Poder & Política

Quando a Engenharia Política Falha

A oposição revela as primeiras vulnerabilidades de sua chapa para 2026 enquanto o campo governista colhe os frutos de um projeto territorial amadurecido

Projetos majoritários raramente sucumbem por falta de ambição. O que costuma derrubá-los é algo bem menos visível e, uma vez instalado, infinitamente mais difícil de corrigir: o erro de leitura. É essa hipótese que, em surdina, começa a circular nos bastidores da sucessão estadual baiana de 2026, e ela diz respeito menos ao governo do que à arquitetura escolhida pela oposição para tentar enfrentá-lo.

A chapa liderada por ACM Neto foi montada para sinalizar três coisas ao eleitorado do interior: expansão territorial, peso municipalista e capacidade de recuperar o terreno perdido em 2022. Era, em tese, a composição apropriada para enfrentar um campo governista que vem se consolidando, ano após ano, como projeto de longa duração na Bahia. Os primeiros movimentos, contudo, vêm produzindo percepção diversa daquela pretendida pelos articuladores oposicionistas, e o desconforto, antes restrito a observadores externos, já não passa despercebido dentro do próprio campo de Neto.

O anúncio oficializado em Feira de Santana apresentou a fórmula que a oposição reputa como decisiva para a reconquista do governo estadual: ACM Neto disputará o Palácio; Zé Cocá ocupará a vaga de vice-governador; e ao Senado concorrerão João Roma e Ângelo Coronel. Formalmente, é uma chapa de peso. Politicamente, todavia, certas peças começaram a oscilar antes mesmo da largada.

A dúvida de maior gravidade incide sobre Zé Cocá. Sua entrada na chapa foi justificada por uma promessa objetiva: transformar o Médio Rio de Contas e o Vale do Jiquiriçá em polos de expansão eleitoral para a candidatura oposicionista. A lógica do convite, à primeira vista, era razoável. Um prefeito reeleito em Jequié com mais de 91% dos votos válidos, ex-presidente da União dos Municípios da Bahia e articulador municipalista de larga influência regional reuniria, em tese, condições de irradiar capilaridade no interior.

Os números, todavia, contam outra história. Os dados do segundo turno de 2022 revelam que, mesmo tendo o apoio formal de Zé Cocá naquele pleito, ACM Neto foi derrotado por Jerônimo Rodrigues nos dezesseis municípios do Médio Rio de Contas, sem exceção. Na soma regional, o governador alcançou 57,73% dos votos válidos contra os 42,26% obtidos pelo então candidato oposicionista. O dado se amplia quando recolocado no panorama estadual: em 2022, Jerônimo venceu em 351 dos 417 municípios baianos, aproximadamente 84% do território político do Estado. Não foi vitória represada na capital ou na Região Metropolitana de Salvador. Foi vitória estruturalmente interiorizada, distribuída sobre quase todas as microrregiões, e indício de que o projeto governista lançou raízes profundas em terrenos historicamente difíceis para qualquer força política do estado.

O cenário mais recente confirma e amplifica esse quadro. Segundo levantamento publicado pelo Portal BomFM, dos trinta e seis municípios que compõem o Médio Rio das Contas e o Vale do Jiquiriçá, Zé Cocá obteve, até o momento, apoio declarado de apenas três prefeitos: os de Jequié, Lafaiete Coutinho e Manoel Vitorino. A reportagem observa, ainda, que dois desses três apoios guardam vínculo familiar direto com o próprio Cocá, circunstância que reduz, em termos políticos efetivos, o universo de adesões independentes praticamente à expressão municipal de uma única cidade.

O dado encontra ressonância em análise paralela publicada pelo portal Bahia Econômica, com base em registros do Tribunal Superior Eleitoral. Segundo o levantamento, o PP de Cocá elegeu prefeitos em apenas nove municípios da microrregião, e dos 125.656 votos somados por essas nove prefeituras, 85.219 vieram unicamente de Jequié, o equivalente a 67,8% do total. Em duas das nove cidades, ademais, as vitórias foram decididas por margens estreitíssimas, como ocorreu em Manoel Vitorino, onde o desfecho saiu por apenas vinte e seis votos. Quase sete em cada dez votos creditados à suposta força regional do progressismo estão, portanto, geograficamente confinados a uma única cidade, justamente aquela que o pré-candidato a vice-governador deixou de administrar há poucas semanas.

O contraste é eloquente. De um lado, o campo governista articulado em torno de Jerônimo Rodrigues mantém aliança consolidada com a expressiva maioria das prefeituras da microrregião, em uma teia política que tem se mostrado resistente às pressões pontuais e gravita em torno de um projeto estadual de longo curso. De outro, o palanque municipal oferecido à oposição pelo vice-governador escolhido reduz-se, na contagem real das adesões, a um núcleo demasiado estreito para sustentar a promessa originária da composição da chapa. O movimento que deveria produzir capilaridade no interior está, no movimento contrário, expondo a estreiteza do alcance regional do principal ativo municipalista da candidatura adversária.

Cabe à oposição, portanto, explicar por que a mesma articulação regional que fracassou em 2022, e que hoje sequer se reedita em condições mínimas, produziria desfecho diferente pela simples razão de que o aliado de então passou da condição de apoiador externo para a de vice-governador formal. Convém recordar, ademais, que o próprio Jerônimo Rodrigues é natural do município de Aiquara, no coração do Médio Rio de Contas, e mantém com aquele território uma vinculação biográfica e política que nenhuma reengenharia oposicionista consegue, por decreto, neutralizar.

Há outro elemento politicamente sensível. Antes mesmo de a campanha estadual ganhar corpo, Zé Cocá começou a colher ruídos internos na própria cidade que governou. Vereadores aliados romperam publicamente, instalaram-se críticas a prioridades administrativas e voltou ao debate a sucessão municipal conduzida dentro do núcleo familiar do prefeito. Tomado isoladamente, nenhum desses fatos inviabiliza uma candidatura estadual. Somados, contudo, fornecem matéria narrativa abundante ao adversário e produzem o que mais incomoda qualquer pré-candidatura, isto é, a percepção de desgaste precoce justamente no momento em que o ativo regional deveria estar em plena demonstração de força.

No Senado, o quadro é ainda mais delicado para a oposição. A presença de Ângelo Coronel na chapa decorre, em boa medida, de circunstância alheia ao próprio projeto oposicionista. A ruptura com o PSD comandado por Otto Alencar, somada à consolidação rápida e disciplinada da chapa governista em torno de Rui Costa e Jaques Wagner, empurrou o senador para o campo de oposição mais por necessidade do que por convicção estratégica. As primeiras sondagens chegaram a indicar competitividade, e levantamentos de março colocavam Coronel em disputa direta pela segunda vaga.

Em poucas semanas, todavia, o quadro se transformou. Pesquisa Genial/Quaest divulgada no fim de abril mostrou Rui Costa liderando com folga, Wagner consolidado na segunda posição e Coronel reduzido a 4% das intenções de voto no primeiro voto para senador. A leitura mais honesta desses números é a de que a chapa governista oferece ao eleitor algo que campanhas oposicionistas raramente conseguem fabricar artificialmente: previsibilidade, capilaridade e familiaridade. Rui Costa, ministro da Casa Civil e ex-governador, dispõe de trânsito federal e de vínculo afetivo consolidado com o eleitorado baiano. Jaques Wagner, líder do governo no Senado, soma duas passagens pelo Palácio de Ondina, uma pelo Ministério da Defesa e décadas de articulação territorial. Coronel, por circunstâncias do próprio percurso, ingressa na disputa sem dispor desses ativos.

Em eleições estaduais brasileiras, candidatos ao Senado não cumprem papel decorativo. Compete-lhes atrair prefeitos, ampliar alianças regionais, estimular financiamento de campanha e, acima de tudo, transmitir sensação de viabilidade. Quando essa transmissão não acontece, o efeito imediato é uma hesitação difusa que vai contaminando, aos poucos, o conjunto da chapa. Prefeitos passam a postergar declarações de apoio. Deputados retardam movimentos partidários. Siglas de porte intermediário recalculam alianças com mais frieza, e lideranças municipais preferem aguardar números mais consolidados antes de embarcar definitivamente num projeto majoritário. É, em essência, o ambiente que vem tomando forma na Bahia nas últimas semanas, ao mesmo tempo em que o palanque governista, no movimento contrário, vai colhendo adesões com naturalidade.

Existe, contudo, uma questão de fundo que merece reflexão mais demorada. O carlismo edificou sua hegemonia histórica sobre uma percepção emocional bastante específica: a noção de que o poder de seus líderes era, no fim das contas, inevitável. Prefeitos aderiam cedo porque acreditavam na vitória. Lideranças municipais gravitavam em torno do grupo porque enxergavam estabilidade política duradoura. A força do sistema dependia menos de ideologia ou de programa e mais da sensação contínua de viabilidade. ACM Neto herdou do avô exatamente essa gramática. Em 2022, descobriu, pela primeira vez, que a tradução já não estava clara para todos, e a Bahia rural, semiárida e municipalista o derrotou em 84% dos municípios.

Daí decorre a inflexão verdadeira que se desenha para 2026. O interior baiano, que durante tanto tempo serviu de palco às velhas oligarquias regionais, vem se reconhecendo, eleição após eleição, em um projeto político que devolveu protagonismo às pequenas e médias cidades, ampliou o diálogo com prefeitos, reorganizou as prioridades de investimento estadual e reaproximou a Bahia das estruturas federais de planejamento e financiamento. Esse amadurecimento não é fruto do acaso. É a colheita de um plantio que vem sendo feito com método e persistência, e que tem encontrado, no governador Jerônimo Rodrigues, uma síntese natural entre origem interiorana, capacidade administrativa e horizonte de continuidade.

A pergunta que começa a circular silenciosamente entre prefeitos, vereadores e lideranças do interior já não é, com rigor, se ACM Neto pode vencer. É outra, mais incômoda para a oposição e, ao mesmo tempo, mais alentadora para quem acompanha de perto a vida política do estado: o quanto esse projeto, agora amadurecido, será capaz de seguir transformando a Bahia a partir de janeiro de 2027.

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