ANÁLISE & OPINIÃO

Venezuela sob nova ordem: da captura de Maduro à disputa pelo petróleo

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A operação que redesenhou o mapa geopolítico da América do Sul

Na madrugada de 3 de janeiro de 2026, os Estados Unidos conduziram a Operação Resolução Absoluta — uma incursão militar que capturou o presidente Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores, no complexo militar de Fuerte Tiuna, em Caracas. A ação, executada pela Delta Force com mais de 150 aeronaves, durou cerca de duas horas e vinte minutos. Não houve baixas americanas; ao menos 80 venezuelanos morreram, segundo fontes do governo local.

O presidente Donald Trump classificou a operação como “uma das mais impressionantes demonstrações de força militar americana desde a Segunda Guerra Mundial”. Em coletiva realizada em Mar-a-Lago, anunciou que os EUA passariam a “administrar” a Venezuela até a conclusão de uma transição política.

O episódio marca um novo capítulo nas relações hemisféricas — e levanta questões profundas sobre soberania, direito internacional e os limites do uso da força por potências globais.


Maduro em Nova York: acusações e julgamento

Maduro e Cilia Flores foram transportados para os Estados Unidos e apresentados à Justiça Federal no Distrito Sul de Nova York. A denúncia inclui acusações de narcoterrorismo, conspiração para importação de cocaína e posse ilegal de armas automáticas.

Na audiência de 5 de janeiro, ambos se declararam inocentes. A próxima sessão está marcada para 17 de março.

A procuradora-geral Pam Bondi afirmou que os acusados “enfrentarão toda a força da justiça americana”. Críticos, no entanto, apontam fragilidades na denúncia. O Departamento de Justiça recuou em uma das acusações centrais — a de que Maduro liderava o chamado Cartel de Los Soles — dias após sua prisão.


Delcy Rodríguez assume: continuidade sem ruptura

Horas após a captura de Maduro, o Tribunal Supremo de Justiça da Venezuela empossou a vice-presidente Delcy Rodríguez como presidente interina. Ela recebeu apoio das Forças Armadas Bolivarianas e assumiu o controle do governo sem expurgos ou cisões internas visíveis.

Rodríguez, figura central do chavismo, ocupou anteriormente os cargos de ministra das Finanças, presidente do Banco Central e ministra do Petróleo. Sob sua gestão, a Venezuela implementou programas de liberalização econômica, incluindo a dolarização parcial da economia e a Lei Antibloqueio de 2020, que ampliou a participação privada no setor petrolífero.

Em seu primeiro discurso ao Congresso, em 15 de janeiro, Rodríguez defendeu reformas para atrair investimentos estrangeiros ao setor de hidrocarbonetos — um aceno às demandas americanas, ainda que sob forte tensão retórica.

“Há uma mancha em nossas relações”, declarou, referindo-se aos EUA. Ao mesmo tempo, delineou uma visão de cooperação pragmática, distanciando-se da postura confrontacional de Maduro.


Petróleo: o centro gravitacional da crise

A Venezuela detém as maiores reservas comprovadas de petróleo do planeta — cerca de 303 bilhões de barris, ou 17% do total mundial. Essa riqueza está no epicentro da ação americana.

Trump foi explícito: “O que precisamos de Delcy Rodríguez é acesso total. Acesso total ao petróleo e a outras coisas no país que nos permitirão reconstruí-lo.”

A estratégia dos EUA inclui:

  • Manutenção do bloqueio naval a petroleiros sancionados
  • Controle das receitas de exportação de petróleo, depositadas em contas nos EUA
  • Entrada de petroleiras americanas para investir na infraestrutura sucateada da PDVSA

A produção venezuelana, que já ultrapassou 3 milhões de barris diários, hoje oscila em níveis historicamente baixos. Analistas estimam que seriam necessários mais de US$ 100 bilhões em investimentos para restaurar a capacidade produtiva do país — mais que o dobro do que as petroleiras americanas investiram globalmente em 2025.


Reações internacionais: divisão profunda

A comunidade internacional se dividiu. Em 4 de janeiro, Brasil, Chile, Colômbia, México, Espanha e Uruguai emitiram declaração conjunta expressando “profunda preocupação e firme rejeição às ações militares conduzidas unilateralmente em território venezuelano”.

O presidente Lula classificou a operação como “uma afronta muito grave à soberania da Venezuela e um precedente extremamente perigoso para toda a comunidade internacional”.

Por outro lado, países como Israel, Suécia e o presidente eleito do Chile, José Antonio Kast, saudaram a queda de Maduro. A União Europeia defendeu que a transição política inclua os líderes da oposição María Corina Machado e Edmundo González.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, alertou para “implicações preocupantes” da ação e manifestou temor de “intensificação da instabilidade” na região.


O “dia seguinte”: incertezas e riscos

A captura de Maduro não significou mudança de regime. O chavismo permanece no poder, com sua estrutura institucional, militar e partidária intacta. Rodríguez governa com respaldo do Tribunal Supremo, das Forças Armadas e do Partido Socialista Unido da Venezuela.

“Apesar da prisão de Maduro, o regime permanece intacto”, avalia André Kaysel, professor de Ciência Política da Unicamp. “Não há, até o momento, qualquer sinal de reviravolta interna.”

Os desafios são múltiplos:

  • Resistência interna: A Venezuela conta com cerca de 125 a 150 mil militares ativos e 200 mil milicianos organizados nos chamados “colectivos”. O risco de confronto armado persiste.
  • Legitimidade questionável: A Human Rights Watch alertou que os EUA parecem “dispostos a incentivar a Venezuela a manter o aparato repressivo de Maduro, desde que isso promova interesses políticos e comerciais americanos”.
  • Crise humanitária: Mais de 20 milhões de venezuelanos vivem em situação de pobreza multidimensional. Hospitais operam sem insumos básicos. O êxodo migratório já supera 7 milhões de pessoas.
  • Presos políticos: Das mais de 800 pessoas detidas por motivos políticos, apenas 68 haviam sido libertadas até 14 de janeiro, segundo organizações de direitos humanos.

Precedente perigoso ou nova doutrina?

O senador democrata Mark Warner sintetizou a preocupação de parte da comunidade internacional: “Isso significa que qualquer país grande pode indiciar o governante de um país menor adjacente e simplesmente retirá-lo do poder?”

A ex-vice-presidente Kamala Harris classificou a ação como “imprudente e ilegal”, afirmando que “não torna a América mais segura”.

Para o professor Pedro Paulo Zahluth Bastos, do Instituto de Economia da Unicamp, a operação reflete uma reconfiguração mais ampla: “Não se trata somente da relação entre Estados Unidos e Venezuela por causa do petróleo, mas de uma questão estrutural — a posição da América Latina no confronto estratégico entre Estados Unidos e China.”


Perspectivas para 2026

O cenário permanece volátil. A Venezuela enfrenta simultaneamente:

  • Pressão americana por acesso ao petróleo
  • Governo interino que busca legitimidade interna e externa
  • Estrutura chavista que resiste a qualquer transição
  • Crise humanitária crônica sem solução à vista
  • Comunidade internacional dividida sobre os limites da ação unilateral

A trajetória do país nas próximas semanas dependerá da capacidade de Delcy Rodríguez de equilibrar as exigências de Washington com a manutenção de sua base política interna — e da disposição dos EUA de negociar ou impor sua agenda pela força.

Como resumiu um analista: “O que começou como disputa eleitoral em 2024 transformou-se em intervenção militar em 2026. O precedente está aberto. As consequências, ainda por vir.”


Leitura Manejo | Geopolítica & Mundo

A captura de Nicolás Maduro pelos Estados Unidos representa um ponto de inflexão na política hemisférica. Mais do que o destino de um líder autoritário, o episódio coloca em xeque princípios fundamentais do direito internacional e inaugura uma era de incertezas para a América Latina. O petróleo venezuelano, que já foi símbolo de soberania nacional, agora é peça central de uma disputa que extrapola fronteiras — e cujo desfecho permanece em aberto.

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