A Ruptura de Angelo Coronel e o Novo Equilíbrio de Forças na Bahia

A política baiana testemunhou, nas últimas semanas, um daqueles movimentos tectônicos que redefinem paisagens inteiras. A saída do senador Angelo Coronel do PSD — partido que ajudou a fundar na Bahia — e sua migração para o campo oposicionista não constitui mero episódio de dissidência pessoal: trata-se de uma reconfiguração estrutural do tabuleiro eleitoral às vésperas de 2026.
Coronel, que por mais de oito anos sustentou os governos petistas no plano estadual e federal, viu-se excluído dos planos da base aliada quando o PT decidiu lançar chapa “puro-sangue” ao Senado, reservando as duas vagas disponíveis para Jaques Wagner e Rui Costa. “Não tenho sangue de barata para ser limado e aceitar”, declarou o senador, num desabafo que sintetiza tanto a frustração pessoal quanto a ruptura política irreversível.
O Cálculo do PT e Seus Custos
A decisão petista de prescindir de Coronel obedece a uma lógica interna compreensível: três pré-candidatos — Wagner, Rui Costa e Coronel — disputavam apenas duas vagas. Alguém ficaria de fora. O PT optou por privilegiar seus quadros históricos, dois ex-governadores cuja trajetória se confunde com a própria hegemonia lulista na Bahia.
O preço dessa escolha, contudo, não é desprezível. A coalizão governista, que vinha agregando quase todos os grandes partidos locais numa frente de amplitude inédita, sofre agora uma contração simbólica e prática. Perde-se um senador em exercício, um deputado federal, um deputado estadual e, sobretudo, a capilaridade que o grupo Coronel construiu no interior do estado ao longo de décadas.
Há, porém, uma compensação estratégica. Com Coronel fora, dissolve-se a disputa interna e clarifica-se o projeto eleitoral. Jerônimo Rodrigues pode agora trabalhar uma campanha casada — governador e dois senadores no mesmo palanque, no mesmo material, sem as ambiguidades que costumam minar coligações heterogêneas. A base se encolhe, mas ganha coesão. Perde-se em extensão; ganha-se em disciplina.
A Oposição Finalmente Unificada
Se o episódio cobra tributo do campo governista, oferece dividendos substanciais à oposição. Em 2022, ACM Neto e João Roma fragmentaram o voto antipetista, facilitando a vitória de Jerônimo já no primeiro turno. O erro não se repetirá em 2026.
A adesão de Coronel ao União Brasil completa uma arquitetura que vinha sendo pacientemente montada: ACM Neto encabeça a chapa como candidato ao governo, enquanto João Roma (PL) e Angelo Coronel disputam as duas vagas senatoriais. Três lideranças de extração diversa — a tradição carlista, o bolsonarismo e a dissidência do petismo — convergem agora para um projeto comum.
O simbolismo não escapa a ninguém: um senador eleito na chapa de Lula em 2018 migra para o campo adversário, legitimando o discurso de que até aliados históricos do PT reconhecem a necessidade de alternância. Coronel traz consigo, além do mandato, um patrimônio político construído em bases municipais do interior — exatamente o território onde a oposição tradicionalmente encontra maior resistência.
Os Bastidores da Ruptura
A convivência entre Coronel e Otto Alencar, líder do PSD baiano, vinha se deteriorando havia tempo. Episódios reveladores antecederam o rompimento: uma oferta de vaga no Tribunal de Contas do Estado — possivelmente uma forma elegante de retirá-lo da disputa eleitoral — foi recusada; o impasse sobre a vice-governadoria em 2022 deixou cicatrizes; e uma tentativa de Coronel de assumir o controle do PSD estadual, articulando diretamente com Gilberto Kassab, apenas aprofundou seu isolamento.
Kassab, pragmático, preferiu manter a aliança nacional com o PT mesmo ao custo de reduzir a “densidade política” do PSD na Bahia. Otto Alencar consolidou sua liderança e já planeja a sucessão partidária em favor de seu filho, Daniel. O PSD baiano perde quadros importantes, mas ganha coesão interna sob tutela única.
O Que Está em Jogo
A disputa pelas duas vagas ao Senado promete ser o termômetro mais preciso do embate entre lulismo e antipetismo na Bahia. De um lado, Wagner e Rui Costa carregam toda a simbologia de dezesseis anos de governos petistas; do outro, Coronel e Roma representam a ruptura e a renovação — ainda que vindos de matrizes ideológicas distintas.
O sistema majoritário de dois votos por eleitor favorece chapas coesas. Os governistas apostarão no “voto casado” Wagner-Rui; a oposição pedirá o mesmo para Coronel-Roma. A contagem final poderá revelar desde a manutenção das duas cadeiras pelo grupo governista até uma divisão entre os campos — cenário que, há poucos meses, pareceria improvável.
Riscos e Apostas
Coronel assume riscos consideráveis. Abre mão da estrutura do PSD, do apoio de Lula e da máquina governista, trocando-os pela incerteza de um campo oposicionista que, embora fortalecido, enfrenta adversários tradicionalmente muito organizados. Uma derrota em 2026 significaria ficar sem mandato — e sem a vaga no TCE que possivelmente lhe fora ofertada e recusada.
A aposta, contudo, tem sua lógica. Permanecer na base aliada como aliado preterido seria aceitar um papel secundário, sem perspectiva de protagonismo. Na oposição, Coronel ocupa o centro do debate público, é cortejado por vários partidos e se torna peça-chave de uma coligação competitiva. Se vencer, terá provado sua força e ampliado sua estatura como liderança independente.
Um Novo Capítulo
A política baiana entra em 2026 com linhas menos borradas e um embate mais equilibrado. A hegemonia petista, que parecia consolidada após quase duas décadas de domínio, enfrenta agora uma oposição articulada, unificada e com novos aliados.
Jerônimo Rodrigues mantém as vantagens da incumbência e da máquina estadual, mas não terá a comodidade de enfrentar adversários fragmentados. ACM Neto, revigorado pela adesão de Coronel, apresenta-se como líder de uma frente ampla pela alternância. Wagner e Rui Costa, embora tenham “ganho” internamente o direito de disputar o Senado, terão trabalho redobrado para se elegerem.
O episódio serve, ainda, como recado aos demais integrantes da coalizão governista: o governo prioriza coesão e previsibilidade, ainda que custe perder alguém do calibre de Coronel. Essa demonstração de autoridade pode desestimular novas deserções — mas também revela os limites de uma aliança que, por vezes, confunde lealdade com submissão.
A histórica disputa entre carlismo e lulismo na Bahia inaugura, assim, um novo capítulo. As peças foram redistribuídas; o jogo recomeça.



