Poder & Política

BAHIA: O INVESTIMENTO QUE PODE TER FINANCIADO A OPOSIÇÃO

Como o governismo errou de premissa ao aproximar Zé Cocá — e o que esse episódio revela sobre a nova política do interior baiano

 

Há erros que não aparecem nos boletins de urna. Eles se acumulam silenciosamente, em decisões que pareciam racionais no momento em que foram tomadas, e só se revelam quando o tabuleiro já foi reconfigurado. O episódio envolvendo o prefeito de Jequié, Zé Cocá, e sua relação com o campo governista baiano pertence a essa categoria. Não é um escândalo. Não é uma traição. É algo mais raro e mais grave: um erro de premissa.

Ao longo dos últimos anos, o governismo baiano — estruturado em torno da herança política de Rui Costa e do núcleo petista que ainda orbita o Palácio de Ondina — dedicou esforço considerável a aproximar Zé Cocá de sua órbita. O movimento seguiu o roteiro clássico: palanques compartilhados, entregas de obras, integração institucional e sinalizações públicas de proximidade. O prefeito de uma cidade de porte médio, com capacidade de mobilização regional e trânsito nas mesas de negociação do interior, era um ativo que valia cultivar.

O problema é que cultivar não é o mesmo que converter.

A LÓGICA QUE DEIXOU DE FUNCIONAR

Por décadas, a política baiana operou sobre uma premissa relativamente simples: governos estaduais que investem em lideranças municipais compram lealdade. A equação era quase mecânica — obras, emendas, cargos e proximidade com o poder geravam alinhamento eleitoral. O interior, nessa lógica, era território de acomodação, não de negociação.

Essa premissa foi verdadeira por tempo suficiente para se tornar um reflexo automático das elites políticas do estado. E é exatamente por isso que ela se tornou perigosa: quando uma crença deixa de ser testada, vira dogma.

O que o caso de Zé Cocá evidencia é que o interior baiano mudou. Os prefeitos de médio porte — especialmente aqueles com base política própria, capacidade de arrecadação e perfil de gestão — aprenderam a operar com uma autonomia que antes lhes era negada. Aproximam-se dos governos estaduais de forma seletiva: absorvem investimentos, legitimam sua posição perante o eleitorado local e, quando chega o momento da escolha, exercem uma liberdade que os guardiões do governismo supunham ter comprado.

Não há nada de ilícito nessa operação. Ela é, na verdade, a expressão de uma maturidade política que o interior demorou décadas para desenvolver. O problema não é de Zé Cocá. É do grupo que acreditou que investimento equivalia a fidelidade.

O PARADOXO: QUANDO O ADVERSÁRIO FINANCIA O OPONENTE

Se as tendências em curso se confirmarem, Zé Cocá poderá ocupar posição relevante na arquitetura eleitoral de 2026 — possivelmente como vice de ACM Neto em uma chapa que desafiará o grupo hoje hegemônico na Bahia. É nesse cenário hipotético que o paradoxo se torna mais agudo.

Parte da musculatura política que esse eventual candidato levará para a disputa — a visibilidade ampliada, as entregas que reforçaram sua base, a legitimação institucional que o aproximou do eleitor — terá sido construída, ao menos em parte, com o ambiente criado pelo próprio governismo. Não por ingenuidade de Zé Cocá. Mas por um equívoco de cálculo do outro lado.

É como financiar a construção de uma ponte sem verificar para onde ela leva.

A ironia política desse cenário não é apenas circunstancial. Ela aponta para uma vulnerabilidade estrutural do campo governista baiano: a tendência de confundir presença com adesão, e de tratar o fortalecimento de lideranças regionais como instrumento de controle, quando, na prática, pode funcionar exatamente ao contrário.

O QUE JEQUIÉ ENSINA SOBRE 2026

A disputa pelo governo da Bahia em 2026 ainda está em gestação. Há muitas variáveis a se definir — o nome do candidato do PT, o grau de unidade do campo de ACM Neto, a eventual intervenção de Lula na campanha, o humor do eleitorado após quatro anos de Jerônimo. Não é momento de prognósticos.

Mas há lições que já podem ser extraídas, e o caso de Zé Cocá é uma delas.

A primeira é que a nova política do interior exige contratos, não apenas investimentos. Lideranças regionais com base própria não se fidelizam por gratidão. Exigem reciprocidade concreta, espaço na arquitetura de poder e, sobretudo, respeito à sua autonomia — dentro de limites negociados, não impostos.

A segunda é que o erro de premissa raramente se percebe no momento em que é cometido. Ele se revela nas vésperas da eleição, quando o interlocutor que se supunha aliado está sentado do lado oposto da mesa — mais forte, mais visível e, em parte, graças ao próprio campo que o cultivou.

A política raramente falha por falta de informação. Falha, quase sempre, por excesso de confiança em modelos que já não descrevem a realidade.

O equilíbrio de poder na Bahia pode ter sido silenciosamente reconfigurado. Não nas urnas. Não em uma ruptura dramática. Mas em um cálculo que foi feito errado muito antes de qualquer campanha começar.

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