A geometria variável da amizade: Otto, Coronel e a aritmética impiedosa do poder

Maquiavel já advertia que, na política, os homens esquecem mais facilmente a morte do pai do que a perda do patrimônio. Atualizando a máxima para o Brasil de 2026, poderíamos acrescentar: esquecem também, com notável agilidade, décadas de convivência quando o cálculo eleitoral assim exige. O imbróglio entre os senadores Otto Alencar e Ângelo Coronel, companheiros de legenda e de trincheira no PSD baiano, oferece uma demonstração exemplar dessa aritmética impiedosa.
O mito funcional da fraternidade política
A pergunta sobre a existência de amizade nos círculos superiores do poder brasileiro é daquelas que se repete justamente por não admitir resposta confortável. No vocabulário da ciência política, fala-se em mito funcional: a amizade existe enquanto cumpre função — legitima alianças, suaviza negociações, confere verniz humanizador a transações essencialmente utilitárias. Dissipada a utilidade, dissolve-se o mito.
Há, é certo, quem defenda uma leitura menos corrosiva. Amizades, argumentam os otimistas, podem sobreviver a divergências programáticas, desde que não sejam contaminadas pelo veneno da traição ou da ingratidão percebida. O problema — e aqui reside o nó górdio do caso baiano — é que a fronteira entre ‘divergência legítima’ e ‘punhalada pelas costas’ costuma ser traçada pelo próprio ofendido, com régua generosamente elástica.
A engrenagem de 2026: quando a estratégia devora o afeto
O estremecimento entre os dois senadores não nasceu de desavença pessoal, mas da fria geometria eleitoral que o PSD desenhou para a Bahia. Otto Alencar, na qualidade de presidente estadual da legenda, sacramentou o alinhamento integral ao PT e à reeleição do governador Jerônimo Rodrigues — movimento que, ao estreitar as vias de acomodação interna, relegou Ângelo Coronel à condição de figurante num roteiro escrito por outros.
A reação não tardou. O ex-deputado Marcelo Nilo, porta-voz oficioso do descontentamento, disparou a palavra maldita: traição. Coronel, mais cauteloso, optou pelo registro diplomático, insistindo que a amizade com Otto permaneceria ‘inabalável’ — tentativa compreensível, ainda que pouco convincente, de circunscrever o conflito à esfera institucional, preservando intacta a fachada pessoal.
Otto, por seu turno, respondeu com a franqueza desencantada de quem conhece as regras do jogo há tempo suficiente para não se iludir com elas: ‘A política é assim, ela junta e às vezes aparta.’ Traduzido do economês sentimental: o vínculo histórico existe, mas não constitui cláusula pétrea diante das exigências do projeto coletivo.
A elegância da exclusão
A promessa de garantir legenda para que Coronel dispute a reeleição ao Senado — ainda que como ‘candidato avulso’, sem o amparo da chapa majoritária — foi apresentada como gesto conciliatório. Na sintaxe do poder, contudo, a frase admite outra tradução: preserva-se a liturgia da lealdade, mas subtrai-se a substância. O amigo permanece formalmente acolhido; apenas não divide mais a mesa principal.
É solução típica da política profissional brasileira, herdeira de uma cultura que abomina rupturas espetaculares. Ninguém corta relações em praça pública; simplesmente redistribui o oxigênio de modo a asfixiar, sem alarde, quem deixou de ser prioritário.
O fogo amigo e suas chamas discretas
O episódio ilumina um fenômeno que a crônica política conhece bem, mas raramente nomeia com clareza: o fogo amigo não se manifesta pelo ataque frontal, mas pelo esvaziamento progressivo. Não há declaração de guerra; há convites que deixam de chegar, articulações das quais o aliado de ontem só toma conhecimento pelos jornais, espaços decisórios que se fecham com a suavidade de uma porta automática.
O poder, como notou Weber, opera segundo lógica própria, indiferente às categorias morais que regem a vida comum. Ele não rompe amizades — simplesmente não as reconhece como variável relevante quando a equação exige resultado.
Conclusão: a escolha que dispensa palavras
Otto Alencar e Ângelo Coronel continuarão, provavelmente, a afirmar em entrevistas que a amizade resiste. A política de 2026, porém, já emitiu seu veredito: o ciclo que os manteve no mesmo campo de gravitação se encerrou — ou, na hipótese mais generosa, ingressou em fase terminal de desgaste.
A rigor, a política não exige que deixem de ser amigos. Exige apenas que escolham lados. E, no Brasil real, essa escolha costuma dizer mais sobre os vínculos do que qualquer declaração de afeto.
Afinal, como bem sabiam os antigos, amicus certus in re incerta cernitur — o amigo certo se conhece na hora incerta. A hora, para Otto e Coronel, chegou. O resto é retórica.



