BAHIA: A EQUAÇÃO DA VICE E O RISCO DE MEXER NO QUE JÁ ESTÁ EQUILIBRADO

Na política, há decisões que parecem pequenas no papel, mas carregam significado estrutural no tabuleiro do poder. A escolha — ou a manutenção — de um candidato a vice-governador é uma delas.
Muito além de uma formalidade eleitoral, a vice-governadoria funciona como um símbolo de equilíbrio dentro da coalizão governante. Ela expressa a hierarquia entre partidos, distribui prestígio político e sinaliza quem ocupa posição estratégica no arranjo de poder que sustenta um governo.
Na Bahia governada por Jerônimo Rodrigues, onde a base aliada alcançou um grau raro de coesão para os padrões da política brasileira, a eventual discussão sobre mudança na composição da chapa levanta uma questão essencial: qual seria o ganho político de alterar uma estrutura que já se encontra estabilizada?
A resposta, quando observada com o distanciamento analítico que a política exige, tende a ser incômoda para os entusiastas da mudança: o ganho é incerto; o risco, evidente.
A engenharia de uma coalizão consolidada
A sustentação política do governo baiano repousa sobre uma arquitetura partidária ampla e relativamente coesa. Nela convivem PT, PSD, MDB, PSB, PCdoB, PV, além de siglas como Avante e Solidariedade.
Não se trata de uma coligação circunstancial, montada às vésperas de uma eleição. Trata-se de um arranjo político que passou pelo teste das urnas e atravessou o primeiro ciclo de governo — algo que, em um sistema partidário fragmentado como o brasileiro, representa um indicador relevante de estabilidade.
Nesse estágio, a vice-governadoria deixa de cumprir sua função original — atrair novos aliados ou acomodar disputas iniciais — e passa a exercer um papel mais sofisticado: preservar o equilíbrio interno da coalizão.
Alterar esse equilíbrio, quando não há ruptura iminente ou necessidade estratégica evidente, costuma produzir mais ruído do que resultado.
O peso político dos símbolos
Coalizões amplas são organismos sensíveis a sinais. Partidos não avaliam apenas a quantidade de cargos que ocupam — avaliam o reconhecimento político que lhes é atribuído.
Prestígio, na política, tem valor concreto.
Nesse contexto, o MDB, legenda do vice-governador, ocupa posição relevante na engrenagem política do estado. Com forte presença no interior baiano, o partido funciona como uma espécie de ponte entre o Palácio de Ondina e a política municipal — uma rede de prefeitos, vereadores e lideranças locais que, em ciclos eleitorais, desempenha papel decisivo na mobilização territorial.
Reduzir ou deslocar esse protagonismo — mesmo sem ruptura formal — produziria um efeito político imediato: o sinal de que a hierarquia interna da coalizão está sendo reescrita.
E na política, reescritas de hierarquia raramente passam sem reação.
O risco silencioso das coalizões
A experiência política brasileira mostra que crises em coalizões raramente se manifestam de forma abrupta. Rompimentos formais são exceção. O que ocorre com mais frequência é um processo gradual de distanciamento político.
Prefeitos que mobilizam menos suas estruturas. Lideranças regionais que comparecem aos atos públicos, mas sem entusiasmo. Aliados que permanecem na base, porém com engajamento eleitoral reduzido.
Esse tipo de erosão é difícil de capturar em pesquisas iniciais. Ela aparece na prática política cotidiana — nas campanhas municipais, na mobilização de lideranças locais e na capacidade de ativar redes políticas no interior do estado.
Em eleições estaduais, especialmente em estados extensos como a Bahia, essas redes territoriais costumam decidir mais do que discursos ou narrativas.
A eleição antes da eleição
Antes da disputa nas urnas existe outra disputa — menos visível, mas igualmente decisiva. É a batalha pela coerência interna da coalizão governante.
Governos que entram em um processo eleitoral com bases coesas e aliados motivados partem com uma vantagem que ainda não aparece nas pesquisas, mas que se revela no território: na mobilização municipal, no alcance das campanhas e na energia das lideranças intermediárias.
Por isso, preservar o equilíbrio interno da base não é mera questão administrativa. É estratégia eleitoral de alto nível.
A política do não-fazer
Existe uma sabedoria pouco celebrada na política: a de saber quando não agir.
Em sistemas políticos complexos, decisões aparentemente inovadoras podem produzir instabilidade onde antes havia previsibilidade. Alterar um arranjo que já se encontra estabilizado pode gerar exatamente o efeito oposto ao pretendido: insegurança entre aliados e ruído em uma estrutura que vinha operando com relativa harmonia.
Na Bahia que se aproxima das eleições de 2026, a pergunta relevante não é se a composição da chapa pode ser modificada — a política permite quase tudo.
A pergunta correta é outra: há uma razão estratégica suficientemente forte para justificar os riscos dessa mudança?
Se essa razão não existe, a prudência recomenda o caminho mais sofisticado — e, muitas vezes, o mais difícil:
preservar o equilíbrio que já foi construído.



