A cobrança pública de Jabes Ribeiro e os limites da velha articulação em Ilhéus
Veterano recorre ao microfone para pressionar prefeito Valderico Júnior sobre apoio a candidatura federal; silêncio do Executivo expõe fragilidade de acordos firmados em gabinete

Manejo Notícias
Atualizado em 20/01/2026, às 19h45, com nota de esclarecimento de Jabes Ribeiro
O ex-prefeito Jabes Ribeiro (PP) decidiu transferir para o rádio uma cobrança que, em circunstâncias normais de temperatura e pressão política, deveria ter sido resolvida em reuniões reservadas. Em pronunciamento público, exigiu do prefeito Valderico Júnior o cumprimento de um suposto compromisso assumido em dezembro passado: apoiar a candidatura de Cacá Leão, do Progressistas, à Câmara dos Deputados em 2026. A exposição da divergência revela menos sobre o objeto da disputa e mais sobre a erosão de uma lógica de poder que, durante décadas, funcionou sem necessidade de holofotes.
O episódio merece atenção não pelo seu conteúdo imediato — alianças eleitorais são negociadas e renegociadas cotidianamente —, mas pelo método escolhido. Quando um político experiente recorre à pressão midiática para obter aquilo que deveria fluir naturalmente de um acordo entre aliados, o gesto denuncia, antes de tudo, a perda de capacidade de fazer valer a própria palavra nos espaços onde tradicionalmente se costuravam os entendimentos.
O constrangimento como substituto da influência
Jabes não se limitou a cobrar. Optou por uma estratégia de emparedamento, ao mencionar que Valderico teria participado da reunião em Salvador na qual o acordo foi supostamente selado, na presença de ACM Neto e do próprio Cacá Leão. A mensagem subliminar é inequívoca: você estava lá; portanto, cumpra. Trata-se de uma tentativa de vincular publicamente o prefeito a um compromisso cuja existência — ou, ao menos, cujos termos precisos — ele aparentemente não reconhece com a mesma ênfase.
Em política, constrangimento público é o recurso de quem esgotou os instrumentos de convencimento. E constrangimento, quando aplicado a aliado — sobretudo a um prefeito recém-empossado, ainda em fase de consolidação de autoridade —, tende a produzir o efeito inverso do pretendido. O constrangido se arma de silêncio, cultiva a imagem de independência e deixa o cobrador exposto à própria solidão retórica.
A fratura exposta: confiança como variável política
Para quem acompanha a política de Ilhéus, o episódio atual não surge isolado. Meses antes, o próprio Jabes havia fornecido a senha do desgaste ao proferir, em entrevista, uma sentença que dificilmente encontra lugar em alianças funcionais: “acordo quebrado, confiança morta”. A frase, pela sua dramaticidade, já antecipava o que agora se confirma: a relação entre o veterano progressista e o atual chefe do Executivo municipal opera em regime de atrito, não de cooperação.
Quem administra coalizões com estabilidade não anuncia o óbito da confiança em veículos de comunicação. Quem o faz está, na prática, comunicando duas coisas simultaneamente: perdeu previsibilidade sobre o comportamento do aliado e aposta na pressão midiática como instrumento de recuperação de controle. É uma aposta de alto risco. O aliado pressionado pode simplesmente concluir que o custo de ceder supera o custo de resistir.
O silêncio de Valderico e a concorrência de Leur Lomanto
Enquanto Jabes ocupa o espaço sonoro, Valderico permanece em silêncio calculado — o que, em si, já constitui uma resposta. A ausência de gestos de aquiescência indica que o prefeito não se considera vinculado ao acordo nos termos apresentados pelo ex-prefeito, ou que avalia haver margem para renegociação.
O tabuleiro se torna ainda mais desfavorável para Jabes quando se observa a emergência de outro vetor de influência sobre a gestão municipal. O deputado federal Leur Lomanto tem sinalizado disposição de direcionar recursos significativos para Ilhéus, mas condicionou essa disposição a um “acordo político” com o prefeito. A formulação merece atenção: enquanto Jabes fala em acordo como título de crédito a ser executado — algo já firmado e pendente apenas de cumprimento —, Leur fala em acordo como troca prospectiva, com contrapartidas tangíveis na forma de emendas, obras e destinações orçamentárias.
Na gramática da política municipal contemporânea, entrega costuma falar mais alto do que linhagem partidária ou compromissos de gabinete. Um prefeito que precisa pavimentar ruas, equipar postos de saúde e manter a máquina administrativa funcionando tende a gravitar na direção de quem oferece recursos concretos, não de quem apresenta cobranças baseadas em reuniões pretéritas.
O paradoxo do articulador sem execução
Jabes tentou, em suas declarações, reposicionar-se como estrategista de longo prazo — alguém que teria se “preservado por visão tática” e operado “nos bastidores”. O problema é que o bastidor só é virtuoso quando produz resultados. Quando não produz, converte-se no espaço do político que detém acordos, mas não consegue executá-los.
Emerge, assim, um paradoxo revelador: o ex-prefeito quer se apresentar como peça indispensável da engrenagem política regional, mas a própria necessidade de elevar a voz no rádio demonstra que não ocupa o lugar de comando que reivindica. Está, para usar uma metáfora automobilística, no banco do passageiro, apontando o caminho com insistência crescente, visivelmente irritado porque o motorista não executa as manobras indicadas.
A crise do modelo de articulação tradicional
O que se observa em Ilhéus não é um fenômeno isolado. Trata-se de manifestação local de uma transformação mais ampla na dinâmica do poder municipal brasileiro. O modelo clássico de articulação — no qual lideranças veteranas acumulavam capital político suficiente para definir candidaturas, distribuir palanques e arbitrar disputas internas — enfrenta erosão acelerada.
As novas gerações de prefeitos, eleitas em contextos de fragmentação partidária e comunicação direta com o eleitorado via redes sociais, mostram-se menos suscetíveis à lógica da deferência.
O acordo de gabinete, que durante décadas funcionou como instrumento suficiente de coordenação política, perde eficácia quando o custo de descumpri-lo se revela inferior ao custo de cumpri-lo.
O recuo semântico: nota de esclarecimento confirma o diagnóstico
Horas após a repercussão da entrevista ao programa O Tabuleiro, Jabes Ribeiro divulgou nota de esclarecimento que, longe de neutralizar a análise aqui desenvolvida, a confirma em seus traços essenciais.
Na nota, o ex-prefeito contesta a informação de que teria dado “dez dias” de prazo ao União Brasil — partido de Valderico — para cumprir o acordo. Esclarece que o tema deve ser resolvido “até o final deste mês”, após deliberação interna do PP, “para que possamos organizar as candidaturas”.
Mais reveladora, porém, é a ressalva final: “Não costumo interferir em partidos além daquele em que milito”. A frase soa como tentativa tardia de amenizar o que, na entrevista matinal, soou precisamente como interferência — a cobrança pública a um prefeito de outra legenda.
O encerramento da nota — “Estou confiante de que haverá uma decisão rápida, pelo bem dos envolvidos e do projeto que venceu as eleições em Ilhéus” — substitui a cobrança explícita por uma expressão de confiança. O problema é que a distensão chega depois que o estrago já foi feito.
Ao final, o episódio deixa um retrato ainda mais nítido: um ex-prefeito experiente, que pela manhã foi ao rádio cobrar e à noite precisou emitir nota para modular, enquanto o prefeito permanece em silêncio.
Política, em sua expressão mais crua, não costuma respeitar quem pede. Respeita quem entrega.



