ANÁLISE & OPINIÃO

Bahia deu a Lula a margem que a conta do primeiro turno exigia

Análise publicada nesta coluna em 18 de outubro estimou o tamanho do déficit do presidente e apontou a Bahia como principal reserva de votos para a virada. O estado e o Nordeste cumpriram esse papel. Minas Gerais e a queda da abstenção ampliaram a vantagem.

Por Jerbson Moraes | Salvador, 26 de outubro de 2026

Em 4 de outubro, Flávio Bolsonaro (PL) terminou o primeiro turno com 2.224.965 votos a mais que Lula (PT). Na reta final da campanha, a discussão girava em torno de uma dúvida prática: onde o presidente encontraria votos para tirar essa diferença? Em 18 de outubro, esta coluna publicou a análise “Bahia pode encurtar o caminho de Lula para a virada”. O texto fez a conta e indicou onde estava o voto. O Nordeste tinha tamanho para cobrir o déficit, e a Bahia era a sua principal base.

Lula foi reeleito no domingo com 64.256.232 votos, ou 51,79% dos válidos. Flávio teve 59.826.041, ou 48,21%. A diferença final ficou em 4.430.191 votos a favor do presidente. Somando o terreno recuperado e a vantagem construída depois, o saldo entre os dois se moveu cerca de 6,66 milhões de votos em três semanas.

Só na Bahia, Lula abriu 3.876.497 votos de vantagem. O número supera todo o déficit nacional que ele carregava ao fim do primeiro turno.

A conta antes da urna

O cálculo de 18 de outubro partia de uma regra simples. Cada eleitor que deixa um candidato para votar no outro reduz a diferença entre eles em dois votos. Pouco mais de 1,11 milhão de trocas desse tipo no Nordeste anulariam a vantagem do senador, se o restante do país repetisse o resultado do primeiro turno. A análise tratava o número como medida do tamanho da tarefa, sem a pretensão de prever o comportamento de cada eleitor.

A atenção à Bahia tinha razão de ser. No primeiro turno, Lula recebeu 258.555 votos a menos no Nordeste do que em 2022, e 208.310 dessa perda, cerca de 81%, ocorreram em território baiano. Ainda assim, a vantagem do presidente sobre Flávio no estado era de 3.222.186 votos, acima do déficit nacional. A Bahia reunia, ao mesmo tempo, a maior parte do recuo petista e a maior margem disponível na região.

Acima de 2022

No segundo turno, Lula teve 6.485.258 votos na Bahia (71,31% dos válidos), contra 2.608.761 de Flávio (28,69%). A margem de 3.876.497 votos ficou cerca de 654 mil acima da registrada no primeiro turno e aproximadamente 136 mil acima da vantagem de 3.740.787 votos que Lula havia obtido sobre Jair Bolsonaro no estado em 2022.

A análise estimava que o retorno ao patamar baiano de 2022 acrescentaria cerca de 519 mil votos à margem estadual. O resultado passou dessa marca. Os totais por candidato não permitem saber quantos eleitores mudaram de voto, mas mostram que a vantagem baiana cresceu na proporção prevista, e um pouco mais.

O comparecimento também subiu. A abstenção no estado caiu de 19,97% para 16,71%, recuo de 3,26 pontos, o maior do país. Não há como saber em quem votou quem voltou às urnas. O aumento da participação, porém, aconteceu no estado onde Lula tinha mais a ganhar.

O peso do Nordeste

Na região, Lula ficou com cerca de 69,4% dos votos válidos, contra 30,6% de Flávio, e abriu 13.653.696 votos de diferença. No primeiro turno, essa diferença havia sido de 11.095.611. A margem nordestina cresceu, portanto, cerca de 2,56 milhões de votos. O percentual final repetiu praticamente os 69,34% de Lula no segundo turno de 2022, referência que a análise havia usado para avaliar se uma votação perto de 70% era viável.

Esse crescimento, por si só, superou o déficit nacional. Se as demais regiões tivessem repetido o saldo do primeiro turno, a variação no Nordeste teria dado a vitória a Lula por cerca de 333 mil votos. Trata-se de uma conta sobre resultados agregados, que não reconstitui escolhas individuais. Serve para confirmar a premissa da análise de 18 de outubro: a região tinha votos suficientes para cobrir a diferença.

O caminho e a folga

O segundo turno teve outros movimentos que a simulação não incluía. Lula melhorou seu desempenho em Minas Gerais, e a abstenção nacional caiu de 21,08% para cerca de 19,22%, o que levou aproximadamente 3 milhões de eleitores a mais às urnas. A vitória resultou da soma desses fatores com o desempenho nordestino.

A análise não se propunha a cravar o placar. Mediu o déficit, calculou o efeito de cada voto trocado, indicou a Bahia como maior reserva de margem e destacou o comparecimento como variável decisiva. Encerrada a apuração, a Bahia deu a Lula quase 3,88 milhões de votos de vantagem, e o saldo do Nordeste cresceu cerca de 2,56 milhões.

A simulação considerava estável o resto do país, e o resto do país também se moveu. O caminho apontado se confirmou: a Bahia e o Nordeste garantiram a recuperação do déficit, e o voto de fora da região consolidou a vitória.

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