Da “chapa dos sonhos” à chapa dos pesadelos: o erro estratégico da oposição na Bahia
O que se vende como força pode esconder fragilidade estrutural — e a eleição de 2026 ameaça expor essa contradição com uma brutalidade que nenhum press release será capaz de disfarçar.

- UMA CHAPA QUE NASCE FORTE — E JÁ NASCE ERRADA
À primeira vista, a composição que reúne ACM Neto, João Roma, Ângelo Coronel e Zé Cocá impressiona. São nomes com trajetória, reconhecimento público e capilaridade eleitoral em regiões distintas do estado. Em qualquer análise superficial, o arranjo parece sólido. O problema é que política não se resume à soma de currículos — e é exatamente aí, nessa aritmética sedutora mas enganosa, que começa o erro.
O que se apresenta ao eleitorado como uma “chapa dos sonhos” carrega, em sua própria arquitetura, os elementos de uma possível chapa dos pesadelos. Não por falta de força individual — mas por excesso de contradição estrutural. Há uma diferença decisiva entre reunir poder e construir unidade, e essa diferença costuma se manifestar nos momentos mais inconvenientes: no calor da campanha, na pressão dos debates, na hora de definir prioridades que inevitavelmente colidem.
A COALIZÃO SEM IDENTIDADE — E SEUS CUSTOS OCULTOS
O arranjo oposicionista não nasce de um projeto compartilhado. Nasce de uma necessidade. É, na definição clássica da teoria política, uma coalizão de conveniência: estrutura forjada para conquistar eleição, não para exercer poder com coerência. Essa distinção, que pode parecer acadêmica à distância, tem consequências operacionais concretas e imediatas.
Coalizões de conveniência funcionam porque diferem os conflitos. Elas agregam interesses divergentes sob um guarda-chuva comum, apostando que a vitória, quando vier, dissolverá as tensões acumuladas. Quase nunca funciona assim. O que não é resolvido na formação tende a emergir durante a campanha — nas entrevistas contraditórias, nos eventos que um integrante boicota, nas declarações que desautorizam outras. E quando não explode antes das urnas, costuma explodir logo depois, transformando uma vitória eleitoral em governo paralisado. A história recente da política brasileira é farta em exemplos.
Uma coalizão formada para ganhar pode perder precisamente por ter sido formada apenas para ganhar — sem o substrato de identidade que transforma uma aliança em força política duradoura.
A SIMBOLOGIA QUE NÃO CONVERSA COM A BAHIA
Há, porém, um problema ainda mais profundo que a fragilidade interna — e ele opera no terreno menos tangível, mas não menos real, do imaginário político. A chapa oposicionista, como está composta, projeta uma simbologia específica: poder concentrado, elite política tradicional, baixa diversidade de origem e representação, distanciamento das bases populares. Em muitos contextos eleitorais, isso seria apenas um detalhe de comunicação, corrigível com marketing adequado. Na Bahia, é um erro estrutural.
A política baiana dos últimos vinte anos foi moldada por uma narrativa radicalmente distinta — construída sobre inclusão, identificação social, pertencimento e representatividade. Esse não é um discurso vazio: é o eixo que organizou ciclos eleitorais consecutivos, que sedimentou vínculos entre o campo governista e segmentos amplos da população, que transformou eleições majoritárias em resultados previsíveis. Uma chapa que não conversa com esse imaginário coletivo não enfrenta apenas adversários políticos: enfrenta o próprio ambiente cultural e simbólico do estado. E esse tipo de adversário não se derrota com jingles.
O DESALINHAMENTO NACIONAL: JOGAR CONTRA O SENTIMENTO DO ESTADO
Se a fragilidade interna e a desconexão simbólica já seriam suficientes para comprometer a estratégia oposicionista, existe ainda um terceiro vetor de risco — e talvez o mais grave de todos. Parte relevante dessa coalizão orbita o campo político nacional associado ao bolsonarismo, movimento que, em outros estados, pode funcionar como ativo eleitoral, mas que na Bahia carrega rejeição estrutural em amplos setores do eleitorado.
Lula não é apenas uma liderança popular no estado. É um símbolo político com enraizamento profundo, construído ao longo de décadas e reforçado por múltiplos ciclos eleitorais. O Nordeste, e a Bahia em particular, foi e continua sendo a base mais sólida do lulismo no país. Isso cria para a oposição uma contradição que até agora não encontrou resposta convincente: como disputar o voto de um eleitorado majoritariamente identificado com Lula compondo com forças que se definem, em nível nacional, como seu principal antagonismo? A geometria não fecha — e o eleitor mediano baiano, mesmo sem vocabulário político sofisticado, percebe a dissonância.
OPOSIÇÃO
Coalizão de conveniência
Formada para a conjuntura eleitoral. Heterogênea por natureza. Gasta energia gerindo unidade interna. Desalinhada do sentimento político dominante no estado.
SITUAÇÃO
Sistema político consolidado
Construído ao longo de ciclos. Identidade reconhecida pelo eleitorado. Coesão interna estrutural, não negociada. Alinhado à liderança nacional dominante na Bahia.
DO OUTRO LADO: NÃO É UMA CHAPA — É UM SISTEMA
Enquanto a oposição consome energia tentando se equilibrar, o grupo liderado por Jerônimo Rodrigues — com Rui Costa e Jaques Wagner como pilares — opera sob uma lógica qualitativamente distinta. Não se trata de uma aliança eleitoral mais experiente ou mais bem articulada. Trata-se de um sistema político — entidade que a teoria define não apenas pela capacidade de se organizar para eleições, mas pela produção continuada de identidade, coerência narrativa e reprodução ao longo do tempo, para além dos indivíduos que o compõem em cada ciclo.
Sistemas políticos consolidados têm uma propriedade que coalizões de conveniência não conseguem replicar rapidamente: a coesão interna não precisa ser negociada a cada decisão. Ela existe como dado estrutural, construído ao longo de anos de governança compartilhada, derrotas enfrentadas juntas e vitórias que sedimentaram laços. A oposição disputa uma eleição. O campo governista disputa a continuidade de um projeto — e essa diferença de horizonte altera completamente os incentivos, a paciência e a capacidade de resistência de cada lado.
O maior risco da oposição baiana em 2026 talvez não esteja na escolha dos nomes — que, individualmente, são defensáveis. Está na leitura equivocada do jogo: a crença de que força individual resolve fragilidade estrutural, que simbologia pode ser corrigida com comunicação e que desalinhamento nacional pode ser neutralizado com discurso estadualista. São apostas que a política real raramente recompensa.
Se não corrigir sua inconsistência interna, sua desconexão simbólica com o imaginário baiano e sua dissonância em relação ao sentimento político dominante no estado, a chamada “chapa dos sonhos” corre o risco de confirmar aquilo que a história política brasileira registra com uma frequência incômoda: projetos que nascem como promessa e chegam às urnas como pesadelo — não porque seus integrantes fossem fracos, mas porque a estrutura que os sustentava nunca foi tão sólida quanto o anúncio de sua formação.



