Poder & Política

O voto que os aliados não conseguem dividir

Por Jerbson Moraes — Advogado, mestrando em Direito e colunista político

Na política, o adversário declarado costuma ser o inimigo mais confortável. Conhece-se a sua posição, prevê-se o seu discurso, e o eleitor que o acompanha raramente muda de lado. A disputa que de fato desgasta é a que nasce dentro do próprio grupo, entre lideranças que ocupam o mesmo campo e dividem os mesmos palanques, reivindicando, cada qual para si, o mérito das mesmas conquistas. Essa tensão é mais difícil de administrar porque não se resolve com a retórica habitual da oposição, e é ela que começa a ganhar forma entre o prefeito de Itabuna, Augusto Castro, e o líder do Governo na Assembleia Legislativa da Bahia, o deputado Rosemberg Pinto.

Ao afirmar que Rosemberg “nunca mandou nada para Itabuna”, Augusto Castro carregou a frase de um propósito que ia muito além de rebater as críticas à sua gestão. Executou um movimento político deliberado. Retirou o debate da esfera municipal, onde vinha na defensiva, e o transferiu para o terreno da atuação parlamentar do deputado, no qual pretende impor a pergunta que lhe convém: a de saber quem, de fato, tem levado resultados a Itabuna e ao Sul da Bahia. O episódio, portanto, ultrapassa a mera troca de acusações e antecipa uma disputa eleitoral que já não se contém nos bastidores.

O que impulsiona o embate é a consolidação da candidatura de Andreia Castro à Assembleia Legislativa. A entrada de um nome ligado ao prefeito basta para reorganizar o equilíbrio político da região. Mesmo permanecendo sob o mesmo guarda-chuva político, que é a base do governador Jerônimo Rodrigues, Augusto Castro e Rosemberg Pinto passam a disputar um patrimônio que não se deixa dividir como se dividem cargos e espaços de poder: o voto. Nesse ponto a aliança encontra seu limite, pois a eleição proporcional obedece a uma lógica própria, indiferente aos apelos de unidade.

Na disputa majoritária, o que se busca é a coesão do grupo e a soma de apoios que evitem rupturas. Já na corrida por uma cadeira na Assembleia, a lógica se inverte, porque cada candidato precisa convencer o eleitor de que é, ele próprio, a melhor tradução daquele projeto. O avanço de um tende a estreitar o espaço do outro, e a competição, antes ideológica, converte-se em algo territorial e personalíssimo.

As divergências brotam desse cenário. Cada liderança tratará de exibir mais capacidade de articulação e maior influência junto ao Palácio de Ondina, além de um inventário de entregas capaz de impressionar o eleitorado regional. O discurso perde parte do tom institucional e ganha feição abertamente eleitoral, o que nada tem de anormal. O desafio real reside na dificuldade histórica das grandes coalizões para administrar suas disputas internas sem ferir a unidade do projeto comum.

Aqui reside o ponto de maior sensibilidade. Embora concorram entre si na eleição proporcional, Augusto Castro e Rosemberg Pinto seguem atados ao mesmo projeto estadual e têm interesse comum na reeleição de Jerônimo Rodrigues. Ambos sabem, ou ao menos deveriam saber, que uma disputa sem freios produz efeitos que ultrapassam a corrida por uma cadeira. Quando o conflito abandona seus protagonistas para contaminar o ambiente da base, os dividendos costumam ir parar nas mãos da oposição.

Há que se preservar, ainda assim, o senso de proporção. Os próximos meses hão de trazer novas críticas e demonstrações de força, cada lado empenhado em firmar a sua narrativa diante do eleitorado. A política brasileira, porém, guarda uma peculiaridade que raramente falha, e é a de que a intensidade da campanha se dissipa quase na velocidade com que saem os resultados das urnas. Vitoriosos os dois, não surpreenderá vê-los, horas depois da apuração, a trocar cumprimentos e a posar para as fotografias de unidade que a véspera parecia proibir. O poder tem esse talento para recompor em poucos dias o que a disputa passou meses a dividir.

O que legitimamente preocupa é menos o confronto e mais o grau que ele possa alcançar. Toda disputa interna cobra desgaste, e esse preço exige contenção para não romper os limites da competição proporcional nem atingir o projeto majoritário conduzido por Jerônimo Rodrigues. Fissuras mais profundas entre aliados estratégicos abrem à oposição o espaço de que precisa para converter divergências circunstanciais em narrativa permanente.

A eleição de 2026 medirá, no Sul da Bahia, algo maior do que a força pessoal de Augusto Castro e de Rosemberg Pinto. Porá à prova a capacidade de uma mesma coalizão de disputar votos internamente sem partir os laços que sustentam o seu projeto de governo. A busca pelo poder, ensina a política, transforma com frequência aliados em adversários passageiros. A habilidade que distingue os que perduram está em reconhecer o ponto exato em que a disputa eleitoral cede lugar à responsabilidade de governar. Vencer nas urnas resolve apenas o primeiro problema. Continuar caminhando juntos no dia seguinte é o que separa os projetos duradouros das vitórias efêmeras.

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