Poder & Política

Na Bahia, tratar o segundo turno como inevitável já exige ignorar a história

A vitória de Lula e de Jerônimo Rodrigues ainda no primeiro turno saiu do terreno da especulação e entrou no dos cenários plausíveis, sustentada por fatores que qualquer um pode verificar. Ninguém assegura que ela ocorrerá, mas os números tornaram indefensável tratar o segundo turno como desfecho obrigatório. Por Jerbson Moraes | Advogado, mestrando em Direito e colunista

A possibilidade de que Lula e Jerônimo Rodrigues vençam já no primeiro turno teria soado, há poucos meses, a puro entusiasmo partidário. Hoje, é quem a descarta que precisa se esforçar para justificar a recusa. A virada nada tem de militância: resulta da leitura serena de um conjunto de fatores que passaram a apontar na mesma direção, e foi esse deslocamento do ônus da prova, mais do que qualquer pesquisa isolada, o que deu ao tema uma seriedade que ele antes não tinha.

Desde 1998, quando Fernando Henrique Cardoso se reelegeu sem precisar de segunda etapa, firmou-se entre os analistas a ideia de que a fragmentação partidária tornaria o segundo turno quase obrigatório nas disputas presidenciais. Por quase trinta anos esse pressuposto vigorou em silêncio, com a autoridade de uma lei natural que ninguém se dava ao trabalho de conferir. A eleição de 2026 vem mostrando que ele nunca foi tão firme quanto se imaginava.

A tese tem respaldo técnico. Maurício Moura, doutor em Economia e Política e fundador do Instituto IDEIA, tem defendido que a disputa reúne condições concretas para terminar já no primeiro turno, e o cálculo que ele propõe é antes de tudo aritmético. Lula parte de um patamar próximo dos quarenta por cento das intenções, segundo o levantamento Genial/Quaest de meados de julho, que lhe deu doze pontos de dianteira sobre Flávio Bolsonaro. Pela primeira vez em muitos ciclos, não há à sua esquerda candidatura com tamanho para fragmentar de maneira relevante esse eleitorado, de modo que o crescimento natural da campanha e a conversão de parte dos indecisos podem aproximá-lo da maioria absoluta dos votos válidos, sobretudo se a oposição chegar dividida e se subirem os brancos e nulos. Aqui está a parte menos intuitiva do raciocínio. A maioria absoluta se apura sobre os votos válidos, e o total de eleitores nada tem a ver com essa conta; quando a fadiga com a política e a suspeita difusa de corrupção fazem crescer brancos, nulos e abstenções, o universo sobre o qual se mede essa maioria diminui. Se essa retração atingir menos os eleitores de Lula do que os dos demais, uma votação em torno dos quarenta por cento do eleitorado consultado pode virar uma fatia bem maior dos votos que efetivamente contam, aproximando a maioria absoluta de um resultado ao alcance da própria campanha.

Se no plano nacional a hipótese ganha corpo, na Bahia ela se apoia em terreno ainda mais firme, e é aqui que a leitura apressada das sondagens costuma escorregar. O Estado tem um comportamento eleitoral que se repete com regularidade grande demais para passar por acaso. Em dois momentos decisivos da história recente, 2006 e 2022, as pesquisas feitas antes da fase quente da campanha não enxergaram o tamanho da reação que acabaria levando o grupo petista à vitória. O que se viu em 2022 já havia acontecido dezesseis anos antes, com os mesmos contornos.

Os números daquele ano ainda impressionam. Em agosto de 2022, o Ipec media ACM Neto com cinquenta e seis por cento contra treze de Jerônimo, quarenta e três pontos de distância que a maior parte dos comentaristas leu como sentença definitiva. No dia 2 de outubro, foi Jerônimo quem terminou o primeiro turno na frente, com pouco mais de quarenta e nove por cento dos votos válidos, a menos de um ponto de encerrar a eleição sem segundo turno. Jaques Wagner havia percorrido caminho muito parecido em 2006, contra Paulo Souto, herdeiro do carlismo, saindo de uma desvantagem de proporção semelhante.

Convém lembrar, ainda, que a fotografia de agora não é toda igual. O Paraná Pesquisas, no fim de junho, deu a Neto boa vantagem num cenário de primeiro turno; a Genial/Quaest de fim de abril, por sua vez, mostrou os dois separados por uma diferença dentro da margem de erro, em empate técnico, e apontou que os baianos preferem, por larga margem, um governador alinhado a Lula a um nome ligado a Bolsonaro. Isso está longe de garantir conforto ao governo, embora desautorize quem trata a disputa estadual como coisa encerrada. Escolher apenas a pesquisa mais dura para o governador, deixando de lado as demais e tudo o que o Estado já viveu, é confundir um retrato parcial com previsão.

Há um fator adicional que poucos Estados oferecem na mesma medida. Na Bahia, a vitória de Lula é quase o de menos; o que impressiona é a eficiência com que o campo por ele encabeçado organiza o voto estadual. Em 2022 ele fez 69,73% dos votos válidos no primeiro turno e 72,12% no segundo, um de seus melhores resultados em todo o país. Essa capacidade vai além da simpatia pessoal, como comprova a sequência de vitórias petistas: desde 2007 o PT ocupa o Palácio de Ondina sem interrupção, com Jaques Wagner em 2006 e 2010, Rui Costa em 2014 e 2018 e Jerônimo Rodrigues em 2022. Wagner, em 2010, e Rui Costa, em 2018, fecharam a conta logo no primeiro turno, e a reeleição de Rui, com mais de setenta e cinco por cento dos votos válidos, veio no mesmo ano em que a onda nacional era de Jair Bolsonaro e o PT perdia a Presidência. Uma máquina eleitoral capaz de produzir maioria absoluta em primeiro turno até contra a corrente nacional não se deixa medir por sondagens de meio de ano, e mais de um analista já pagou caro por tentar.

Some-se a isso a coordenação, rara na Federação, entre o governo estadual, o governo federal, as prefeituras e as lideranças regionais, que se converte em capilaridade administrativa e em poder de mobilização difíceis de captar antes de a propaganda de rádio e televisão ir ao ar. Do lado da oposição, há um problema estratégico que costuma passar despercebido. A aproximação de ACM Neto com o bolsonarismo e a pressão para que ele ceda palanque a Flávio Bolsonaro ameaçam corroer a equidistância que tão bem lhe serviu no passado. Num Estado em que Jair Bolsonaro obteve pouco mais de 24% dos votos válidos no primeiro turno presidencial de 2022, colar-se com nitidez a um projeto nacional dessa natureza cobra seu preço nas urnas.

A essa altura, a pergunta que de fato interessa já não é se Lula e Jerônimo podem vencer no primeiro turno. Podem, e isso decorre de fatores que estão à vista de todos. Interessa saber o que impediria essa soma de forças, a liderança nacional de Lula, o histórico das viradas baianas, o peso do lulismo no Estado, a estrutura montada pelo governo e a própria contabilidade dos votos válidos, de se converter em maioria absoluta.

Enquanto ninguém oferecer uma resposta convincente a essa pergunta, insistir na inevitabilidade do segundo turno não passa de repetição de um paradigma que a Bahia já contrariou mais de uma vez. Prever o resultado seria outra coisa, e não é disso que se trata: a eleição segue em aberto, e política se faz de probabilidades. Mudou apenas que, à luz do que hoje se conhece, o primeiro turno deixou o terreno das hipóteses remotas, e o trabalho de demonstrar o contrário passou para o outro lado.

Artigos relacionados

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Botão Voltar ao topo