ANÁLISE & OPINIÃO

Filiação de Caiado ao PSD cria dois palanques antagônicos na Bahia e expõe colapso da liderança de Otto Alencar

Governador de Goiás deixou União Brasil e se filiou ao PSD na terça-feira; agora correligionário de Otto, Caiado é pré-candidato à Presidência e estará no palanque de ACM Neto contra Jerônimo — configurando a ruptura mais grave da história do partido na Bahia; provável adesão de Ângelo Coronel à oposição escancara que o senador perdeu o controle da legenda que preside

A política baiana entrou oficialmente em modo de crise institucional. Na noite de terça-feira (27), o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, anunciou sua desfiliação do União Brasil e sua filiação ao PSD — o mesmo partido presidido na Bahia pelo senador Otto Alencar. O movimento, por si só, já reconfiguraria o tabuleiro político nacional. Mas é na Bahia que a filiação de Caiado produz seu efeito mais devastador: pré-candidato à Presidência da República e já confirmado no palanque de ACM Neto para a disputa pelo Palácio de Ondina, Caiado estará, a partir de agora, em campo oposto ao do presidente do diretório estadual de seu próprio partido.

O resultado é inédito na história do PSD baiano: o partido terá dois palanques antagônicos no mesmo estado. De um lado, Otto Alencar sustenta a permanência na aliança com o PT, defendendo a reeleição do governador Jerônimo Rodrigues e do presidente Lula. Do outro, seu novo correligionário Caiado — que acaba de ser recebido no PSD por Gilberto Kassab ao lado dos governadores Eduardo Leite (RS) e Ratinho Jr. (PR) — apoiará ACM Neto, principal adversário do campo petista. É a primeira vez que um pré-candidato à Presidência de um partido se coloca em oposição direta ao presidente de um diretório estadual da mesma legenda em uma eleição majoritária.

O cenário se agrava com a informação de bastidores de que o senador Ângelo Coronel (PSD) tende a seguir o mesmo caminho, alinhando-se ao campo oposicionista liderado por ACM Neto. Se confirmada a adesão, Otto Alencar ficará isolado dentro de seu próprio partido: um presidente de diretório estadual desautorizado por um presidenciável da legenda e abandonado por seu colega de bancada no Senado. A pergunta que se impõe não é mais se o PSD está rachado, mas se Otto Alencar ainda exerce alguma autoridade real sobre o partido que formalmente comanda.

Correligionários em palanques opostos: a humilhação pública de Otto

A filiação de Caiado ao PSD foi anunciada em vídeo conjunto com os governadores Eduardo Leite e Ratinho Jr., com a chancela expressa de Gilberto Kassab. “Ao lado desses dois colegas, governadores muito bem avaliados, nós iremos disputar essa eleição em 2026. Aqui não tem interesse pessoal, aquele que for escolhido, o que sair daqui candidato terá apoio dos demais”, declarou Caiado. O gesto de unidade entre os três pré-candidatos presidenciais do PSD contrasta de forma brutal com a situação do partido na Bahia.

Otto Alencar, que em agosto passado obteve de Kassab autorização formal para conduzir o PSD baiano de forma independente da orientação nacional, vê agora essa independência se converter em isolamento. A excepcionalidade que parecia ser uma concessão de força revela-se uma armadilha: enquanto o partido lança três governadores como pré-candidatos à Presidência em oposição a Lula, Otto permanece como o único dirigente estadual relevante do PSD alinhado ao petismo. Não se trata mais de uma divergência tática — é uma fratura ideológica que atravessa a estrutura nacional do partido.

O simbolismo é esmagador. Na Lavagem do Bonfim, há menos de duas semanas, Caiado caminhou ao lado de ACM Neto e do prefeito Bruno Reis pelas ruas de Salvador, em demonstração pública de apoio à oposição baiana. Na ocasião, declarou que ACM Neto vai “devolver a Bahia aos baianos” — a mesma frase que usou para descrever sua gestão em Goiás. Agora, como correligionário de Otto Alencar, Caiado transforma o que era um apoio externo em uma guerra intestina: um membro do PSD contra outro, no mesmo estado, na mesma eleição.

Kassab chancela a divisão — e Otto perde seu fiador

O presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, não apenas recebeu Caiado no partido como celebrou a filiação. “Vamos trabalhar por um projeto de futuro para o país, sem disputas pessoais”, afirmou Kassab ao comentar a chegada do governador goiano. A declaração, aparentemente protocolar, esconde uma mensagem direta para a Bahia: o projeto nacional do PSD é derrotar Lula, não apoiá-lo.

Otto Alencar sempre justificou sua permanência na base petista invocando a autonomia concedida por Kassab. Em agosto passado, o próprio Kassab declarou: “Na Bahia, o senador Otto Alencar nos lidera e caberá a ele conduzir o partido”. Agora, porém, essa autonomia se mostra vazia: de que adianta a liberdade formal de conduzir o partido se um pré-candidato presidencial da legenda faz campanha aberta pelo adversário do seu aliado? Kassab concedeu a Otto a presidência de um diretório que já não consegue representar a unidade do PSD na Bahia.

Dois senadores, duas trincheiras: a autoridade que se esvai

A provável adesão de Ângelo Coronel ao campo de ACM Neto amplifica o impacto da crise de forma que atinge diretamente a credibilidade de Otto como líder partidário. Se confirmada, será a primeira vez desde a fundação do PSD na Bahia que os senadores do partido estarão em palanques opostos. Otto diz que permanecerá com Jerônimo; Coronel sinaliza que migrará para ACM Neto. A divisão no Senado é a prova material de que Otto Alencar perdeu a capacidade de unificar seu próprio partido.

Coronel tem resistido às investidas da oposição, mas sua permanência no campo governista tornou-se cada vez mais improvável após a exclusão de seu nome da chamada “chapa puro-sangue” que o PT pretende montar para 2026 (Jerônimo à reeleição, Jaques Wagner e Rui Costa ao Senado). Na véspera da filiação de Caiado, Coronel recebeu convite formal do União Brasil para se filiar — que ele declinou. A recusa, porém, não significa adesão ao campo governista: fontes ouvidas pela reportagem indicam que o senador aguarda a consolidação do cenário para definir seu palanque, e a chegada de Caiado ao PSD pode ser o empurrão que faltava para a ruptura definitiva.

O colapso da aliança estética: quando a imagem se despedaça

Mais do que cargos ou acordos formais, a política opera no plano da estética e da percepção pública. E é exatamente aí que o dano à aliança PSD–PT — e à liderança de Otto Alencar — se torna irreversível.

Mesmo que Otto mantenha o controle formal do diretório estadual, a imagem de unidade está destruída. Para o eleitor médio, o recado transmitido pela filiação de Caiado é cristalino: o PSD não é mais um aliado confiável do projeto petista na Bahia — é um partido dividido, com seu presidenciável apoiando a oposição e seu presidente estadual apoiando o governo. E se o PSD não é confiável, tampouco é confiável o líder que prometeu entregá-lo à coalizão governista.

Essa ruptura estética produz consequências concretas e imediatas. Prefeitos do PSD, que antes seguiam a orientação de Otto por pragmatismo e por identificação com o campo governista, passam a ter justificativa política — e cobertura nacional — para escolher o palanque de Caiado e ACM Neto. Deputados estaduais e federais tendem a migrar conforme o cálculo eleitoral de 2026. A base governista, por sua vez, perde o discurso de coalizão ampla e estável que sustentou as vitórias de 2018 e 2022. Na prática, o PT passa a disputar 2026 sem a blindagem política que o PSD de Otto Alencar prometia oferecer — e com um partido aliado que tem um presidenciável fazendo campanha pelo adversário.

O preço do racha: impacto na majoritária e nas proporcionais

O novo cenário reposiciona completamente a disputa pelo Palácio de Ondina — e quantifica o custo político da incapacidade de Otto Alencar em manter seu partido unido. Antes da ruptura, Jerônimo Rodrigues partia com a vantagem estrutural de quem governa e dispõe de máquina, sustentado por uma frente ampla que incluía o PSD como fiador institucional. Agora, ACM Neto ganha um trunfo de proporções inéditas: não apenas a chancela de Caiado, mas a presença de um pré-candidato à Presidência de centro-direita fazendo campanha em seu palanque — enquanto o PT tenta explicar por que seu aliado PSD está dividido.

Analistas projetam que a divisão do PSD pode retirar entre 3 e 6 pontos percentuais da votação inicial de Jerônimo no primeiro turno, especialmente em municípios médios e regiões do interior onde o partido construiu capilaridade administrativa. O contexto eleitoral já era desfavorável ao governador: pesquisa Paraná Pesquisas de julho de 2025 mostrou ACM Neto com 53,5% das intenções de voto contra 28,1% de Jerônimo. Com Caiado no PSD, a tendência é de aceleração dessa vantagem.

Nas eleições proporcionais, o dano é potencialmente devastador. Com o PSD dividido entre os palanques de Jerônimo e ACM Neto, votos que antes eram somados em bloco passam a ser dispersos. Coligações perdem eficiência. A projeção mais conservadora indica a possibilidade de perda de uma a duas cadeiras federais para o campo governista, além de enfraquecimento na Assembleia Legislativa. O efeito cascata beneficia diretamente os partidos alinhados a ACM Neto.

Otto resiste — mas o que resta de sua liderança?

Otto Alencar ainda detém o comando formal do PSD baiano. Mantém influência sobre parte da estrutura partidária — prefeitos, vereadores, diretórios municipais construídos ao longo de mais de uma década. Conseguiu, em dezembro, a indicação de seu filho, o então deputado federal Otto Alencar Filho, para o cargo vitalício de conselheiro do Tribunal de Contas do Estado — um aceno do governador Jerônimo para manter o PSD na base.

Mas a filiação de Caiado ao PSD, somada à provável dissidência de Coronel, esvazia a autoridade de Otto de forma irreversível. A liderança formal permanece; o capital político, contudo, se pulverizou. A pergunta que passou a circular nos bastidores do Palácio de Ondina não é mais “quem manda no PSD?”, mas sim “quem o PSD vai seguir em 2026?”. E a resposta, para um número crescente de pessedistas baianos, é Caiado — não Otto.

Um divisor de águas: o PSD que Otto construiu já não existe

A filiação de Ronaldo Caiado ao PSD marca um divisor de águas na política baiana e na trajetória de Otto Alencar. O que antes era tratado como tensão interna transforma-se agora em ruptura institucionalizada, com um pré-candidato presidencial do partido fazendo campanha pelo adversário do governador que o presidente estadual apoia. É uma configuração sem precedentes na história do PSD — e, possivelmente, na história recente da política partidária brasileira.

A Bahia, que por quase duas décadas figurou como território politicamente previsível sob hegemonia petista, entra em 2026 como o estado mais disputado do Nordeste. E, no epicentro dessa disputa, o PSD de Otto Alencar emerge não como o partido-pivô que garantia estabilidade à coalizão governista, mas como o símbolo de uma aliança que implodiu. Otto Alencar ainda é, formalmente, o presidente do PSD baiano. Mas o PSD que ele construiu — coeso, pragmático, decisivo — já não existe mais.

Em política, incerteza é sinônimo de oportunidade para uns e de risco existencial para outros. Para Otto Alencar, a filiação de Caiado ao seu partido representa o início do fim de uma liderança que parecia inabalável — corroída não por adversários externos, mas por correligionários que escolheram outro caminho.

 

ENTENDA A CRISE DO PSD NA BAHIA

O QUE ACONTECEU: Ronaldo Caiado deixou o União Brasil e se filiou ao PSD na terça-feira (27/01), ao lado dos governadores Eduardo Leite (RS) e Ratinho Jr. (PR). Os três são pré-candidatos à Presidência pela legenda.

O IMPACTO NA BAHIA: Caiado já havia confirmado apoio a ACM Neto (União Brasil) na disputa pelo governo. Agora, como correligionário de Otto Alencar, cria-se a situação inédita de dois palanques antagônicos do mesmo partido no mesmo estado.

PALANQUE 1 — OTTO ALENCAR: Apoia Jerônimo Rodrigues (PT) à reeleição e Lula à Presidência.

PALANQUE 2 — CAIADO: Apoia ACM Neto (União Brasil) ao governo e disputa a Presidência contra Lula. Ângelo Coronel tende a aderir a este campo.

POSIÇÃO DE KASSAB: Presidente nacional do PSD chancelou a filiação de Caiado e articula candidatura presidencial própria em oposição a Lula.

IMPACTO PROJETADO: Perda estimada de 3 a 6 pontos para Jerônimo na majoritária; 1 a 2 cadeiras federais nas proporcionais.

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