Poder & Política

A guerra silenciosa pelo poder na Bahia

A divergência entre Rui Costa e Jaques Wagner expõe as fissuras de uma coalizão vencedora — e ACM Neto descobre que o melhor campo de batalha é dentro da casa do adversário

Há quase vinte anos a Bahia é governada pelo mesmo campo político. Agora, pela primeira vez, a disputa pelo futuro desse projeto começou dentro da própria coalizão.

Toda coalizão política vitoriosa carrega dentro de si a semente da sua própria tensão. Não porque seus integrantes sejam inimigos disfarçados — mas porque o sucesso compartilhado cria poder real, e poder real gera disputas reais. A Bahia, que elegeu governadores do mesmo campo político por quase vinte anos consecutivos, chegou ao momento inevitável: a coalizão que governou unida agora precisa decidir quem governa dentro dela.

O sinal mais visível dessa tensão atende pelo nome da vice-governadoria. Mas quem interpretar esse debate como uma simples disputa por um cargo estará lendo a superfície. O que está realmente em jogo na política baiana é a resposta a uma pergunta que ninguém faz em voz alta: quem deterá a hegemonia sobre o projeto político do estado na próxima década?

O mapa que mudou — e o que ele significa

Para entender a divergência entre Rui Costa e Jaques Wagner, é preciso partir de um dado estrutural que costuma ser subestimado nas análises eleitorais: na política brasileira, quem controla prefeituras controla cabos eleitorais, máquinas administrativas e, em última instância, votos.

Nas eleições municipais de 2024, a base governista baiana expandiu de forma expressiva. O Partido Social Democrático, ligado ao senador Otto Alencar, consolidou-se como a legenda com maior número de prefeitos no estado. O Avante, articulado por Ronaldo Carletto, cresceu de maneira acelerada especialmente no interior — exatamente onde a disputa estadual é mais capilar e decisiva.

Nesse novo cenário, o MDB apresenta uma equação delicada: o partido foi essencial para a vitória de Jerônimo Rodrigues em 2022, mas seu desempenho nas municipais de 2024 não acompanhou o crescimento dos demais aliados. A questão que circula nos bastidores não é se o MDB merece reconhecimento — é se o reconhecimento que merece ainda equivale à vice-governadoria.

Rui Costa construiu sua carreira política operando com lógica de resultados eleitorais mensuráveis. Para essa visão, alianças não são apenas relações políticas — são instrumentos de vitória. E instrumentos que deixam de produzir resultado tendem a ser substituídos.

Jaques Wagner, senador e um dos principais arquitetos da coalizão que governa a Bahia desde 2007, opera com uma lógica diferente — e igualmente legítima. Para ele, alianças não são contratos de desempenho revisados a cada eleição. São relações políticas construídas ao longo de anos, que incluem lealdade, sacrifício e cumplicidade em momentos difíceis. O MDB esteve presente quando o campo precisou. Reduzir seu espaço agora seria, na visão wagneriana, um erro estratégico que os aliados de amanhã saberão lembrar.

A divergência, portanto, não é pessoal. É filosófica. E é justamente por isso que ela é mais difícil de resolver.

Jerônimo no fio da navalha

No centro dessa tensão está o governador Jerônimo Rodrigues — que precisa administrar uma equação inédita em sua trajetória política. Jerônimo chegou ao poder como candidato de consenso de um campo que precisou se unir para vencer. Sua força política vem exatamente dessa capacidade de ser o ponto de equilíbrio entre diferentes interesses. Mas o equilíbrio tem um custo: quem equilibra tudo raramente define nada.

Agora o governador se vê diante de duas lideranças que moldaram o poder político baiano nas últimas duas décadas — e que, pela primeira vez de maneira mais evidente, divergem sobre o caminho a seguir. Qualquer decisão que tome sobre a composição da chapa de 2026 será lida como um gesto de alinhamento com uma dessas leituras estratégicas.

Se confirmar Geraldo Júnior na vice: sinaliza que a lógica da estabilidade das alianças prevaleceu — e que Wagner tem peso real nas decisões do governo.

Se substituir Geraldo Júnior: sinaliza que o novo mapa eleitoral foi reconhecido — e que Rui Costa, mesmo de Brasília, continua sendo uma voz determinante na política baiana.

Qualquer que seja a escolha, haverá um lado insatisfeito. E insatisfação, em coalizões longas, é o estágio inicial de uma ruptura.

O movimento que veio de fora

Enquanto a base governista administra suas tensões internas, um ator externo realizou um movimento de rara sofisticação política. ACM Neto, ex-prefeito de Salvador e principal liderança da oposição baiana, fez um gesto público de reconhecimento ao MDB. Elogiou o papel do partido, sinalizou sua importância no cenário político estadual e, implicitamente, sugeriu que o MDB poderia estar sendo subestimado dentro da própria coalizão que ajudou a construir.

À primeira leitura, parece uma declaração cordial. À segunda leitura, é uma operação política.

O movimento foi inteligente por quatro razões:

Primeiro, ele não atacou o governo — ao contrário. Ao valorizar um aliado da base governista, ACM Neto evitou a reação defensiva imediata que qualquer crítica direta produziria. Quem não ataca não pode ser respondido como adversário.

Segundo, sinalizou ao MDB a existência de uma alternativa política fora da coalizão. Isso não significa, necessariamente, uma oferta concreta. Significa algo mais sutil e mais poderoso: a lembrança de que alianças são escolhas, não obrigações.

Terceiro, introduziu o que estrategistas chamam de “elemento de incerteza ativa” dentro da base governista. Uma coalizão longa só funciona enquanto todos os seus membros acreditam que não há melhor opção disponível. Quando essa crença é questionada — mesmo de forma oblíqua — a dinâmica de negociação interna muda.

Quarto — e esse é o movimento mais sofisticado — ACM Neto aumentou o custo político de qualquer decisão do governador Jerônimo. Se Jerônimo retirar o espaço do MDB agora, parecerá que está cedendo ao argumento implícito de Neto. Se mantiver esse espaço, parecerá que confirmou o diagnóstico de que o partido estava sendo pressionado. Não é fácil sair de um dilema criado pelo adversário.

Os cenários que ninguém nomeia

A discussão sobre a vice-governadoria pode terminar de três formas, cada uma com consequências distintas:

Cenário 1 — Geraldo Júnior é mantido: A coalizão sinaliza estabilidade, Wagner sai fortalecido e Rui Costa precisa reacomodar suas preferências. O risco: PSD e Avante podem interpretar a decisão como um sinal de que crescimento eleitoral não garante crescimento político — reduzindo o entusiasmo desses aliados em 2026.

Cenário 2 — Recomposição negociada: O MDB é deslocado da vice-governadoria para outra posição relevante. Essa é a solução clássica de redistribuição: ninguém perde, ninguém vence, todos ficam levemente insatisfeitos. Funciona no curto prazo. No médio prazo, cria pressões acumuladas.

Cenário 3 — Redução sem compensação adequada: O campo governista testa uma hipótese perigosa: a de que seus aliados não têm para onde ir. É exatamente nesse ponto que ACM Neto estará esperando.

A eleição que já começou

Existe uma diferença fundamental entre observar a política como acontecimento e observá-la como processo. Quem a observa como acontecimento espera pelos lançamentos de candidaturas, pelos palanques, pelos debates televisivos. Quem a observa como processo sabe que a eleição começa muito antes — e que os movimentos que definem o resultado muitas vezes acontecem quando o calendário eleitoral ainda parece distante.

A eleição de 2026 na Bahia já começou. Não nos palanques. Nas reuniões fechadas onde se decide quem ocupa a vice. Nos gestos públicos de um ex-prefeito que sabe exatamente o que está fazendo ao reconhecer um aliado do adversário. Na divergência estratégica entre duas das maiores lideranças do campo progressista baiano sobre qual lógica deve prevalecer — a da renovação eleitoral ou a da fidelidade política.

Coalizões se mantêm por cálculo e por crença. O cálculo é óbvio: é melhor estar dentro do que fora. A crença é mais sutil: é preciso confiar que quem lidera a coalizão sabe o valor do que foi construído juntos. Quando o cálculo permanece e a crença se abala, começa a erosão.

ACM Neto, que perdeu eleições para governador na Bahia, parece ter aprendido uma lição que muitos oposicionistas ignoram: coalizões poderosas raramente são derrotadas de fora para dentro — elas se enfraquecem quando começam a duvidar de si mesmas.

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