Bahia pode encurtar o caminho de Lula para a virada
A diferença de 3,22 milhões de votos entre Lula e Flávio no estado supera a vantagem nacional do senador. Uma simulação aponta que a migração de 1,11 milhão de votos no Nordeste inverteria o resultado, se os demais números ficassem estáveis.

Por Jerbson Moraes | Salvador, 18 de outubro de 2026
A uma semana do segundo turno, o Nordeste concentra a principal margem eleitoral de que Lula dispõe para tentar reverter a desvantagem nacional. Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno 2.224.965 votos à frente: recebeu 56.104.503 votos, contra 53.879.538 do presidente. Desde a redemocratização, o candidato que saiu na frente no primeiro turno venceu todas as disputas presidenciais que chegaram ao segundo. O retrospecto favorece Flávio e torna ainda mais decisiva a busca de votos por Lula.
A conta para medir o peso do Nordeste é direta. Quando um eleitor troca um candidato pelo outro, a diferença entre eles se altera em dois votos: um sai da coluna de Flávio e entra na de Lula. Assim, a transferência de 1.112.483 votos seria suficiente para inverter por um voto a vantagem nacional do senador, caso os demais resultados não mudassem.
No primeiro turno, Flávio recebeu 10.398.973 votos nos nove estados nordestinos; Lula, 21.494.584. A migração simulada corresponde a 10,7% da votação regional de Flávio, pouco mais de um em cada dez votos que ele recebeu ali. Com o eleitorado válido da região mantido constante, Lula passaria de 63,77% para aproximadamente 67,07%, enquanto Flávio cairia de 30,85% para cerca de 27,55%.
O cálculo é um teste de escala, não uma previsão. Ele supõe que os votos mudem diretamente de Flávio para Lula e congela o comportamento eleitoral no restante do país. No segundo turno, porém, a disputa também se moverá no Sudeste, no Sul, no Centro-Oeste e no Norte. Qualquer avanço de Flávio nessas regiões elevaria o número de votos que Lula teria de recuperar no Nordeste.
Um patamar já alcançado
O percentual projetado é próximo do que Lula já obteve no Nordeste. No primeiro turno de 2022, o petista recebeu 66,76% dos votos válidos da região, cerca de três décimos de ponto abaixo dos 67,07% desta simulação. No segundo turno daquele ano, chegou a 69,34%. Em 2006, quando disputou a reeleição contra Geraldo Alckmin, alcançou 77,10% no Nordeste.
Há uma comparação mais precisa para o segundo turno: considerar somente os votos de Lula e Flávio. No primeiro turno de 2026, Lula reuniu 67,4% dos votos dados aos dois candidatos na região. Para a transferência direta de votos compensar a margem nacional, essa proporção teria de chegar a cerca de 70,9%. O resultado de 2022 ficou 1,6 ponto abaixo desse patamar; o de 2006 o superou com folga.
Os candidatos eliminados somaram aproximadamente 1,81 milhão de votos válidos no Nordeste, 5,38% do total regional. Mesmo que todos esses eleitores escolhessem Lula, o volume não cobriria sozinho a diferença nacional: ainda restariam cerca de 414 mil votos a buscar entre eleitores que se abstiveram, votaram em branco ou nulo, ou escolheram Flávio. A transferência dos votos de terceiros teria metade do efeito sobre a margem de uma troca direta entre os dois finalistas.
A vantagem baiana e a perda recente
É na Bahia que essa aritmética ganha escala. Quarto maior colégio eleitoral do país e o maior do Nordeste, o estado tem 11.312.752 eleitores aptos. No primeiro turno, Lula recebeu 5.664.771 votos, ou 66,17% dos válidos; Flávio teve 2.442.585, ou 28,53%. A diferença de 3.222.186 votos supera a vantagem nacional do senador. Lula foi o mais votado em 413 dos 417 municípios baianos, e o estado respondeu por 26,4% da votação do presidente no Nordeste.
A Bahia também concentra uma parte importante da retração petista. Comparado ao primeiro turno de 2022, Lula perdeu 208.310 votos no estado — cerca de 81% da redução registrada por ele em todo o Nordeste. Flávio, por sua vez, recebeu 394.986 votos a mais do que Jair Bolsonaro havia obtido na Bahia quatro anos antes. Esse crescimento ajuda a explicar por que a disputa estadual ganhou peso para as duas campanhas.
O avanço de Flávio aparece no mapa municipal. Ele venceu em Luís Eduardo Magalhães, no Oeste, onde obteve 62,03%, e em Buerarema, Itamaraju e Teixeira de Freitas, no Sul e no Extremo Sul. Em Salvador, Lula venceu por 65,26% a 27,03%, mas a votação de Flávio chegou a 391.188 — a maior contagem absoluta do senador entre os municípios baianos.
Recuperar parte do terreno perdido no estado pode encurtar o caminho de Lula. Considerados apenas os votos dos dois finalistas, o presidente teve 69,9% na Bahia no primeiro turno de 2026. Se alcançar os 72,12% que obteve no segundo turno de 2022, com o mesmo total de votos destinados aos dois candidatos, a margem estadual cresceria cerca de 365 mil votos. Esse acréscimo equivale a aproximadamente 16% da diferença nacional. Se a vantagem baiana voltasse ao saldo absoluto de 2022 — 3.740.787 votos —, o ganho sobre o primeiro turno deste ano seria de aproximadamente 519 mil, ou 23% da distância nacional.
O PT baiano mira uma margem ainda maior. Reportagens atribuem à campanha a meta de abrir 4 milhões de votos de vantagem no estado. Para isso, a diferença atual entre Lula e Flávio na Bahia teria de crescer cerca de 778 mil votos, o equivalente a 35% da vantagem nacional do senador. Nenhum outro estado nordestino oferece, isoladamente, margem eleitoral comparável.
Também há espaço para uma estratégia de mobilização. No primeiro turno, 2.259.151 baianos não compareceram às urnas, 19,97% do eleitorado; outros 493.310 votos foram brancos ou nulos. O número de ausentes se aproxima da diferença nacional entre os candidatos, mas não indica preferência política: é um contingente potencial a ser mobilizado pelas duas campanhas. Em números absolutos, as maiores ausências foram registradas em Salvador, Feira de Santana, Vitória da Conquista, Camaçari e Lauro de Freitas.
A disputa se desloca para o estado
A oposição baiana também aposta no peso do estado. ACM Neto, candidato derrotado ao governo e ex-prefeito de Salvador, declarou apoio a Flávio em 7 de outubro e prometeu mobilizar prefeitos e deputados de seu grupo. No dia 17, o senador participou de um ato no Farol da Barra, em Salvador, ao lado do aliado. Foi sua primeira grande agenda na capital baiana desde o anúncio do apoio.
Na campanha de Lula, o governador reeleito Jerônimo Rodrigues e o senador Jaques Wagner têm articulado a mobilização local. Rui Costa, senador eleito, ajuda a coordenar a campanha nacional em Brasília com Camilo Santana. Os dois grupos tentam converter apoios políticos e a votação do primeiro turno em comparecimento e novos votos.
Cada movimento na Bahia pode alterar a principal margem regional favorável a Lula. Se o presidente ampliar sua votação no estado, o ganho ajudará a compensar a desvantagem nacional. Se Flávio reduzir a diferença baiana, Lula perderá parte do espaço de que precisa para alcançar o senador.
O que a simulação não prevê
A hipótese de que os resultados das outras regiões permaneçam iguais serve para isolar o peso do Nordeste; não descreve o cenário mais provável. O Sudeste concentra a maior parte do eleitorado nacional, enquanto Flávio saiu à frente no Sul e no Centro-Oeste. Transferências de votos, abstenções e a disputa por eleitores de candidatos eliminados podem alterar o saldo em todas essas áreas.
A conta indica que existe um caminho aritmético para Lula virar a disputa com uma mudança concentrada no Nordeste. Não mostra que essa mudança ocorrerá. A Bahia é o principal ponto de apoio desse caminho: tem a maior votação de Lula na região, supera a margem nacional do senador em sua diferença estadual e, ao mesmo tempo, concentra a maior perda petista desde 2022. O resultado dependerá de quanto desse terreno Lula conseguirá recuperar e de como Flávio avançará no restante do país.
Fontes de apuração
- Resultado nacional final do 1º turno de 2026 — TSE / HubPolítico
https://hubpolitico.com.br/eleicoes/2026/apuracao/presidente/votos - Votação de Lula e Flávio no Nordeste, por estado — UOL, 5 out. 2026
https://noticias.uol.com.br/eleicoes/2026/10/05/votos-de-lula-e-flavio-no-nordeste-veja-resultado-da-apuracao-por-estado-na-regiao.ghtm - Variação dos votos de Lula entre 2022 e 2026 — UOL, 5 out. 2026
https://noticias.uol.com.br/eleicoes/2026/10/05/lula-perde-forca-em-todas-as-regioes-em-comparacao-a-2022-veja-numeros.ghtm - Abstenção na Bahia — Tribunal Regional Eleitoral da Bahia
https://www.tre-ba.jus.br/comunicacao/noticias/2026/Outubro/eleicoes-2026-eleitoras-e-eleitores-que-faltaram-ao-1o-turno-devem-justificar-a-ausencia - Lula vence em 413 municípios baianos — Bahia Notícias
https://www.bahianoticias.com.br/municipios/noticia/52796-lula-vence-em-413-dos-417-municipios-da-bahia-no-1-turno-flavio-bolsonaro-ganha-so-em-4 - Votação de Flávio em Salvador — HubPolítico, dados do TSE
https://hubpolitico.com.br/eleicoes/2026/apuracao/ba/salvador/presidente/votos - Resultado de Lula na Bahia no segundo turno de 2022 — TRE-BA
https://www.tre-ba.jus.br/comunicacao/noticias/2022/Outubro/2o-turno-tre-ba-conclui-apuracao-no-estado - Meta do PT para a Bahia no segundo turno — BNews
https://www.bnews.com.br/noticias/politica/pt-quer-repetir-72-de-votos-em-lula-na-bahia-para-superar-flavio-bolsonaro.html - Apoio de ACM Neto a Flávio — Correio 24 Horas
https://www.correio24horas.com.br/eleicoes/acm-neto-anuncia-apoio-a-flavio-bolsonaro-e-promete-mobilizacao-na-bahia-precisamos-mudar-o-nosso-pais-1026 - Coordenação da campanha de Lula — A Tarde
https://atarde.com.br/eleicoes/rui-costa-e-camilo-santana-assumem-coordenacao-de-lula-no-2-turno-1405194 - Votação regional no primeiro turno de 2022 — Poder360
https://www.poder360.com.br/eleicoes/compare-resultados-por-regiao-do-1o-turno-para-o-2o-turno/ - Votação de Lula no Nordeste no segundo turno de 2022 — UOL
https://noticias.uol.com.br/eleicoes/2026/10/07/quantos-votos-lula-e-jair-bolsonaro-tiveram-em-2022-veja-apuracao.amp.htm - Resultado do segundo turno de 2006 no Nordeste — Agência Brasil
https://memoria.ebc.com.br/agenciabrasil//noticia/2006-10-29/lula-amplia-vantagem-no-nordeste-e-alckmin-vence-apenas-na-regiao - Projeções, margens e proporções entre os dois candidatos: cálculos próprios com base nos resultados publicados.



