
Ilhéus assiste, mais uma vez, ao espetáculo da história contada pela metade. O ex-prefeito que hoje volta à cena política reapresenta ao público o mesmo roteiro de outros tempos: um inventário de obras estruturantes, a ponte, os equipamentos de saúde, as intervenções urbanas, em que ele próprio figura como protagonista quase exclusivo. A cidade, nessa dramaturgia, é cenário. Os governos federal e estadual, verdadeiros autores do ciclo, são reduzidos a coadjuvantes apagados. E o tempo, ao que tudo indica, não se passou.
Não se trata de negar à gestão municipal sua parcela de trabalho, que existe e tem limites institucionais próprios. Trata-se de restabelecer a verdade, condição mínima para qualquer debate público sério.
Obras de grande envergadura não brotam em gabinetes municipais. Elas dependem de decisão política no mais alto nível, de planejamento técnico complexo, de capacidade de financiamento em horizonte plurianual e, sobretudo, de uma escolha estratégica de Estado. No caso concreto de Ilhéus, essa escolha teve endereço claro e rastreável: veio do governo federal conduzido pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e dos governos estaduais do então governador Rui Costa, hoje ministro-chefe da Casa Civil e, em sequência, do atual governador Jerônimo Rodrigues. Foi a União, sob comando de Lula, que viabilizou os recursos em escala compatível com a magnitude das intervenções. Foi o Estado, sob liderança de Rui Costa, que articulou, estruturou e pôs em movimento a engenharia institucional das obras. E é sob Jerônimo Rodrigues que, neste exato momento, se dá a execução concreta do plano na costa do cacau: obras entregues, obras em andamento e obras que seguirão sendo entregues ao longo de sua gestão porque o governador não apenas recebeu um ciclo em curso, ele o assumiu, o amplia e dará continuidade àquilo que ainda não foi entregue. Em síntese: é o projeto político do Partido dos Trabalhadores que, em ciclos sucessivos e convergentes, decidiu e segue decidindo investir em Ilhéus, quando outros poderiam simplesmente ter ignorado a região.
O município cumpre seu papel recebe, integra, acompanha, executa parcelas. Mas não cria, por si só, obras dessa magnitude. É precisamente nesse ponto que o discurso personalista deixa de ser exagero retórico e se converte em distorção institucional: ao se colocar como origem daquilo que apenas se integrou a um fluxo muito maior, aquele que hoje reivindica o passado não amplifica sua biografia política descola-se da realidade que pretende representar.
Há quem trate isso como vaidade menor, espuma de campanha. Subestima-se o problema.
Porque essa narrativa tem consequências mensuráveis. Quando a população deixa de associar as grandes transformações urbanas aos seus efetivos viabilizadores Lula, no plano federal; Rui Costa e Jerônimo Rodrigues, no plano estadual, abre-se um descompasso entre investimento público e retorno político. O recurso chega, a obra se ergue, o benefício se materializa e, ao fim do ciclo, o reconhecimento eleitoral migra para endereços que não o construíram. Ilhéus viveu isso de forma escancarada. O campo governista se viu diante do paradoxo mais ingrato da democracia representativa: ter entregue sem ter sido reconhecido por quem entregou.
A explicação não é mística. É institucional. O crédito foi desviado porque a narrativa local permitiu que fosse por repetição insistente, por ausência de contraponto organizado, por uma cultura política que privilegia o personagem em detrimento do processo. Ao longo dos anos, consolidou-se na cidade uma espécie de mitologia paralela, em que realizações pertencentes a um projeto nacional e estadual concebido, financiado e executado, e ainda hoje em plena execução por Lula, Rui Costa e Jerônimo Rodrigues foram absorvidas, simbolicamente, por protagonismos municipais que não as financiaram, não as desenharam e não têm como sustentá-las sozinhos daqui para frente.
O resultado é conhecido. Um eleitorado confuso quanto à autoria daquilo que usufrui. Lideranças governistas cuja obra ficou invisível. E, no outro polo, figuras que colhem louros de um plantio que não fizeram.
Repetir hoje, em 2026, o mesmo roteiro que já se mostrou politicamente frágil não é estratégia é persistência no equívoco. É supor que o eleitor não aprende, que a imprensa não compara, que a história não cobra. O protagonista que retoma agora a palavra reedita, sem qualquer revisão crítica, aquele mesmo gestor de ciclos anteriores, como se os resultados pregressos não o tivessem desautorizado, e como se o eleitor tivesse perdido, pelo caminho, a capacidade de comparar discurso e realidade.
Há, contudo, um limite civilizatório para essa postura. Em um regime federativo, atribuir-se obras viabilizadas por políticas públicas estaduais e federais extrapola a apropriação indevida de capital simbólico alheio. Configura, em sentido mais profundo, ingratidão institucional uma forma particular de deslealdade com os próprios eleitores, que têm o direito elementar de saber quem, de fato, transformou suas vidas e, portanto, quem tem condições efetivas de seguir transformando.
Ao apagar os autores do presente, compromete-se o futuro. Ninguém investe duas vezes em quem não reconheceu o primeiro investimento. Nenhum projeto político se sustenta sobre o silêncio quanto àqueles que o tornaram possível.
Há, ademais, uma dimensão projetiva que não pode ser escamoteada. O governador Jerônimo Rodrigues não apenas deu sequência ao que havia sido iniciado ele entrega, segue entregando e dará continuidade àquilo que ainda não foi entregue. As obras hoje visíveis nas ruas de Ilhéus não esgotam o plano: há frentes abertas, contratos em execução, compromissos pactuados e entregas cuja concretização depende da manutenção do atual ciclo de investimento estadual, em articulação direta com o governo federal do presidente Lula. Quem hoje tenta apagar essa autoria não apaga apenas o passado; tenta, na prática, interromper o futuro porque a continuidade daquilo que ainda está por chegar à cidade não é discurso, é política pública em andamento, com nome, cronograma e responsável.
Ilhéus tem, agora, uma decisão a tomar e ela é anterior às urnas.
Ou a cidade reconhece, com a clareza que a história exige, que seu ciclo mais recente de transformação estrutural é indissociável das gestões petistas da presidência de Lula, que decidiu e segue decidindo; do governo de Rui Costa, que articulou e viabilizou; e do governo de Jerônimo Rodrigues, que entrega, segue entregando e dará continuidade àquilo que ainda está por entregar, ou seguirá refém de uma narrativa local que confunde continuidade com paternidade, execução com criação, prefeitura com projeto de país.
A política séria exige memória. E memória, para cumprir sua função cívica, precisa ser honesta sobre quem decidiu, sobre quem financiou, sobre quem construiu. Sem isso, o discurso público se reduz a ruído. E o ruído, mais cedo ou mais tarde, é silenciado pelos fatos.



