OTTO ALENCAR ELEVA O TOM CONTRA O PT E TRANSFORMA “CANDIDATURA PRÓPRIA” EM PEÇA DE XADREZ PARA 2026
Ao acenar com a hipótese de lançar Angelo Coronel ao Senado fora da chapa governista, senador do PSD não anuncia ruptura — reposiciona o partido na mesa de negociação e antecipa um conflito que o PT preferia adiar.

As declarações do senador Otto Alencar (PSD-BA), feitas neste sábado (17), em entrevista ao programa Frequência News, na Rádio Boa FM, apresentado pelo radialista Binho Shalom, devem ser lidas menos como prenúncio de cisão e mais como demonstração de um repertório clássico da política brasileira: a ameaça calibrada que não chega ao rompimento, mas eleva suficientemente o custo do silêncio para o interlocutor.
Ao admitir que o PSD pode, a um só tempo, manter apoio à reeleição de Jerônimo Rodrigues (PT) e lançar Angelo Coronel à disputa pelo Senado fora da coligação majoritária, Otto cria um fato político com objetivo preciso: forçar o PT da Bahia a reabrir, em condições menos assimétricas, as negociações sobre a composição da chapa de 2026.
O impasse estrutural na base aliada
O pano de fundo é conhecido. O PT baiano tenta acomodar três nomes de peso — Jaques Wagner, Rui Costa e Angelo Coronel — em apenas duas vagas ao Senado. A aritmética, como está posta, implica que alguém será preterido. E é justamente a indefinição sobre quem ficará de fora que alimenta a tensão antes mesmo de a chapa existir formalmente.
Nesse cenário, Otto tem insistido em um argumento que encontra eco tanto nos bastidores quanto na imprensa: uma composição “puro-sangue”, exclusivamente petista, aumenta o risco eleitoral e produz ruído em uma base que se sustenta, desde 2006, pela lógica da coalizão ampla.
O recado é direto: excluir o PSD da chapa majoritária não é apenas um problema para o PSD — é um problema para o próprio projeto governista.
Pressão institucional, não rompimento
Quando Otto sustenta que a legislação permitiria ao PSD apoiar Jerônimo e, simultaneamente, manter candidatura própria ao Senado, ele não está descrevendo um cenário desejável. Está sinalizando um limite.
O PSD, na leitura do senador, não aceita ser tratado como coadjuvante automático na montagem da chapa — e menos ainda como legenda cujo espaço pode ser definido unilateralmente pelo aliado maior.
O recado é duplo. De um lado, o PSD reafirma o compromisso com Jerônimo, evitando o desgaste do rótulo de traição e preservando a coesão do campo governista. De outro, deixa claro que não abrirá mão de Angelo Coronel sem uma solução negociada que preserve a relevância do partido na arquitetura eleitoral.
A candidatura “solo” como ameaça crível — mas estruturalmente anômala
Embora a hipótese de Coronel disputar o Senado sem o palanque governista seja evocada como possibilidade, a leitura predominante nos bastidores é que se trata de instrumento de pressão, não de estratégia eleitoral propriamente dita.
Uma candidatura avulsa do PSD ao Senado seria uma anomalia dentro da lógica de coalizão que sustenta o governismo baiano há duas décadas. O PSD sabe disso; o PT também. E é justamente por ser uma hipótese indesejável para ambos os lados que ela funciona como alavanca de negociação.
A credibilidade da ameaça não depende de sua viabilidade eleitoral concreta, mas da disposição demonstrada de aceitar um cenário subótimo caso a alternativa seja a marginalização.
O fator tempo: antecipar para não ser atropelado
Há um elemento temporal central nessa movimentação. Ao trazer o conflito a público já em janeiro de 2026, Otto impede que a definição da chapa seja tratada como fait accompli às vésperas das convenções partidárias.
Força a negociação agora, quando o PT ainda dispõe de margem para acomodar — e quando o desgaste de uma eventual exclusão de Coronel seria politicamente mais difícil de administrar.
A antecipação do embate, portanto, não é acidente retórico. É cálculo político.
Lula como árbitro: elevação do patamar
A expectativa de que o presidente Lula atue como mediador para evitar fissuras na base também integra o tabuleiro. Ao mencionar, ainda que indiretamente, essa possibilidade, Otto eleva o patamar da disputa e sinaliza que o PSD não aceita resolver a questão apenas no âmbito estadual.
Trata-se de uma manobra de nacionalização do conflito: se a solução não vier pela via da negociação local, que venha pela intervenção do Planalto — arena em que o PSD também dispõe de interlocução.
O recado está dado
Ao elevar o tom publicamente, Otto Alencar não rompe. Reposiciona. Cria alavancagem política e cobra do PT uma negociação mais equilibrada, em que o PSD não seja mero figurante na distribuição de espaços.
A menção à candidatura própria opera, por ora, como peça retórica de barganha — um movimento de xadrez para forçar resposta.
Mas a mensagem é clara: ou o PT negocia agora, com o PSD à mesa em condições de paridade, ou o custo político da acomodação será muito maior quando o calendário eleitoral apertar.
O jogo está aberto. E Otto acaba de mostrar que pretende jogá-lo.



