Poder & Política

Jerônimo Rodrigues e a política da presença

Ao percorrer quase todos os 417 municípios baianos, o governador converteu a presença territorial em método de gestão e transformou demandas locais em investimentos espalhados por todas as regiões do estado.

Por Jerbson Moraes   |   Manejo Notícias

Há uma distinção fundamental, e quase sempre esquecida, entre governar a partir de relatórios e governar a partir de pessoas. O relatório informa, organiza dados e oferece ao gestor uma fotografia estatística da realidade. A pessoa revela. O número aponta a carência; somente o contato direto explica de onde ela vem. Foi essa escolha, aparentemente simples mas de consequências administrativas profundas, que marcou a gestão de Jerônimo Rodrigues desde o primeiro dia de mandato e que ajuda a entender por que a sua presença política se firmou em quase todas as regiões da Bahia.

Enquanto boa parte da política contemporânea concentra energia na fabricação de imagem pelas redes sociais, mais atenta ao gesto do que à substância, o governador apostou em um caminho mais árduo e mais desgastante: conhecer a Bahia presencialmente. Ao longo do mandato, percorreu quase a totalidade dos 417 municípios baianos, e as viagens ao interior tornaram-se uma das marcas mais visíveis de sua administração. Não era gesto retórico, e sim método de trabalho. O que poderia se resumir a protocolo virou rotina de governo, e municípios que durante anos ficaram à margem da agenda estadual passaram a receber visitas frequentes, reuniões técnicas e anúncios de investimento.

O desafio que essa opção enfrenta é estrutural. A Bahia tem dimensões continentais, e os seus municípios se distribuem por realidades econômicas, sociais e geográficas muito diferentes entre si. Governá-la apenas dos gabinetes de Salvador sempre foi uma limitação imposta pela própria escala do território, e não pela vontade de quem governa. Ao ocupar o interior de forma sistemática, Jerônimo deixou de conhecer os problemas só pela mediação dos números. Passou a vê-los de perto: as dificuldades das comunidades rurais, os gargalos da infraestrutura, a situação dos hospitais regionais, as demandas por água, mobilidade, segurança e educação.

Esse contato permanente teve dois efeitos. No campo administrativo, deu ao governo mais precisão para identificar prioridades, trocando a inferência estatística pelo diagnóstico feito no lugar. No campo político, firmou a imagem de um governador acessível e atento à realidade das diferentes regiões. Em um país marcado pela distância entre quem governa e quem é governado, isso não é pouca coisa.

A consequência apareceu na forma mais concreta de que dispõe a administração pública: a obra. Estradas recuperadas, encostas contidas, hospitais ampliados, novas unidades de saúde, escolas em tempo integral, investimentos em abastecimento de água, equipamentos de segurança e projetos de desenvolvimento regional formam um inventário com um traço em comum, a presença prévia do governador no território. A visita antecede e orienta a entrega. O governo viu, ouviu, planejou e executou. Por trás dessa sequência aparentemente óbvia está aquilo que costuma faltar à administração pública brasileira, a continuidade entre o diagnóstico e a ação.

Há, ainda, uma dimensão menos visível e talvez mais importante. Ao percorrer quase todos os municípios baianos, Jerônimo conseguiu algo que poucos governadores alcançaram em tão pouco tempo: construir uma identidade verdadeiramente estadual. A Bahia nunca foi um bloco homogêneo. Há uma Bahia do Oeste, moldada pelo agronegócio; uma Bahia do Semiárido, forjada na convivência com a estiagem; uma Bahia do Litoral e uma Bahia Metropolitana; um Extremo Sul de vocação própria e um Recôncavo de densa memória histórica. A tradição política do estado é a da influência regionalizada, em que cada liderança se enraíza no seu quadrante. Jerônimo seguiu o caminho inverso e, ao ocupar o território de ponta a ponta, passou a ser reconhecido como governador de todas as Bahias.

Mais do que ampliar a presença institucional do Estado, essa estratégia produziu um efeito raramente observado em governos de dimensão territorial tão ampla: a construção de empatia política a partir da convivência. Ao visitar sucessivamente municípios de todas as regiões, o governador não apenas levou obras e investimentos; acumulou conhecimento direto sobre as diferentes realidades baianas. O agricultor do Semiárido, o pescador do litoral, o comerciante do interior, o estudante da rede pública, o paciente do hospital regional e o pequeno produtor rural deixaram de ser abstrações estatísticas para converter-se em referências concretas do processo decisório. A consequência natural dessa aproximação é que as políticas públicas passam a nascer menos da suposição e mais da experiência acumulada no contato permanente com a população.

A teoria política ajuda a entender o fenômeno. A autoridade de um governante não vem apenas do cargo que ocupa, mas da legitimidade que ele constrói, e essa legitimidade cresce quando a população sente que é conhecida por quem a governa. A capilaridade obtida pela presença é um capital difícil de imitar, porque não se compra com publicidade nem se fabrica em estúdio. Constrói-se no chão, viagem após viagem. As redes sociais registram a agenda, mas a agenda acontece antes delas, nas estradas e nas reuniões que nenhuma postagem é capaz de substituir.

Talvez resida aí o aspecto mais relevante da experiência administrativa de Jerônimo Rodrigues. Em uma época em que grande parte da política se tornou refém da velocidade das redes sociais e da lógica da comunicação instantânea, a gestão baiana escolheu reafirmar um princípio clássico da administração pública: governos não existem para produzir conteúdo; existem para produzir presença, decisão e resultado.

Ao percorrer praticamente toda a Bahia, Jerônimo não apenas ampliou a sua visibilidade institucional. Construiu uma forma particular de governar. Fez da estrada uma extensão do gabinete, transformou a escuta em instrumento de planejamento e aproximou a máquina pública de regiões que, durante décadas, acostumaram-se a ser lembradas apenas em períodos eleitorais.

A história política costuma distinguir os governantes pelas marcas que deixam. Alguns são lembrados por grandes obras, outros por reformas estruturais, outros ainda por momentos específicos de crise ou de reconstrução. No caso de Jerônimo Rodrigues, é possível que a marca mais duradoura do seu governo venha a ser justamente a decisão de percorrer a Bahia para conhecê-la de perto e governá-la a partir da sua realidade concreta.

Porque, ao final, existe uma verdade simples que atravessa qualquer teoria política: nenhum governante compreende plenamente um povo que não conhece. E poucos governos, na história recente do estado, se dedicaram tanto a conhecer a Bahia caminhando por ela.

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