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O coração que não pode parar: senador Otto Alencar, 78, recebe marca-passo após episódio de bradicardia

A política baiana viveu momentos de apreensão neste fim de semana. O senador Otto Alencar (PSD-BA), 78, presidente da Comissão de Constituição e Justiça do Senado Federal e médico ortopedista de formação, foi internado no Hospital Aliança, em Salvador, após apresentar mal-estar quando retornava de compromissos no município de Lapão, no interior da Bahia. Exames identificaram bradicardia sinusal, condição caracterizada pela redução anormal da frequência cardíaca, e a equipe médica optou pela implantação preventiva de um marca-passo cardíaco.

O procedimento transcorreu sem intercorrências. Em nota oficial, a assessoria informou que o senador encontra-se clinicamente estável, sob observação na UTI cardíaca, com perspectiva de alta nos próximos dias, a depender da evolução clínica. O episódio, embora tenha provocado apreensão, teve desfecho favorável — motivo de alívio que antecede qualquer leitura política.

Quando o relógio do coração desacelera

O coração humano possui um sistema elétrico próprio, cujo centro é o nó sinusal, responsável por gerar os impulsos que determinam o ritmo cardíaco. Em adultos saudáveis em repouso, a frequência normal varia entre 60 e 100 batimentos por minuto. Quando esse ritmo cai persistentemente abaixo de 50 batimentos por minuto, especialmente em pacientes sintomáticos, configura-se a bradicardia sinusal.

A redução excessiva da frequência compromete o fluxo sanguíneo e a oxigenação dos tecidos, podendo provocar tonturas, fadiga, confusão mental, palpitações e, nos casos mais graves, síncopes — desmaios súbitos que elevam o risco de quedas e traumatismos, sobretudo em idosos.

É fundamental distinguir a bradicardia patológica daquela observada em atletas de alto rendimento, cujo condicionamento cardiovascular permite frequências mais baixas sem prejuízo funcional. Em pacientes idosos, contudo, a lentificação do ritmo cardíaco costuma refletir falhas no sistema de condução elétrica e exige avaliação imediata.

Envelhecimento e sistema elétrico cardíaco

Aos 78 anos, Otto Alencar está na faixa etária em que as disfunções do nó sinusal se tornam mais frequentes. Dados do Registro Brasileiro de Marcapassos indicam que a maior concentração de implantes ocorre entre os 70 e 79 anos. O fenômeno decorre do envelhecimento natural do sistema elétrico do coração: ocorre perda progressiva de células marca-passo, acúmulo de fibrose no tecido condutor e maior suscetibilidade a interrupções nos circuitos elétricos.

Fatores associados — como uso de betabloqueadores, hipotireoidismo, cardiopatias estruturais e alterações autonômicas — podem agravar o quadro. A Organização Mundial da Saúde classifica as doenças cardiovasculares como a principal causa de morte no mundo, e a Sociedade Brasileira de Cardiologia recomenda acompanhamento periódico da população idosa, com atenção especial à frequência cardíaca, pressão arterial e controle de fatores de risco metabólicos.

Marca-passo: intervenção definitiva e segura

O implante de marca-passo é o tratamento padrão para bradicardias sintomáticas. O dispositivo, implantado sob a pele e conectado ao coração por eletrodos, monitora continuamente o ritmo cardíaco e emite estímulos elétricos sempre que a frequência cai abaixo do limiar adequado, substituindo a função do nó sinusal comprometido.

Trata-se de procedimento minimamente invasivo, com elevado grau de segurança. Estima-se que mais de 300 mil brasileiros utilizem marca-passo, com cerca de 50 mil novos implantes por ano. A maioria dos pacientes retoma suas atividades cotidianas em poucos dias, com melhora significativa da disposição física e da qualidade de vida. Especialistas em estimulação cardíaca destacam que frequências persistentemente abaixo de 50 batimentos por minuto, quando associadas a sintomas, indicam a necessidade de correção eletrônica.

Solidariedade além das disputas

A internação do senador mobilizou manifestações de apoio que atravessaram divisões partidárias. O senador Jaques Wagner (PT-BA) visitou Otto Alencar no hospital e destacou a boa evolução clínica. O ex-prefeito de Salvador ACM Neto (União Brasil), adversário político em disputas recentes, divulgou mensagem pública desejando pronta recuperação. Familiares do senador Angelo Coronel (PSD-BA) também manifestaram solidariedade.

Em um ambiente político marcado por polarização, as manifestações evidenciaram que a fragilidade da saúde ainda é capaz de suspender rivalidades e reafirmar vínculos humanos elementares.

Um alerta que vai além do caso

O episódio envolvendo Otto Alencar, felizmente bem conduzido, funciona como alerta — especialmente para agentes públicos submetidos a agendas intensas, deslocamentos frequentes e elevado estresse. A bradicardia sinusal, quando diagnosticada e tratada precocemente, não impede uma vida ativa nem o exercício de funções públicas.

A rápida intervenção médica demonstra como a medicina contemporânea dispõe de recursos eficazes para corrigir as desacelerações que o tempo impõe ao coração. Cuidar da saúde cardiovascular, sobretudo na idade avançada, não é luxo nem precaução excessiva: é condição para que o coração — individual e institucional — continue a bater.

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