ANÁLISE & OPINIÃO

O presente de grego: por que Ângelo Coronel pode virar problema para ACM Neto

Na tradição homérica, os troianos celebraram como dádiva divina o cavalo que trazia, em suas entranhas, a própria ruína. Na política baiana, a filiação de Ângelo Coronel ao campo oposicionista parece reproduzir, com notável fidelidade, a mesma estrutura narrativa: uma adesão recebida com entusiasmo público, mas cujos custos embutidos só se revelarão quando já for tarde para devolvê-la.

Convém examinar a operação com sobriedade. Coronel não migra — é expelido. Chega à oposição não como estrategista que escolheu trincheira, mas como dissidente que perdeu terreno no campo de origem. A distinção é capital: quem escolhe onde lutar carrega consigo autonomia; quem é empurrado para fora carrega, antes de tudo, o peso da derrota.

E o que traz consigo o senador? Despojado da máquina do PSD, não dispõe mais dos instrumentos que lhe conferiram relevância nas últimas décadas. Não controla diretórios robustos, não comanda a lealdade de prefeitos e vereadores, tampouco governa aquela rede capilar de lideranças regionais que, na gramática concreta do poder, constitui a diferença entre influência real e prestígio meramente protocolar. Essas peças — todas elas — permanecem com Otto Alencar e sob a gravitação da engrenagem estatal. Porque, na política brasileira, fidelidade é filha da capacidade de entrega; e a máquina estadual, nesse particular, é mãe insubstituível.

O cálculo territorial é implacável. A esmagadora maioria das lideranças municipais da Bahia orienta-se pela previsibilidade do poder constituído, não pela promessa de um projeto oposicionista em gestação. Nenhuma adesão simbólica, por mais ruidosa que seja, substitui o acesso a convênios, a nomeações e à engenharia orçamentária que sustenta alianças no interior. Coronel chega à oposição com o nome — mas sem o mapa.

O problema se agrava quando se observa a dimensão familiar. Os filhos do senador, também atores do jogo político, perdem com a ruptura os espaços institucionais, os canais de acesso administrativo e a rede de sustentação que o PSD lhes assegurava. Destituídos de cargos, de capilaridade partidária e do amparo da base governista, passam a depender integralmente de uma oposição que já convive com seus próprios conflitos de coesão, suas disputas internas de protagonismo e suas limitações de recursos. Acolher toda essa estrutura familiar não é incorporar aliados — é assumir dependentes.

Para ACM Neto, o risco se desenha com clareza cartesiana. Incorporar Coronel significa absorver uma liderança em fase de contração, cujas credenciais repousam mais no que já foi do que no que ainda pode mobilizar. Um aliado sem base territorial consolidada, sem máquina, com histórico recente de rompimentos e cercado de demandas familiares por espaço tende a gerar, entre os aliados de primeira hora, mais desconfiança do que coesão. Toda coalizão suporta um número limitado de tensões internas — e há adesões que, longe de somar, apenas redistribuem fragilidades.

Não se trata de negar ao senador méritos pretéritos, nem de ignorar o valor simbólico de uma defecção governista em ano pré-eleitoral. Trata-se, antes, de submeter a operação ao crivo da aritmética política: o que se ganha em manchete, perde-se em governabilidade interna? O capital de imagem compensa o passivo de acomodação? O reforço aparente justifica o desgaste real?

Na mitologia grega — e na política real — o presente mais perigoso é aquele que não se pode recusar sem constrangimento, nem aceitar sem consequência. A adesão de Ângelo Coronel pode render dividendos retóricos no curto prazo. No médio, há indícios consistentes de que o saldo final será menos favorável do que a solenidade da filiação sugere.

Nem todo dissidente é reforço. Alguns apenas transferem ao novo campo o desgaste acumulado de alianças que não souberam — ou não puderam — preservar.

Artigos relacionados

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Botão Voltar ao topo