Poder & Política

O sul entra no jogo

A filiação de Bebeto Galvão ao PSD não foi um movimento isolado. Foi o ato final de uma aliança construída durante meses — e que pode redesenhar a bancada federal baiana em 2026.

Na manhã de segunda-feira (9), ao lado do senador Otto Alencar na sede do PSD em Salvador, três políticos assinaram sua filiação ao partido com um detalhe que passou despercebido por boa parte da imprensa: eles já haviam combinado isso juntos, em fevereiro. O deputado federal Raimundo Costa, o ex-prefeito de Serrinha Adriano Lima e o ex-deputado federal Bebeto Galvão formalizaram, em 3 de fevereiro, um pacto de aliança político-partidária, comprometendo-se a decidir coletivamente sobre qual legenda abrigaria os três. A escolha — o PSD — foi anunciada 34 dias depois. O movimento foi orquestrado, não espontâneo.

Entender essa cronologia é essencial para avaliar o que realmente aconteceu no sul da Bahia.

A conta que fechou

A aliança entre os três reúne bases consolidadas e complementares em diferentes regiões do estado. Raimundo Costa possui forte inserção entre pescadores, comunidades ribeirinhas e no Baixo-Sul; Adriano Lima, médico oftalmologista e ex-prefeito por dois mandatos, concentra liderança no território do sisal; e Bebeto Galvão tem trajetória reconhecida na defesa dos direitos da classe trabalhadora, com ampla representatividade no sul da Bahia.

No plano dos números, o argumento se sustenta. Os três projetam um potencial estimado em 220 mil votos, podendo chegar próximo dos 300 mil com a incorporação de outros nomes que dialogam com o grupo. Uma chapa proporcional com essa densidade de votos, bem distribuída territorialmente, tem condições reais de eleger mais de um deputado federal — o que, dentro da lógica do sistema proporcional, converte qualquer partido que os abrigue em protagonista da disputa federal baiana.

O PSD entendeu esse cálculo antes dos demais.

O que o PSD precisava repor

O contexto importa tanto quanto o movimento. Após a saída do senador Angelo Coronel e sua família, o PSD buscava reforçar a chapa proporcional para a Câmara dos Deputados na Bahia. A perda de Coronel não era trivial: ele representava uma das famílias políticas mais enraizadas no sertão baiano, com ramificações em Anagé e em toda a região sudoeste do estado.

A chegada simultânea de Bebeto Galvão, Raimundo Costa e Adriano Lima não apenas repõe a capilaridade perdida — em alguns sentidos a expande, porque cobre territórios distintos dos que Coronel dominava.

Bebeto: 23 anos e uma decisão coletiva

Para Bebeto Galvão, a mudança encerra mais de duas décadas de vida partidária. Após mais de 23 anos de caminhada, de construção coletiva e de profunda dedicação ao PSB, o ex-deputado justificou a saída com o argumento da inviabilidade eleitoral: o partido não conseguia estruturar uma chapa competitiva para 2026, especialmente depois que a possibilidade de atrair o deputado Bacelar (PV) não se concretizou.

A trajetória de Bebeto carrega peso simbólico na política do sul baiano. Nascido em Uruçuca, cresceu em Ilhéus e começou a trabalhar nas indústrias de beneficiamento de cacau, conciliando estudos e trabalho. Ingressou no movimento trabalhista ainda jovem e, em 1992, foi eleito o vereador mais jovem da cidade. Assumiu o mandato de deputado federal como suplente entre 2011 e 2015 e se reelegeu em 2014. Em 2018, abriu mão da própria candidatura à reeleição para garantir a eleição de Lídice da Mata à Câmara — gesto que ainda hoje é lembrado como referência de lealdade dentro do campo progressista baiano.

Hoje, como ex-vice-prefeito de Ilhéus, ele retorna à arena federal com a estrutura do PSD e o respaldo de Otto Alencar.

Paulo Magalhães e a liderança consolidada

No arranjo que se forma, Paulo Magalhães ocupa posição distinta: não chegou agora, chegou há anos — e chegou com votação para provar. Nas eleições de 2022, obteve 107.093 votos, consolidando-se como o sexto nome mais votado pelo PSD baiano para a Câmara Federal. É, hoje, o principal polo eleitoral do partido no sul do estado — e, com a chegada de Bebeto, passa a ter ao seu lado uma liderança com base complementar, não concorrente.

Essa diferença é determinante. Em eleições proporcionais, dois candidatos com perfis sobrepostos disputam o mesmo eleitor. Dois candidatos com bases distintas somam eleitores diferentes e engrossam o quociente do partido como um todo. Magalhães e Bebeto Galvão não falam para o mesmo público: um tem raízes na representação institucional e no eleitorado urbano; o outro, no movimento sindical, nos trabalhadores rurais e nas periferias da região cacaueira.

A leitura correta do movimento

O erro analítico mais comum ao avaliar esse tipo de movimentação é reduzi-la a uma questão de disputa interna. A pergunta “quem vai competir com quem?” é menos importante do que a pergunta “qual chapa o PSD consegue construir?”

A resposta que se desenha é a de uma chapa territorial: Magalhães no sul urbano, Bebeto nas bases sindicais e rurais do cacau, Raimundo Costa no Baixo-Sul e nas comunidades pesqueiras, Adriano Lima no sisal. Quatro perfis. Quatro territórios. Um quociente que pode sustentar dois ou mais eleitos.

Adriano Lima mencionou expressamente o apoio dos deputados Antonio Brito, Gabriel Nunes, Paulo Magalhães e Charles Fernandes como pilares da construção desse projeto político. Não por acaso: são exatamente os nomes que precisam de uma chapa robusta para defender seus próprios mandatos em 2026.

O sinal para a região

Há uma dimensão desta reorganização que extrapola o cálculo eleitoreiro e alcança algo mais concreto: a representação do sul da Bahia no Congresso Nacional.

A região cacaueira, que já foi o coração econômico do estado, leva décadas acumulando subrepresentação federal. A devastação causada pela vassoura-de-bruxa nos anos 1980 e 1990 fragmentou não apenas a economia, mas a coesão política de um território que chegou a ter força para ditar agenda em Brasília. Reconstruir essa presença exige exatamente o que o PSD começou a montar: uma chapa com densidade de votos, variedade de perfis e coordenação entre lideranças.

Se o movimento se confirmar nas urnas, o sul da Bahia pode, pela primeira vez em muito tempo, eleger dois deputados federais da mesma região e do mesmo partido. Não será por acaso. Será porque alguém fez a conta — e decidiu que valeria a pena fazê-la juntos.

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