A eleição da comparação: o cálculo de Rui Costa e o risco estrutural da oposição na Bahia
Ao propor a comparação de gestões como critério central da disputa, o ministro Rui Costa oferece à coalizão governista um terreno que lhe é estruturalmente favorável — e expõe a oposição à sua principal vulnerabilidade: a ausência de um projeto coletivo reconhecível

A política raramente se decide no calor das campanhas. Em geral, ela se resolve antes — na forma como cada grupo consegue definir os termos do debate. Quem estabelece o vocabulário da disputa condiciona, antes mesmo do primeiro comício, as chances de vitória de cada campo. Na Bahia de 2026, esse movimento está em curso, e quem o lidera é um nome que, tecnicamente, ainda não é candidato.
Ao afirmar, em agenda no interior baiano, que a eleição será decidida pela comparação entre gestões, o ministro da Casa Civil, Rui Costa, não fez apenas uma declaração de circunstância. Fez uma escolha estratégica precisa. Comparar é, em essência, deslocar o eleitor do campo das promessas para o campo da memória — substituir o futuro hipotético pelo passado auditável. É um tipo de disputa que favorece quem governou e, sobretudo, quem construiu ao longo de mais de duas décadas uma narrativa contínua de poder.
“Comparação” não é apenas uma palavra. É uma armadilha bem montada: quem a aceita como critério dominante já entrou no terreno do adversário.
Rui sabe disso. E sabe mais: a comparação, quando se torna o parâmetro hegemônico da disputa, reduz o espaço para discursos genéricos e expõe fragilidades estruturais. Propostas vagas se dissolvem quando confrontadas com realizações concretas — ou com a percepção delas, que, no plano eleitoral, vale tanto quanto a realidade. Não por acaso, ao mesmo tempo em que propõe o critério da comparação, Rui diagnostica o estado da oposição com uma palavra deliberadamente carregada: “debandada”.
A escolha do termo não é casual. No vocabulário político, “debandada” implica não apenas derrota, mas dispersão — perda de densidade organizativa, esvaziamento de alianças, incapacidade de manter coesão diante da pressão. Não se trata de uma crítica conjuntural. Trata-se de uma tentativa de fixar, antes do início formal da campanha, uma narrativa de enfraquecimento progressivo. E narrativa, em política, é ativo de guerra.
A arquitetura do campo governista
Do lado governista, o desenho já está posto com razoável clareza. Jerônimo Rodrigues ocupa o Executivo estadual e consolida, aos poucos, uma identidade própria dentro de uma tradição petista que na Bahia sempre foi mais pragmática do que ideológica. Jaques Wagner busca renovar o mandato senatorial, carregando o peso simbólico de uma trajetória que atravessa três décadas de hegemonia progressista no estado. Geraldo Júnior, pelo MDB, representa a ponte com o centro que sustentou a coalizão no governo anterior e mantém densidade própria nos municípios do interior. E Rui Costa, reposicionado como potencial candidato ao Senado, cumpre o papel de âncora narrativa — o nome que dá continuidade ao projeto sem ocupar o centro do palco.
Não se trata apenas de uma lista de nomes. Trata-se de um arranjo que comunica método: previsibilidade, coordenação e presença territorial. Três atributos que, historicamente, têm peso decisivo em eleições estaduais na Bahia — um estado de dimensões continentais, onde a capilaridade política nos 417 municípios do interior vale, muitas vezes, mais do que qualquer debate televisivo na capital.
Nesse tabuleiro, o PSD de Otto Alencar ocupa posição estratégica singular. Senador experiente, com trânsito entre o campo governista federal e interlocutores de centro-direita no estado, Alencar representa uma variável que tanto pode consolidar a coalizão como reequilibrar o cenário a depender do momento em que definir seu posicionamento definitivo. Partidos com presença municipal sólida constroem redes de influência que não aparecem nas pesquisas de intenção de voto, mas aparecem no resultado das urnas — e o PSD baiano é, nesse aspecto, uma máquina testada. A coalizão PT-MDB-PSD, ainda que heterogênea em suas origens ideológicas, partilha o interesse comum da continuidade — e isso, no plano eleitoral, é uma moeda forte.
O dilema oposicionista: mais que fragmentação, ausência de projeto
A oposição baiana enfrenta um desafio que vai além da fragmentação partidária. Fragmentação é um problema de geometria; o que a oposição tem é um problema de substância. Não basta reunir partidos. É preciso construir um projeto que seja percebido como viável, que tenha coerência temática e âncora territorial — e, sobretudo, que disponha de um nome capaz de personificar essa alternativa de maneira crível.
Sem unidade de projeto, qualquer candidatura oposicionista corre o risco de ser lida não como alternativa, mas como protesto organizado. E protesto, em eleições majoritárias estaduais, raramente se converte em vitória.
O cenário oposicionista apresenta nomes de diferentes espectros — da centro-direita liberal ao conservadorismo tradicional — que ainda não encontraram a forma de convergir em torno de um programa comum. A ausência de uma liderança capaz de catalisar essa convergência é, por ora, o dado mais revelador do campo: há insatisfação difusa, há potencial de mobilização em nichos específicos do eleitorado, mas não há, ainda, o nome que personifique a alternativa de maneira crível e abrangente. E eleições majoritárias estaduais se ganham, antes de tudo, com nomes — não com campos.
A reconversão de parte do União Brasil e de setores do PSD que se mantiveram na fronteira da coalizão poderia reconfigurar esse quadro. Mas essa reorganização ainda está em curso, sujeita a vetores que incluem interesses locais, expectativas de cargos e cálculos sobre a viabilidade dos nomes em disputa. Sem uma liderança capaz de catalisar essa convergência, a oposição corre o risco de chegar à convenção partidária ainda debatendo nomes, enquanto o campo governista já estará debatendo estratégia de segundo turno.
O que a moldura antecipada significa
O movimento de Rui Costa, portanto, cumpre dupla função: fortalece o campo governista ao ancorar a disputa em resultados tangíveis e, simultaneamente, pressiona a oposição a sair da zona de conforto do discurso negativo e entrar no terreno mais exigente — e mais perigoso para ela — da comparação objetiva. Pois é mais fácil prometer do que demonstrar, e mais fácil criticar do que apresentar um balanço alternativo que resista ao escrutínio.
Há, contudo, um risco nessa estratégia. Comparações funcionam quando a percepção de realização é difundida e estável. Se o eleitorado associar o governo atual a promessas não cumpridas, à deterioração de serviços essenciais ou ao distanciamento das demandas populares — seja na saúde, na segurança pública ou na geração de emprego —, o mesmo critério proposto por Rui pode reverter-se contra o campo que o introduziu. A comparação é uma faca de dois gumes. E o eleitor, quando motivado, é capaz de usá-la em qualquer direção.
Por ora, porém, a assimetria favorece quem governa. A coalizão tem estrutura, tem coordenação e tem uma história que, no imaginário baiano, é percebida como de avanço — ainda que seletivo e desigual. A oposição tem críticas, tem insatisfações legítimas e tem potencial de mobilização. O que ainda não tem é a arquitetura que transforma potencial em votos.
A eleição de 2026 na Bahia começa, assim, com uma moldura já desenhada — e desenhada de um lado só. De um lado, um grupo que aposta na continuidade como virtude política e na memória coletiva como ativo eleitoral. De outro, uma oposição que ainda precisa provar que é capaz de ser mais do que a soma de suas insatisfações.
No fim, como sempre, a decisão será do eleitor. Mas a forma como essa decisão será enquadrada — os critérios pelos quais o eleitor avaliará as opções — isso a política tenta definir antes. E, desta vez, a palavra-chave já foi escolhida, já foi lançada ao debate e já começou a trabalhar silenciosamente na cabeça do eleitor.



