BAHIA 2026: A ARTE DIFÍCIL DE PRESERVAR O QUE JÁ SE CONSTRUIU

A reeleição de Jerônimo Rodrigues não está conquistada. Tampouco está perdida. O que os números mais recentes revelam é algo mais incômodo do que uma desvantagem: revelam um empate — e empates, em política, são o terreno mais traiçoeiro que existe, porque exigem disciplina em um ambiente que premia o impulso.
A entrada de João Roma na candidatura oposicionista e a guinada de Ângelo Coronel para o campo de ACM Neto alteram a geometria da disputa. Somam discurso, território e legitimidade política. Não são ruídos. São movimentos organizados.
Mas há uma distinção essencial que a análise apressada costuma ignorar: somar forças à oposição não é, automaticamente, enfraquecer o governo.
O campo governista ainda sustenta pilares que poucas coalizões estaduais conseguem reunir simultaneamente: a força eleitoral de Lula na Bahia, uma máquina administrativa consolidada ao longo de quase duas décadas e uma articulação partidária construída com método e continuidade. Esses ativos não se dissolvem por uma mudança de posição individual — ainda que relevante.
O risco real está em outro lugar.
O PERIGO QUE VEM DE DENTRO
Eleições equilibradas raramente são perdidas por ataques frontais. São perdidas quando quem está competitivo decide que precisa vencer de outra forma.
O cenário atual busca exatamente isso: induzir uma reação desproporcional dentro do campo governista.
Se a percepção de ameaça produzir reconfiguração abrupta da chapa, disputa interna por espaço ou sinalização de fechamento político a aliados estratégicos, o empate técnico de hoje pode se converter em desvantagem — não por força da oposição, mas por erro de condução.
Três estruturas precisam ser preservadas com precisão cirúrgica.
O MDB na vice não é concessão — é arquitetura de estabilidade. Garante tempo de televisão, presença em centenas de municípios e, sobretudo, transmite ao eleitor indeciso uma mensagem de equilíbrio. Alterar essa peça agora seria substituir previsibilidade por improviso em uma fase que não tolera improvisações.
O PSD, sob a liderança de Otto Alencar, funciona como dique de contenção. Sua permanência impede que movimentos individuais se transformem em deslocamentos coletivos. Em política, partidos seguem sinais — e o sinal emitido por Otto reverbera diretamente nos prefeitos, vereadores e lideranças do interior.
O Avante, liderado por Ronaldo Carletto e respaldado politicamente por Rui Costa, exerce um papel ainda mais sofisticado: cresce onde outros partidos já saturaram, opera com eficiência territorial e amplia a base sem elevar o custo político da coalizão. É uma força silenciosa — e exatamente por isso, decisiva.
A MATEMÁTICA QUE TRANSFORMA REELEIÇÃO EM HEGEMONIA
Há um ponto que ainda não foi devidamente compreendido no debate público.
Manter a coalizão não é apenas garantir a reeleição de Jerônimo Rodrigues. É criar as condições para uma vitória ampliada — com a eleição simultânea de dois senadores pela base governista.
Esse cálculo muda tudo.
Deixa de ser uma eleição de sobrevivência e passa a ser uma eleição de estruturação de poder.
Coalizões amplas ampliam capilaridade, fortalecem presença territorial e viabilizam transferência cruzada de votos entre candidaturas majoritárias. Em disputas com múltiplos cargos, essa engrenagem não é acessória — é determinante.
A oposição cresce ao agregar. Governos perdem quando, sob pressão, começam a abrir mão daquilo que já os sustenta.
O QUE A OPOSIÇÃO ENTENDEU — E APOSTOU CORRETAMENTE
ACM Neto compreendeu que a eleição de 2026 não será vencida apenas com capital político individual.
Será vencida com composição.
João Roma agrega conexão com segmentos ideológicos específicos e amplia presença em regiões estratégicas. Ângelo Coronel adiciona densidade política e o discurso de quem conhece o funcionamento interno do próprio governo.
É uma construção inteligente. Não é invencível — mas é suficientemente competitiva para exigir precisão máxima do outro lado.
Eleições competitivas não se decidem no volume do discurso. Se decidem na qualidade da engenharia política.
CONCLUSÃO
Há momentos em que vencer exige expansão. E há momentos em que vencer exige contenção. A Bahia de 2026 está, claramente, no segundo caso.
O grupo governista não precisa reinventar o tabuleiro. Precisa impedir que ele seja desorganizado por reação impulsiva.
Porque, neste cenário, o maior risco não é perder força. É abrir mão dela no momento errado.
Manter a coalizão funcionando não é postura defensiva. É o que pode transformar uma disputa equilibrada em vitória ampla — no governo e no Senado.
Em política, maturidade estratégica é reconhecer que, em determinados momentos,
a jogada mais inteligente não é avançar — é não cometer o erro que o adversário espera.



