferença entre promessa e legado

O contraste é objetivo. De um lado, uma obra estruturante com endereço, medida, custo aproximado, cronologia e impacto diário. Do outro, a expectativa de que apareça documentação equivalente. Defender a Bahia em tese é fácil; mostrar o que se destinou a esta cidade é outra conversa.

Cinco informações encerrariam a controvérsia: quanto foi destinado a Ilhéus, quanto foi efetivamente pago, quem recebeu, o que foi executado e que benefício chegou à população. Quem tiver esses dados que os publique. Quem não apresentar não pode reclamar se o eleitor comparar a ausência de comprovação com uma ponte que qualquer pessoa vê e atravessa.

No dia 4 a memória atravessa a ponte

Ilhéus não precisa votar movida por gratidão cega. Precisa votar com memória, comparação e interesse próprio. Jaques Wagner e Rui Costa têm um legado comum que corta a cidade todos os dias e representam, no Senado, continuidade de diálogo com a Bahia e experiência comprovada em transformar decisão política em investimento público.

Por isso, diante dos elementos hoje disponíveis, o voto em Jaques Wagner e Rui Costa me parece escolha defensável, e não apenas por identidade partidária. É reciprocidade política e é preservação de uma relação que já produziu resultado palpável. A ponte não pede gratidão; ela oferece prova. E, quando a prova existe de um lado e as explicações ainda faltam do outro, cabe ao povo de Ilhéus decidir quem merece representá-lo pelos próximos oito anos.

De minha parte, atravesso aquela ponte com frequência e não pretendo esquecer quem a levantou.

 

Referências documentais

Governo do Estado da Bahia. Primeira ponte estaiada da Bahia é entregue em Ilhéus — registro institucional da entrega, das dimensões e do investimento da obra.

Controladoria-Geral da União. Portal da Transparência — consulta de emendas parlamentares e execução orçamentária federal.

Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social. Relatórios de gestão e execução orçamentária referentes ao antigo Ministério da Cidadania.

Nota editorial: fica assegurado aos mencionados o direito de resposta e o espaço para apresentação de emendas, transferências, convênios, programas ou outras ações documentadas em benefício de Ilhéus.

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