Poder & Política

O jogo silencioso da vice na Bahia

Um erro de WhatsApp, uma "lista tríplice" do PSD e o deputado que disse não. O tabuleiro de 2026 começou a se mover de verdade.

Na política, poucas decisões revelam tanto sobre o equilíbrio real de forças quanto a escolha do vice. É quando as alianças saem do papel e passam a ter nome, partido e custo político. Foi exatamente o que aconteceu na Bahia nesta semana.

Na segunda-feira (9), o governador Jerônimo Rodrigues confirmou publicamente o que os bastidores já sussurravam há semanas: ele negocia com o PSD a indicação do candidato a vice-governador para a chapa majoritária de 2026. A declaração foi feita durante a inauguração do Centro Social Urbano de Valéria, em Salvador, e é o sinal mais concreto de que o tabuleiro eleitoral do estado entrou em movimento.

O interlocutor da negociação é o senador Otto Alencar, principal liderança do PSD na Bahia.

“Conversamos com o senador Otto Alencar, nós temos um compromisso com ele e à lealdade dele ao projeto. A responsabilidade que ele tem, ele tem e terá direito na majoritária. Estamos fechando esse acordo.”

Ele acrescentou que o prazo para a decisão é o próprio mês de março — o que significa que o calendário está mais curto do que parecia.

O estopim: um WhatsApp e uma crise silenciosa

Para entender por que o PSD entrou no jogo, é preciso voltar alguns dias.

O estopim para a retomada do debate sobre a vice ocorreu quando o atual vice-governador Geraldo Júnior (MDB) solicitou, em um grupo de WhatsApp, que interlocutores divulgassem uma mensagem com críticas ao ministro da Casa Civil, Rui Costa (PT). A repercussão foi imediata e constrangedora. O ministro respondeu nas redes sociais com um versículo bíblico sobre falsidade e infidelidade. Geraldo foi obrigado a pedir desculpas públicas ao ex-governador, atribuindo o episódio a um “erro tecnológico” por ser “da época analógica”.

O dano político não foi tecnológico. Foi real.

A partir dali, a palavra “desidratação” passou a acompanhar o nome do vice-governador nos corredores do governo. O incidente reacendeu uma discussão que nunca tinha saído inteiramente de pauta: o espaço do MDB na chapa majoritária de 2026.

A “lista tríplice” do PSD

Com a inserção do PSD como possível partido para indicar o nome para a vaga de vice, uma “lista tríplice” do partido passou a circular nos bastidores, com três nomes todos ligados diretamente ao senador Otto Alencar.

O principal deles é o da presidente da Assembleia Legislativa da Bahia, deputada estadual Ivana Bastos, cujo nome ganhou intensidade a partir do último sábado. Em público, ela tem adotado o tom clássico de quem não quer fechar porta:

“Cada agonia no seu dia. Nós estamos agora com um grande compromisso de fazer um mandato de presidente da AL-BA. O senador Otto Alencar saberá conduzir o processo da participação do PSD na chapa majoritária.”

Interlocutores das negociações são mais diretos: Ivana aceitaria o convite se ele partisse do próprio Otto.

Citados na lista ainda estão o ex-presidente da Assembleia Adolfo Menezes — cujo entrave é o desejo de ocupar uma vaga no Tribunal de Contas dos Municípios — e o deputado estadual Alex da Piatã, com forte atuação na região sisaleira e relação próxima ao senador Otto Alencar.

Cada nome carrega uma lógica territorial. Ivana tem presença institucional e visibilidade estadual. Adolfo reforça o enraizamento no norte baiano, em Campo Formoso. Alex da Piatã consolida a penetração no semiárido. A escolha entre eles dirá muito sobre qual mapa eleitoral o governo pretende privilegiar.

O que o MDB faz com o espaço que se fecha

O equilíbrio tem consequências em cadeia. Se o PSD ocupa a vice na chapa de Jerônimo, o MDB perde o posto mais visível da coalizão. Na política, quando um espaço se fecha em um lado, ele precisa se abrir em outro — ou a tensão vira crise.

É nesse contexto que o nome do deputado federal Ricardo Maia (MDB) passou a aparecer nas conversas de bastidor da oposição. ACM Neto precisa crescer no interior para tornar a disputa competitiva: perdeu a eleição de 2022 em boa parte porque a força de Lula nos municípios menores carregou Jerônimo ao Palácio de Ondina. Ricardo Maia reúne os atributos que interessam a essa estratégia: base sólida no semiárido, onde foi prefeito de Ribeira do Pombal por dois mandatos, influência no Sisal através do filho que comanda Tucano, e trânsito fácil entre prefeitos do interior. Foi eleito com mais de 136 mil votos em sua primeira disputa para a Câmara dos Deputados, o que o coloca entre os nomes com maior lastro eleitoral regional do MDB baiano.

Sondagens foram feitas. O próprio Maia confirma o diálogo. Mas, ao menos por ora, ele fechou a porta:

“Minha postura política é de estar ao lado de Jerônimo. Sou pré-candidato a deputado federal, estou no MDB e irei permanecer no MDB.”

A afirmação pública é clara. Mas em política, posições declaradas em março não costumam ser testamento para outubro.

O mapa real da eleição

Os números ajudam a entender por que essas negociações têm tanta importância. O primeiro levantamento da Séculus para 2026, registrado no TSE, coloca ACM Neto com 48,28% das intenções de voto contra 31,15% de Jerônimo Rodrigues — uma diferença que, embora expressiva, já foi maior e que o governador disputa com 59% de aprovação em outras pesquisas. O cenário é competitivo o suficiente para que ambos os lados estejam calculando cada peça com cuidado.

Nas eleições municipais de 2024, os partidos da base do governo controlaram 309 dos 417 municípios baianos, mas o total de votos foi próximo: 2,68 milhões para a base governista e 2,58 milhões para a oposição. Salvador brilha, mas o interior decide. Quem dominar os municípios de médio porte do semiárido, do sisal e do oeste baiano terá a eleição mais próxima — e é exatamente aí que tanto o PSD quanto o MDB atuam com mais capilaridade.

O sinal de alerta

Jerônimo disse que tem um prazo e que vai usá-lo até o fim. A frase é um recado aos partidos aliados — e ao próprio MDB — de que a decisão virá, com ou sem consenso.

Nada disso está formalmente encerrado. Mas a movimentação das últimas 72 horas indica que o jogo deixou a fase das especulações e entrou na fase das negociações reais. Quando um governador confirma em coletiva que está “fechando um acordo” sobre a vice, quando uma “lista tríplice” de nomes começa a circular com atribuição explícita, e quando o principal cotado da oposição sente necessidade de ir a público para dizer que não vai mudar de lado — o tabuleiro já está em movimento.

  • Na Bahia, as coalizões sempre decidiram mais do que os candidatos. O que estamos vendo agora é a fase em que elas são costuradas — ou desfeitas.

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