Da feira livre ao resort: a trajetória de Edinei Espírito Santo e a economia do turismo em Ilhéus
Da feira livre ao resort: a trajetória de Edinei Espírito Santo e a economia do turismo em Ilhéus | Por Jerbson Moraes Advogado, mestrando em Direito e colunista

Poucos empresários moldaram a economia do turismo no sul da Bahia como Edinei Espírito Santo. Fundador do Cana Brava Resort e um dos responsáveis pela consolidação da atividade turística em Ilhéus, ele percorreu, em mais de meio século, o caminho que vai do carrego em feira livre à direção de um dos maiores grupos hoteleiros do Nordeste — negócio que hoje gera empregos e sustenta, direta ou indiretamente, a renda de milhares de famílias. Seu percurso ajuda a explicar como o litoral ilheense deixou de ser um trecho de praias pouco exploradas e se tornou um dos destinos mais procurados do turismo baiano.
Nascido em Camamu, no baixo sul baiano, Edinei conheceu cedo a adversidade. A perda precoce da mãe e a necessidade de trabalhar ainda na infância o conduziram à feira livre, onde fazia carrego, vendia pão de porta em porta e complementava a renda com a comercialização de sorvetes, querosene e a pesca de siri. Dessas ocupações modestas herdou a disciplina e a convicção, que levaria por toda a vida, de que o trabalho era o instrumento mais seguro para transformar a própria realidade.
Na adolescência, mudou-se para Salvador e, posteriormente, para São Paulo, onde adquiriu experiência no comércio e no atendimento ao público. Foi na capital paulista que iniciou sua trajetória empresarial: primeiro no comércio de alumínio e, depois, no mercado de ouro, segmento em que alcançou expressiva expansão e reuniu os recursos que financiariam novos investimentos, entre eles postos de combustíveis, padarias e empreendimentos da construção civil.
A mudança definitiva de rumo ocorreu durante uma viagem ao sul da Bahia. Ao conhecer a área onde funcionava o antigo Camping Cana Brava, percebeu um potencial que passava despercebido para a maioria. A aposta, considerada ousada para a época, transformou-se em uma das decisões empresariais mais relevantes da história recente do turismo baiano. No lugar do camping surgiu o Cana Brava Resort, empreendimento que se consolidaria como referência nacional em hotelaria e turismo de experiência.
A consolidação do resort, entretanto, esteve longe de ser linear. Em determinado momento, o empreendimento enfrentou uma grave crise financeira que ameaçou anos de trabalho e colocou em risco sua continuidade. Em vez de interromper o projeto, Edinei optou por reorganizar a operação, renegociar compromissos, revisar processos e apostar em um novo modelo de negócios. A implantação do sistema all inclusive marcou a virada estratégica: reabriu o ciclo de crescimento e recuperou a competitividade do empreendimento, o que permitiu preservar centenas de empregos e manter ativa uma cadeia econômica de que dependem Ilhéus e boa parte da região.
Hoje, o grupo empresarial liderado pela família Espírito Santo figura entre os principais empregadores do setor turístico no sul da Bahia. Além do Cana Brava Resort, o Opaba Praia Hotel e outros empreendimentos do grupo contribuíram para consolidar Ilhéus como um dos destinos turísticos mais importantes do Nordeste, movimentando restaurantes, fornecedores, transportadores, prestadores de serviços e diversos segmentos ligados à economia do turismo. Em um estado cuja vocação turística representa uma de suas maiores riquezas, poucos empresários pesaram tanto na vida econômica de Ilhéus e do seu entorno.
Acompanhei parte dessa história de perto. Durante mais de uma década atuei como advogado do grupo, e convivi tanto com os períodos de expansão quanto com os momentos de maior aperto. Vi um empresário firme nas decisões e resistente às adversidades, comprometido com Ilhéus a ponto de eleger a cidade como o lugar onde investiria e ao qual ficaria ligado o seu nome.
A convivência ensinou mais do que a rotina de um escritório. Foi ali que entendi, na prática, o que significam liderança e visão de longo prazo em uma empresa: aprendi observando a serenidade com que ele enfrentava as crises e a confiança que sabia transmitir às equipes quando o cenário se fechava. Cresci como advogado nesses anos, e também como pessoa.
Esse testemunho pessoal, no entanto, não é o que sustenta a homenagem. O que hoje se reconhece em Edinei Espírito Santo tem menos a ver com o êxito empresarial em si do que com o efeito concreto de sua atuação sobre a economia da região: o caso mostra como a iniciativa privada pode impulsionar o crescimento de uma cidade quando o investimento vem acompanhado de horizonte de longo prazo e de compromisso com a comunidade onde se instala.
O antigo camping transformou-se em um dos principais resorts do Brasil e ajudou a reposicionar Ilhéus entre os grandes polos turísticos do país. Seu efeito, porém, foi além do empreendimento em si: contribuiu para assentar no município uma matriz econômica organizada em torno do turismo, capaz de sustentar empregos e de atrair investimentos que antes não chegavam à cidade. É nesse ponto que a história de Edinei Espírito Santo ultrapassa o âmbito privado e se incorpora à do próprio desenvolvimento econômico do sul da Bahia.



