PODER & MEMÓRIA

EXISTEM AMIZADES QUE NÃO ENVELHECEM

Carta aberta ao juiz Paulo Roberto Fonseca Barbosa, amigo de quem a vida me afastou, sem nunca me separar (Por Jerbson Moraes)

Meu caro Paulo Roberto,

A vida tem um modo curioso de contar o tempo. Há manhãs em que me parece que foi ontem. O mesmo escritório dividido, o cheiro do papel dos autos, a pressa dos prazos, aquelas conversas que começavam em um artigo do Código e terminavam em qualquer assunto do mundo. Há outras em que faço a conta e me assusto ao perceber que já se passaram décadas.

Você era, naquele tempo, um estagiário de olhos atentos, recém-formado pela Universidade Estadual de Santa Cruz, cheio de boas dúvidas e de uma sede de aprender que eu reconhecia de longe, porque também fui, antes de você, o mesmo rapaz inquieto. Hoje, aquele jovem é um dos nomes respeitados da magistratura sergipana. São mais de vinte anos de toga, o mestrado pela Universidade Federal de Sergipe, os anos de estudo em Lisboa e a docência na Escola Judicial do Estado de Sergipe, onde compartilha com novas gerações de magistrados a experiência de uma vida dedicada ao Direito e à Justiça.

Escrevo isso e releio. O que me comove não é o currículo, que é apenas a sombra escrita de uma vida. É a sorte rara de haver conhecido a matéria-prima de cada uma dessas conquistas antes que elas existissem.

Confesso que nenhum desses títulos é a primeira imagem que me ocorre quando penso em você. Antes dos livros, das sentenças e das salas de aula, lembro do amigo. Da conversa franca. Da inteligência serena. Da lealdade sem alarde, que é a única que se sustenta com o tempo. E da alegria de partilhar uma etapa em que ainda estávamos descobrindo quem seríamos.

O tempo, generoso em oportunidades e avaro em encontros, nos levou por caminhos diferentes. A magistratura o chamou. A advocacia continuou sendo a minha trincheira. Servimos, cada um do seu lado da mesa, à mesma Justiça, ainda que por ofícios de natureza diversa. Ao juiz cabe decidir, e há solidão nisso. Ao advogado cabe insistir, e é preciso alguma teimosia para isso. Talvez estivesse aí, desde o começo, o segredo do nosso entendimento: você já tinha a serenidade que o faria magistrado, e eu já carregava a inquietação que fez da advocacia a minha vocação.

Sem que percebêssemos, os encontros foram rareando. Não houve ruptura, nem mágoa, nem desentendimento algum. Houve a vida, que é a mais discreta e a mais eficiente das distâncias. Há amizades, porém, que não envelhecem. Apenas silenciam, como casas fechadas por muito tempo, nas quais basta abrir uma janela para que tudo volte a respirar.

Escrevo hoje por um motivo simples: sinto saudade. Saudade da convivência, das conversas sobre o Direito e sobre a vida, daquele tempo em que os dias pareciam maiores e a amizade encontrava lugar na rotina sem precisar disputá-lo com as urgências do mundo.

Tenho orgulho da sua trajetória. Não pelo brilho do que está escrito. Conheci o início da caminhada e sei o preço de cada conquista. Não me lembro de um único atalho que você tenha tomado. Houve estudo, houve caráter, houve disciplina, houve compromisso com a Justiça, que é, afinal, a única credencial que um magistrado leva consigo no dia em que a toga deixa de lhe cobrir os ombros.

Talvez alguém pergunte por que torno pública uma carta que poderia muito bem ficar entre nós. Explico. Vivemos um tempo em que se fala demais das instituições e quase nada das pessoas que lhes dão dignidade, um tempo em que a suspeita circula de graça e o reconhecimento quase sempre chega tarde, quando chega. Fazer justiça a quem merece também é uma forma de defender a Justiça. Nem todo silêncio é discrição. Às vezes, é apenas uma homenagem que ficou por fazer.

Espero que a vida nos conceda, em breve, o privilégio do reencontro. Tenho a impressão de que bastariam alguns minutos de conversa para descobrirmos que o tempo passou apenas no calendário, porque certas amizades permanecem intactas, guardadas naquele lugar da alma onde os anos não entram.

Enquanto esse dia não chega, fica esta carta. O tempo levou os dias e mudou os caminhos. Não levou a amizade. Porque há pessoas que deixam de fazer parte da nossa rotina, mas nunca da nossa história. E é por isso que existem amizades que não envelhecem.

Receba o abraço fraterno de quem sempre lhe dedicou admiração, respeito e amizade sincera.

Jerbson Moraes

Advogado

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