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Raymundo Veloso e a política como ofício de servir

Por Jerbson Moraes

Algumas mortes não cabem dentro de uma família. Extravasam, ganham as ruas e obrigam a cidade inteira a parar diante de sua própria história. A de Raymundo Veloso, aos 88 anos, é uma delas. Com sua partida, Ilhéus perde mais do que um nome de sua vida política. Perde um dos últimos representantes de uma geração que compreendia o mandato como um dever, e a política como um autêntico ofício de servir.

Advogado, radialista, vereador, presidente da Câmara Municipal e deputado federal, Raymundo Veloso percorreu praticamente todos os degraus da vida pública sem jamais perder o contato com a gente comum, que sempre foi o centro de sua atuação. Levou para o rádio a linguagem simples que aprendera no exercício da advocacia e levou para Brasília as demandas que ouvia diariamente do povo do sul da Bahia. Na educação, na infraestrutura, na defesa da lavoura cacaueira em seus anos mais difíceis e em tantas outras frentes, deixou marcas que resistem ao tempo.

Seria injusto, contudo, resumir sua trajetória aos cargos que ocupou.

Para mim, esta é uma despedida que toca profundamente o coração. Convivi com Raymundo Veloso e tive o privilégio de construir uma amizade fraterna com seu filho, o advogado Márcio Veloso — colega de profissão, amigo e irmão que a vida me deu. A partida de Márcio, anos atrás, abriu uma lacuna que o tempo jamais conseguiu preencher. Agora, a despedida de seu pai reacende essa mesma saudade e devolve à memória momentos que permanecem vivos. Há amizades que nem o tempo nem a morte conseguem desfazer.

Conheci de perto a dignidade daquela família, os valores cultivados em seu lar e a forma respeitosa com que tratavam as pessoas. Raymundo Veloso dispensava ao cidadão mais simples a mesma atenção e cortesia que oferecia às maiores autoridades. Era dessa postura serena, conciliadora e profundamente humana que nascia o respeito que conquistou, inclusive entre adversários políticos. Não por acaso, muitos passaram a chamá-lo de “Advogado do Povo”, expressão que não surgiu como slogan de campanha, mas como reconhecimento espontâneo de quem testemunhou sua atuação.

A política costuma ser ingrata com a memória dos homens públicos. Os mandatos terminam, novos nomes surgem e, silenciosamente, o esquecimento avança. Permanecem, contudo, aqueles cuja contribuição ultrapassa as disputas eleitorais e passa a integrar a própria história da cidade. Raymundo Veloso pertence a esse grupo. Sua trajetória já não se limita a partidos ou correntes políticas; tornou-se patrimônio da memória de Ilhéus e do sul da Bahia.

Neste momento de dor, abraço fraternalmente toda a família Veloso, seus amigos e todos aqueles que tiveram o privilégio de conviver com ele. Faço-o não apenas como advogado, analista político ou colunista, mas como alguém que conheceu, por dentro, a grandeza humana dessa família.

Que Deus conforte os corações dos que ficam e receba Raymundo Veloso em Sua paz eterna.

O homem parte. O exemplo permanece. E há legados que o tempo não apaga, porque continuam vivos na memória de um povo e na história de uma cidade.

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