ANÁLISE & OPINIÃO

Bahia 2026: quando o investimento fortalece o adversário

De Ilhéus a Jequié, o governismo investiu — e construiu sua própria oposição

Há um tipo de erro político que não aparece nos relatórios de governo, não emerge nas rodadas de articulação e só se revela quando já não há tempo para corrigi-lo. Não é o erro da omissão — visível e, em alguma medida, reversível. É o erro de premissa.

Esse erro — estrutural, recorrente e, por isso, ainda mais grave — nasce de uma suposição equivocada sobre o funcionamento do poder, reproduz-se silenciosamente em decisões aparentemente racionais e só se materializa quando seus efeitos já são irreversíveis. É exatamente esse erro que o governismo baiano parece reeditar na caminhada para 2026.

O caso Ilhéus e o sinal que não foi lido

Durante os governos de Rui Costa, Ilhéus foi amplamente contemplada por investimentos estruturantes, presença institucional e integração direta com o núcleo do poder estadual. O então prefeito Mário Alexandre, o Marão, não apenas operou nesse ambiente — foi politicamente potencializado por ele.

A lógica era clássica e, à primeira vista, consistente: investimento gerando capital político local; capital político convertendo-se em alinhamento eleitoral. O equívoco estava na interpretação desse capital.

O que foi lido como fortalecimento de um aliado revelou-se, na prática, fortalecimento de uma liderança. E lideranças fortalecidas não se comportam como extensões do poder que as impulsionou — comportam-se como centros autônomos, com agenda própria, capacidade de escolha e interesse permanente em preservar essa autonomia.

O resultado nas urnas foi o primeiro indício: mesmo sob forte presença de investimentos estaduais, ACM Neto abriu vantagem superior a dez mil votos em Ilhéus. Mas o dado decisivo viria depois.

No momento em que se esperava reciprocidade — o apoio à candidatura alinhada ao projeto governista local —, o prefeito seguiu outro caminho. Optou por projeto próprio, fragmentou o campo político e reconfigurou a disputa municipal. A base construída com suporte estatal não sustentou o governo. Sustentou a si mesma.

Não se trata de discutir intenções — matéria irrelevante para a análise política. Trata-se de reconhecer efeitos. E o efeito foi inequívoco: investimento não gerou fidelidade. Gerou autonomia.

Jequié: não é exceção, é padrão

Se Ilhéus fosse um caso isolado, caberia tratá-lo como desvio pontual. Mas Jequié, sob a liderança do prefeito Zé Cocá, reproduz a mesma lógica com nitidez suficiente para afastar qualquer leitura episódica.

Mais uma vez, o governismo se aproxima de uma liderança regional com densidade política própria. Mais uma vez, aposta na proximidade institucional como mecanismo de comprometimento eleitoral. E, novamente, opera sob uma premissa que o interior baiano já superou.

Prefeitos de cidades médias deixaram de funcionar como elos subordinados de uma cadeia hierárquica. Tornaram-se agentes com autonomia decisória, base eleitoral própria e capacidade de negociar em múltiplas direções. Absorvem investimentos, ampliam sua legitimidade local e mantêm abertas — deliberadamente — todas as alternativas políticas para o ciclo seguinte.

O erro não está neles. Está em quem ainda os lê como dependentes.

A distinção que não foi feita

Há, na ciência política, uma distinção elementar que o governismo baiano parece não ter internalizado: aliados não são alinhados.

O aliado compartilha projeto; o alinhado compartilha conveniência. O aliado permanece quando o custo aumenta; o alinhado recalcula quando o cenário muda. Confundir essas categorias não é apenas imprecisão conceitual — é um erro de diagnóstico com consequências estratégicas diretas.

Ao tratar como aliados agentes que são, no máximo, alinhados circunstanciais, o governismo toma decisões que ampliam exatamente o risco que pretende evitar: quanto mais investe sem estabelecer mecanismos reais de comprometimento político, mais expande a autonomia de quem pode, no momento decisivo, escolher outro caminho.

O paradoxo que o método não captou

Há um paradoxo operacional que se impõe com clareza crescente: fortalecer sem comprometer é, em determinadas condições, fortalecer um adversário potencial. Não por deslealdade, mas por lógica.

Quanto maior a autonomia de uma liderança, maior sua margem de manobra — e menor sua dependência de qualquer centro de poder externo. O governismo bahiano, ao investir sistematicamente sem assegurar contrapartidas claras, produziu exatamente o oposto do que buscava: lideranças com capacidade institucional e liberdade política.

2026 e o risco da reincidência

Se o padrão observado em Ilhéus e Jequié se reproduzir em outras regiões — e os indícios estruturais sugerem que sim —, o governismo pode chegar a 2026 diante de um cenário de lógica cruel: lideranças institucionalmente fortalecidas com apoio estatal, mas politicamente livres para compor com o campo oposicionista.

Não por ruptura dramática, não por traição declarada. Mas por cálculo. E cálculo político bem executado não se anuncia — se revela quando já não há espaço para reação.

O ciclo eleitoral municipal de 2024 forneceu amostras suficientes. O problema é que amostras não produzem aprendizado quando a premissa que gerou o erro permanece intacta.

O que a teoria já explicou

Da tradição analítica de Giovanni Sartori às análises contemporâneas sobre presidencialismo de coalizão, um princípio permanece: sistemas políticos não respondem a intenções, mas a incentivos. Vence quem compreende os incentivos reais dos atores; erra quem projeta neles os incentivos que gostaria que tivessem.

  1. O governismo baiano não carece de informação. Carece, ao que tudo indica, de disposição para rever uma premissa que, por muito tempo, funcionou — e que, por isso mesmo, resiste a ser abandonada, mesmo quando já não descreve a realidade.

Essa é a armadilha mais sofisticada da política: o erro que persiste não por desconhecimento, mas por inércia. Não por ignorância da evidência, mas por resistência à sua consequência.

Ilhéus foi um aviso. Jequié é uma confirmação. O próximo caso — se vier — já não terá o estatuto de surpresa. Será método.

Porque, na política, como em qualquer disciplina que se pretenda científica, há erros que se cometem por ignorância e erros que se cometem por insistência. Os primeiros ensinam. Os segundos cobram.

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