Cidades

O homem que atravessou governos

A morte de Alcides Kruschewsky, aos 66 anos, encerra uma das trajetórias mais singulares da vida pública de Ilhéus. Estas linhas são, antes de tudo, a despedida de um amigo.

Durante quase trinta anos, enquanto prefeitos subiam e desciam as escadarias do Palácio Paranaguá, partidos trocavam de lado, alianças se desfaziam e adversários viravam aliados, um mesmo homem continuava circulando entre os centros de decisão de Ilhéus. Não porque ocupasse, ininterruptamente, um cargo. Mas porque conhecia, como poucos, o mapa invisível que liga o poder público ao setor produtivo, a imprensa à administração, o discurso turístico à infraestrutura que deveria sustentá-lo.

Esse homem se chamava Alcides Kruschewsky e, para mim, era também um amigo. Sua morte, na manhã desta segunda-feira, em Salvador, pouco mais de um mês depois de um diagnóstico agressivo de câncer nas vias biliares, interrompe uma trajetória que se confunde com a própria história política, administrativa e econômica de Ilhéus nas últimas décadas. A rapidez do desfecho — o intervalo curtíssimo entre o diagnóstico e o fim — produziu em mim, e em tantos que com ele conviveram, um choque difícil de traduzir. Perde-se um interlocutor; perde-se, sobretudo, uma presença a que nos acostumamos a recorrer.

Escrevo, portanto, sem a falsa neutralidade que estas colunas costumam exigir. Tive a honra de sua amizade e nutri por ele admiração e respeito que o tempo só fez crescer. É com esse sentimento, e não apesar dele, que tento registrar quem foi Alcides — porque a melhor homenagem que se pode prestar a um homem público é compreendê-lo com honestidade.

O articulador, não o tribuno

A política de Ilhéus sempre produziu lideranças de forte apelo eleitoral. Alcides pertencia a outra categoria, mais discreta e, por isso mesmo, mais difícil de substituir: a dos articuladores institucionais. Era o homem das pontes — entre governo e setor produtivo, entre empresários e prefeitos, entre o turismo e a máquina pública, entre a imprensa e o poder, entre os grupos rivais que disputaram a cidade ao longo de duas décadas.

Sua força nunca residiu na militância partidária nem na tribuna. Estava no acúmulo de algo mais valioso e menos visível que um mandato: informação, escuta, interlocução e a rara capacidade de costurar consensos onde só se enxergavam trincheiras. Foi vereador por dois mandatos, mas seu espaço político jamais se limitou ao plenário. Lembro-me bem de como sua influência aparecia, sobretudo, nos momentos em que algum governo precisava construir uma ponte institucional — e descobria que Alcides já estava do outro lado, de mão estendida.

Banco, rádio e empresa: o trânsito que antecedeu a política

Antes dos cargos, Alcides construiu uma identidade múltipla que explicaria toda a sua atuação posterior. Foi funcionário do Banco do Brasil, atuou como empresário, passou pelo rádio e participou ativamente dos debates públicos da cidade. Essa combinação moldou um perfil incomum: enquanto boa parte da classe política tradicional se especializava apenas na disputa eleitoral, ele transitava com naturalidade por ambientes sociais e econômicos distintos — do comerciante ao empresário, da liderança comunitária ao profissional liberal. A política veio como desdobramento dessa presença, e não como ponto de partida. Não tardou para que chegasse à Câmara Municipal.

A confiança que sobreviveu às alternâncias

O traço mais revelador de sua trajetória só aparece quando se examina sua vida pública em sequência. Alcides integrou administrações politicamente opostas. Foi secretário de Governo na gestão Newton Lima; mais tarde, assumiu a Secretaria de Turismo no governo Jabes Ribeiro; anos depois, voltou ao primeiro escalão como secretário de Comunicação Social no primeiro mandato de Mário Alexandre.

A sequência impressiona porque atravessa grupos políticos diferentes, projetos eleitorais distintos e momentos administrativos sem qualquer parentesco entre si. Não se trata apenas de uma sucessão de nomeações: é o indicador de uma confiança política conquistada ao longo do tempo, capaz de resistir à troca de comando. Pouquíssimos quadros da vida pública ilheense permaneceram relevantes em gestões tão diversas. E sei por convívio o que sustentava essa permanência: a palavra empenhada que ele cumpria, a discrição com que tratava o que lhe era confiado e a lealdade que dispensava aos amigos. Quando os governos mudavam, Alcides permanecia. Quando as alianças se refaziam, ele continuava dialogando.

O turismo como última trincheira

Foi no turismo, porém, que sua atuação ganhou nova dimensão nos últimos anos. À frente da Associação de Turismo de Ilhéus (ATIL), passou a ocupar um espaço que reunia suas duas marcas mais fortes — a articulação política e a defesa de interesses econômicos estratégicos — e deixou de falar apenas como ex-político para falar como representante de um setor inteiro. Eram conversas que, muitas vezes, tive o privilégio de acompanhar de perto.

A pauta que defendia era menos promocional e mais estrutural. Os temas se repetiam com a insistência de quem havia entendido o problema antes da maioria: o Aeroporto Jorge Amado, a recuperação do Centro de Convenções, a infraestrutura da orla, a mobilidade regional, a consolidação da Costa do Cacau e a ligação concreta entre turismo e desenvolvimento. Em reuniões com o governo estadual e com o trade, repetia um diagnóstico que era seu, mas também de toda a região: Ilhéus não poderia continuar sustentando seu discurso turístico sobre uma infraestrutura precária.

Talvez nenhuma bandeira sintetize melhor essa fase do que o aeroporto. Enquanto a cidade vendia praias, história, literatura, chocolate e patrimônio cultural, o principal portão de entrada do destino seguia cercado de limitações operacionais. Alcides cobrou, em manifestações públicas reiteradas, soluções para os gargalos que travam a atividade turística regional — e o fez a partir de uma premissa que repetiu até o fim: não existe destino competitivo sem infraestrutura compatível. Era uma convicção que defendia com a serenidade de quem não pedia para si, mas para a cidade.

Um arquivo vivo da cidade

Há personagens que representam um governo, outros que representam uma geração, alguns que encarnam um partido. Alcides representava algo mais difícil de nomear: a continuidade. Conhecia prefeitos e ex-prefeitos, secretários e empresários, lideranças comunitárias, jornalistas e dirigentes do turismo — e conhecia, principalmente, as conexões silenciosas que ligam esses mundos entre si. Essa permanência o transformou numa espécie de arquivo vivo da política ilheense, ao qual recorri tantas vezes em busca de uma memória, de um contexto, de um conselho.

Mesmo afastado dos mandatos eletivos, não se afastou da vida pública. Continuou escrevendo, concedendo entrevistas, participando de debates e acompanhando os movimentos da administração. Discutia turismo, discutia desenvolvimento, discutia política — sempre com a generosidade de quem repartia o que sabia. Foi assim, em conversa, que o conheci e o respeitei; e é assim que insisto em lembrá-lo, agora que o diagnóstico encurtou abruptamente todos os planos.

O vazio que permanece

A morte de Alcides Kruschewsky não produz apenas uma ausência pessoal, que para mim é enorme; produz uma lacuna institucional. Desaparece um dos raros nomes que circulavam, ao mesmo tempo, pelos universos da política, da comunicação, do turismo e da gestão pública. Sua trajetória ajuda a narrar a história recente de uma cidade que segue tentando converter potencial em desenvolvimento, vocação em investimento, turismo em economia real.

Esse, talvez, seja seu principal legado: ter compreendido, antes de muitos, que o futuro de Ilhéus dependeria menos dos discursos e mais da capacidade de conectar setores, construir consensos e transformar pautas permanentes em soluções permanentes. A morte encerra sua presença. Não encerra as perguntas que ele passou anos repetindo. O aeroporto será resolvido? O turismo deixará de ser promessa para virar política de Estado? A infraestrutura acompanhará, enfim, a vocação econômica da cidade?

As respostas seguem em aberto — e nos cabe, aos que ficamos, persegui-las. Despeço-me do amigo com a certeza de que sua história continuará relevante muito depois de seu último capítulo, e com a gratidão de quem teve o privilégio de caminhar, por algum tempo, ao seu lado. Descanse em paz, Alcides.

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