Poder & Política

A matemática silenciosa do poder na Bahia

Movimentos discretos de lideranças políticas começam a alterar a densidade eleitoral das chapas e redesenham, nos bastidores, a disputa pela bancada federal de 2026

Na política proporcional brasileira, as grandes mutações raramente anunciam a si mesmas. Não há discurso de ruptura nem manifesto de refundação. Há, em seu lugar, uma sequência de decisões aparentemente individuais que, quando alinhadas sob o mesmo ângulo de análise, revelam o contorno de uma transformação mais profunda. É o que começa a ocorrer na Bahia, onde a geometria eleitoral da base governista se reorganiza de forma discreta — e potencialmente decisiva — para 2026.

Três movimentos recentes, tomados em conjunto, permitem uma leitura mais precisa desse processo.

O primeiro vetor foi a nomeação do ex-deputado federal Josias Gomes para o Tribunal de Contas dos Municípios da Bahia. Responsável por aproximadamente 90 mil votos na última disputa proporcional, Josias abandona a arena eleitoral por uma cadeira de conselheiro — troca compreensível do ponto de vista individual, mas que aprofunda o déficit de candidaturas de alto rendimento na federação liderada pelo PT.

O segundo movimento — e o mais impactante do ponto de vista da geometria das chapas — é o de Diego Coronel.

Eleito em 2022 com 171 mil votos, o deputado federal reorientou seu posicionamento político, retirando da base governista um volume expressivo de votos competitivos — capital eleitoral que não encontrará substituto imediato no interior do campo situacionista.

A isso se soma um terceiro vetor: a saída do ex-deputado federal Bebeto Galvão do Partido Socialista Brasileiro, após mais de duas décadas de militância. A ruptura é simbólica e politicamente significativa, mas seus efeitos sobre a aritmética eleitoral são mais limitados que os anteriores: Bebeto permanece no campo político aliado ao governador Jerônimo Rodrigues e ao presidente Lula. Seus votos não migram para a oposição — redistribuem-se entre legendas dentro do mesmo bloco. Em linguagem técnica, trata-se de uma transferência de densidade eleitoral, não de uma perda líquida para a base governista.

Juntos, Diego Coronel e Josias Gomes somavam cerca de 261 mil votos na eleição de 2022 — volume suficiente, dadas as projeções do coeficiente eleitoral baiano, para influenciar diretamente a distribuição de pelo menos uma cadeira na Câmara Federal.

A lógica implacável do sistema proporcional

Para compreender o impacto real dessas ausências, é necessário revisitar a mecânica das eleições proporcionais. A Bahia dispõe de 39 vagas na Câmara dos Deputados. Nas eleições de 2022, o coeficiente eleitoral — o divisor que determina o limiar de representatividade — situou-se entre 190 mil e 200 mil votos por cadeira. Nesse sistema, cada candidato competitivo não disputa apenas sua própria eleição: ele funciona como locomotiva da chapa, arrastando para o partido uma massa de votos que beneficia coletivamente o conjunto dos eleitos.

É por isso que a ausência de uma liderança de alto rendimento não produz apenas a perda daquele mandato específico. Ela altera o potencial total da legenda — e, por extensão, o equilíbrio entre os aliados dentro do bloco.

Em 2022, o campo político hoje situacionista conquistou aproximadamente 21 das 39 cadeiras federais baianas. A federação PT-PCdoB-PV elegeu 10 deputados; o PSD, seis. Os demais — PDT, MDB, Avante e PSB — completaram o bloco com as vagas restantes.

Com a nova configuração, o PSD é o partido que enfrenta o maior risco de perda de representatividade proporcional, dada a centralidade de Diego Coronel em seu desempenho anterior. Já a federação petista, embora ainda seja a maior força individual do estado, vê reduzida sua capacidade de maximização de cadeiras diante da saída de Josias Gomes.

Os cenários para 2026

A partir do quadro atual, três trajetórias são plausíveis.

No cenário mais conservador, a base governista perderia de duas a três cadeiras, chegando a algo entre 19 e 20 deputados federais — resultado direto da ausência de candidaturas capazes de repor o volume eleitoral perdido.

Num cenário intermediário, a recomposição parcial das chapas e o eventual surgimento de novas lideranças competitivas permitiriam à base sustentar entre 20 e 21 vagas, mantendo sua hegemonia numérica na bancada baiana.

O cenário mais favorável — repetição dos 21 deputados de 2022 — dependeria de uma reorganização eficiente do bloco: identificação e lançamento de candidatos com capacidade de geração de volume eleitoral equivalente ao dos nomes que deixaram o sistema. É o cenário tecnicamente possível, mas politicamente mais exigente.

A variável decisiva, em qualquer dos três caminhos, não é ideológica nem programática. É operacional: a capacidade dos partidos aliados de construir chapas que compensem as perdas de densidade eleitoral nos próximos dois anos.

Nas eleições proporcionais, cada candidatura de alto rendimento é uma engrenagem funcional de um mecanismo coletivo. Quando essas peças saem do sistema — seja por migração política, seja por nomeação para cargos não eletivos — a máquina não para, mas seu funcionamento muda de ritmo.

Na Bahia, a engrenagem governista já começou a se reorganizar. Os contornos da bancada federal de 2026 estão sendo desenhados agora, nos bastidores dos diretórios partidários e nas conversas que ainda não chegaram aos palanques.

Como sempre na política, as respostas definitivas ficam reservadas para a noite de outubro.

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