O sul que renasce
Como Jerônimo redesenha a geografia econômica do litoral cacaueiro com R$ 275 milhões em obras estruturantes — três frentes simultâneas em Ilhéus, Itabuna e Uruçuca rompem décadas de letargia regional e devolvem ao eixo litorâneo o protagonismo perdido na crise do cacau.

Entre máquinas pesadas em operação contínua, pontes erguidas sobre o Rio Cachoeira e quilômetros de pista nova avançando em três frentes distintas, o sul da Bahia atravessa aquilo que poucos governos tiveram coragem de tentar: um ciclo coordenado de infraestrutura pública executado em paralelo, sem que uma obra cancele a outra no orçamento. Sob a gestão de Jerônimo Rodrigues, mais de R$ 275 milhões avançam ao mesmo tempo nos canteiros de Ilhéus, Itabuna e Uruçuca — provavelmente o maior volume de investimento viário direcionado à região desde os ciclos de pavimentação federal da década de 1970, quando a BR-101 foi rasgada pelo litoral baiano.
A região aprendeu, ao longo de quatro décadas, a desconfiar de obra anunciada. O auge do cacau, no começo dos anos 1980, foi seguido pela vassoura-de-bruxa, pela fuga de capital, pelo esvaziamento das fazendas e por uma sucessão de governos que prometeu reconstruir o sul baiano sem cumprir. O Porto Sul virou sinônimo de adiamento. A FIOL passou a ser citada com ironia. As estradas envelheceram sem manutenção estrutural. Sobre o eixo Ilhéus–Itabuna recaiu, por anos, a imagem mais cruel possível para uma região com vocação portuária e turística: a do gargalo logístico permanente, como se o destino econômico do sul tivesse sido decidido por uma falha cartográfica.
O quadro mudou. E mudou depressa.
Simultaneidade: uma decisão política antes de ser técnica
O que distingue o momento atual não é apenas o volume financeiro mobilizado. É a coordenação simultânea — variável que, na engenharia política de obras públicas, costuma ser tratada como inviável. Conduzir uma única intervenção viária de grande porte em região historicamente preterida já bastaria como marca de gestão. Tocar três ao mesmo tempo, em municípios distintos, com integração logística desenhada como sistema, exige equipe coordenada, fluxo orçamentário previsível, fiscalização ativa e capacidade de absorver atritos administrativos sem paralisar canteiros. Pouca gente acompanha obra pública na Bahia há tempo suficiente para subestimar o peso dessa coordenação.
A leitura das três frentes em conjunto sustenta a tese de que existe, no Palácio de Ondina, um desenho regional articulado. A nova rodovia entre Ilhéus e Itabuna prepara o eixo que receberá, no médio prazo, o fluxo do Porto Sul e da FIOL. A duplicação da zona sul reorganiza o tecido urbano da cidade que vai abrigar esse fluxo. A pavimentação Uruçuca–Serra Grande abre a porta interna da Costa do Cacau, integrando o ecoturismo à economia litorânea. Não são três obras avulsas costuradas por marketing eleitoral. Funcionam como peças encaixadas de um mesmo tabuleiro.
BA-649: a espinha dorsal da nova logística regional
A Nova Rodovia Ilhéus–Itabuna, oficialmente BA-649, é hoje a principal vitrine do ciclo. Cerca de dezoito quilômetros de pista nova, quatro pontes, um viaduto e integração planejada com Porto Sul, FIOL e BR-415 desenham um corredor que altera, em definitivo, o eixo econômico do sul baiano. O investimento estimado, próximo de R$ 202 milhões, é o maior aporte viário aplicado à região em pelo menos duas gerações.
Os números do canteiro acompanham o discurso oficial. Trechos ultrapassam noventa por cento de execução física. As pontes estão praticamente concluídas. O viaduto avança em fase final. Em um estado acostumado ao ritual do anúncio sem entrega, a velocidade chama atenção e devolve algo raro à conversa pública: credibilidade. O efeito projetado, quando a rodovia estiver plenamente operacional, deverá ser sentido em camadas — encurtamento do tempo logístico entre o porto e o interior produtivo, valorização imobiliária ao longo do traçado, atração de operadores privados de armazenagem e transporte, redesenho urbano nos pontos de conexão da nova via com Ilhéus e com Itabuna.
Não passa despercebida, no setor produtivo, a antecipação privada. Galpões logísticos, postos de combustível, lotes industriais e empreendimentos imobiliários ao longo do traçado já registram movimentação que não havia há anos. Quando o capital chega antes do asfalto, o que se mede não é só a obra: é o crédito que o mercado começa a depositar nela.
Zona sul de Ilhéus: a duplicação que reorganiza a cidade
Enquanto a BA-649 reorganiza o eixo intermunicipal, Ilhéus vive, em seu próprio território, uma transformação urbana de igual significação econômica, embora com perfil menos espetacular. A retomada da segunda fase da duplicação da BA-001, na zona sul, com novo contrato estimado em cerca de R$ 24,4 milhões, recoloca em movimento o vetor imobiliário mais valorizado da cidade. O que está em jogo na zona sul ilheense vai além da pista duplicada. Trata-se do eixo turístico-residencial que conecta a cidade às praias da Costa do Cacau, atravessa loteamentos de alto padrão e organiza o acesso ao polo hoteleiro do litoral sul.
A obra havia sido interrompida após o desempenho insatisfatório da contratada anterior — episódio que reabriu, com razão, o debate sobre fiscalização contratual e o custo público da inadimplência empresarial. A decisão do governo estadual de relicitar e manter a duplicação como prioridade absoluta carrega duas mensagens políticas. A primeira é que rotas administrativas podem ser corrigidas sem que a entrega seja abandonada. A segunda é que Ilhéus permanece como cidade prioritária na arquitetura de investimentos estaduais. Concentrar simultaneamente uma intervenção intermunicipal e uma intraurbana de grande porte no mesmo município é fenômeno raro na história recente da Bahia.
Uruçuca–Serra Grande: a Costa do Cacau enfim se abre
A pavimentação da BA-653, ligando Uruçuca ao distrito de Serra Grande, talvez seja a obra de maior valor simbólico das três. O governo autorizou oficialmente a intervenção em cerca de 37,5 quilômetros, com investimento da ordem de R$ 50,1 milhões e licitação homologada. Para quem conhece a região, o asfalto significa muito mais do que mobilidade. Significa o fim de um isolamento que mantinha Serra Grande dependente de uma estrada de chão intransitável em períodos de chuva e desconectada da economia litorânea que sua geografia sempre prometeu.
A obra atravessa território ambientalmente sensível — Mata Atlântica preservada, entorno do Parque Estadual da Serra do Conduru, comunidades tradicionais — e por isso exige do Estado mais do que capacidade construtiva. Exige cuidado ambiental rigoroso, controle técnico de execução e diálogo com os movimentos locais. O debate público já se deslocou. Não se discute mais se a estrada deve existir; discute-se como ela deve ser executada. Esse deslocamento, em si, indica certa maturidade política. A interiorização do turismo passou a ser aceita como caminho inevitável; o que está em pauta agora é o método.
A leitura política: gestão sob escrutínio
Há um traço comum às três frentes, perceptível sobretudo para quem acompanha obra pública há tempo: capacidade de gestão. Conduzir simultaneamente intervenções desse porte, com origens contratuais distintas, históricos administrativos diferentes e exigências técnicas heterogêneas, demanda mais do que vontade política. Demanda articulação institucional contínua, equipe técnica afinada, disposição para corrigir rotas e firmeza para manter prioridades quando o calendário eleitoral exige dispersão de atenções.
Convém, entretanto, registrar a contraparte. Persistem desafios conhecidos da máquina pública baiana — burocracia, risco de aditivos contratuais, dependência fiscal, pressão política regional, fragilidades de fiscalização em obras de longa extensão — e o setor produtivo regional acompanha cada um desses pontos com olhar crítico. Mesmo sob essas limitações históricas, o atual ciclo impressiona pela continuidade e pela velocidade de execução. É essa combinação, e não o anúncio isolado, que sustenta o crédito político crescente de Jerônimo Rodrigues no sul baiano. O eleitorado da região aprendeu, na própria carne, a diferença entre quem fala de obra e quem entrega obra. A diferença passa, neste momento, pelas câmeras de monitoramento dos canteiros da BA-649, da BA-001 sul e da BA-653.
A nova geografia econômica que emerge
Somadas, as três frentes estruturam o maior ciclo de infraestrutura regional do sul baiano em pelo menos uma geração. A Nova Rodovia Ilhéus–Itabuna concentra cerca de R$ 202 milhões, a duplicação da zona sul aproxima-se de R$ 24,4 milhões e a pavimentação Uruçuca–Serra Grande responde por R$ 50,1 milhões, totalizando algo em torno de R$ 276,5 milhões em investimentos diretos. É volume capaz de alterar, de forma duradoura, a logística regional, o fluxo turístico, a dinâmica imobiliária, a integração entre municípios e a percepção pública da presença do Estado.
A geografia econômica que emerge desse arranjo é nova. Ilhéus consolida-se como polo logístico-portuário e turístico de envergadura estadual. Itabuna reforça seu protagonismo comercial e universitário. Serra Grande passa a ocupar o papel de corredor turístico premium da Costa do Cacau. Uruçuca, finalmente, aproxima-se da economia litorânea que sempre foi sua vocação geográfica. Toda a faixa que vai do Porto Sul ao Parque Estadual da Serra do Conduru ingressa em novo ciclo de valorização da terra, da economia local e da própria imagem regional.
O mercado privado já leu o movimento. Operadores logísticos pesquisam terrenos. Redes hoteleiras nacionais sondam parcerias na orla sul. Empreendimentos imobiliários aceleram lançamentos. Investidores agropecuários reposicionam ativos no entorno da Costa do Cacau. Quando o capital privado se antecipa à conclusão das obras públicas, a leitura é uma só: o mercado acredita que dessa vez é diferente.
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O futuro que volta a passar pelo sul
Durante décadas, o sul da Bahia viu o futuro passar por outras regiões do estado — pela região metropolitana, pelo Oeste agroexportador, pelo Recôncavo industrial. As estradas que cortavam Ilhéus, Itabuna, Uruçuca e a Costa do Cacau eram herdadas, não construídas. Agora, pela primeira vez em uma geração, o mapa do desenvolvimento volta a ser desenhado a partir daqui. As obras ainda não estão integralmente concluídas. Algumas levarão tempo até revelar o impacto pleno. Mas a transformação começou — e dificilmente será desfeita pelos próximos ciclos políticos.
A história econômica do sul baiano sempre se mediu por aquilo que a região perdeu: o cacau, a renda, os jovens que migraram, as oportunidades que escorreram para outros mapas. Talvez comece agora um capítulo medido por aquilo que a região finalmente está recebendo. Quem percorre, ao fim da tarde, qualquer trecho da BA-649, da BA-001 sul ou da BA-653 já enxerga, no horizonte, a forma desse capítulo: máquinas em movimento, asfalto avançando, pontes terminadas e um sul da Bahia que volta a acreditar que pode ser protagonista da própria história.
JERBSON MORAES
colunista de Poder & Política · Manejo Notícias



